valéria macedo

Semana duzentos e trinta e seis

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A imortalidade, de Milan Kundera (Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Anna Lucia Moojen de Andrada)
O narrador-autor dá corpo a um romance em sete partes, que intercala as histórias de Agnes, seu marido Paul e sua irmã Laura com uma narrativa retirada da história da literatura: a relação de Goethe e Bettina von Arnim. Com seus personagens reais e inventados, Kundera reflete sobre a vida moderna, a sociedade e a cultura ocidentais, o culto da sentimentalidade, a diferença entre essência individual e imagem pública individual, os conflitos entre realidade e aparência, as variedades de amor e de desejo sexual, a importância da fama e da celebridade, e a típica busca humana pela imortalidade.

Eu não preciso mais de você e outros contos, de Arthur Miller (Tradução de José Rubens Siqueira)
Nos contos deste livro, Arthur Miller dirige a atenção para temas mais íntimos, mas sem nunca perder a extrema clareza, humanidade, empatia e perspicácia de sua obra dramática. Esta coleção de histórias inclui clássicos como “Eu não preciso mais de você”, o conto “Os desajustados” — que deu origem ao célebre filme de John Huston, estrelado por Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift —, “Presença” e “Moça do lar, uma vida”, contos que apresentam uma série de retratos de personagens extraordinários com a vida transformada pelo indizível.

 Companhia de Bolso

A ignorância, de Milan Kundera (Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca)
Namorados de adolescência, Josef e Irena passam vinte anos longe de sua terra natal, ele vivendo na Dinamarca, ela em Paris. Irena reencontra Josef por acaso no aeroporto de Paris. Os dois decidem retornar a Praga, reerguida segundo as regras capitalistas depois da queda dos regimes comunistas do Leste europeu, em 1989. Em comum, eles têm uma história de exílio e um sentimento profundamente nostálgico em relação à paisagem tcheca. Reviver essa relação de amor significa refazer todo o percurso da separação.

Companhia das Letrinhas

Aldeias, palavras e mundos indígenas, de Valéria Macedo (Ilustrações de Mariana Massarani)
Yano, Ëjcre, Üne, Oo — por incrível que pareça, essas quatro palavras significam a mesma coisa. Representam, na língua de quatro povos indígenas diferentes (os Yanomami, os Krahô, os Kuikuro e os Guarani Mbya), o vocábulo casa. Através delas e de muitas outras palavras, neste livro o leitor é convidado a conhecer um pouco da vida e dos costumes desses grupos: onde moram, como se enfeitam, suas festas, sua língua.

Uma introdução aos mundos indígenas para as crianças

Por Valéria Macedo

aldeias

Antes de contar a história de Aldeias, palavras e mundos indígenas, inicio narrando um pouco da minha história. Eu sou antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Há uma década venho trabalhando com populações guarani no Estado de São Paulo, e tenho maior proximidade com duas aldeias: a do Rio Silveira, no litoral, e a do Jaraguá, na capital.

Antes disso, atuei por cinco anos no Instituto Socioambiental (ISA), onde participava da equipe do Programa Povos Indígenas no Brasil. Ali pude tomar contato com a imensa riqueza e diversidade do universo indígena, tomando parte de pesquisas, da produção de livros e do website com informações sobre os diferentes povos e sobre a questão indígena de um modo geral.

A ideia de Aldeias, palavras e mundos indígenas nasceu de conversas com editoras que trabalham na Companhia das Letras, principalmente Mariana Mendes e Rafaela Deiab, quando pensávamos em uma publicação que introduzisse o universo indígena para crianças com pouco ou nenhum contato com a escrita. Nossa intenção era promover um encontro com o universo indígena de modo a evitar preconceitos infelizmente arraigados no senso comum, como a imagem de um nativo genérico e representante de um modo de viver ultrapassado.

Da nossa parte, queríamos mostrar a diversidade entre os grupos indígenas e o quanto eles podem nos ensinar. Enfim, a ideia era ampliar as possibilidades da criança imaginar outros mundos possíveis e, ademais, se imaginar neles. A aposta é que mais pra frente esses leitores possam construir novas possibilidades para nosso mundo!

Com esse propósito selecionei quatro povos — Yanomami, Kuikuro, Krahô e Guarani Mbya — como fonte de inspiração para demonstrar um pouco dessa diversidade nos modos de viver, construir casas e aldeias, comer, enfeitar-se, fazer festas e brincar. Incluí um pequeno texto sobre cada povo, pois a intenção é apenas despertar a curiosidade em um público que começa a experimentar esse tipo de tema.

Para construir esses diferentes modos de viver inspirados nesses quatro povos, precisávamos de uma ilustradora cujos desenhos não fossem muito fantasiosos, pois eu tinha muitas fotografias e informações etnográficas para guiar o trabalho. Mas também não queríamos um traço muito realista, já que a ideia era construir mundos a partir das aldeias existentes, e não somente reproduzi-las.

Aldeias, palavras e mundos indigenas

Mariana Massarani foi a escolha perfeita, já que criou registros cheios de encantamento, sem deixar de ter como referência o material de pesquisa realizado sobre a vida nas aldeias. Mariana foi mostrando os desenhos, fazendo ajustes a partir dos comentários, e o resultado ficou lindo, como uma grande brincadeira que mexe com a gente, de verdade!

Além dos desenhos, outro caminho para se experimentar a diversidade entre os índios é o contato com as palavras, nas respectivas línguas desses povos. Por vezes, não é fácil pronunciá-las! Mas mesmo o estranhamento que as palavras geram entre as crianças, com ou sem a participação dos pais ou professores na leitura, nos parece instigante como forma de conhecimento.

Nosso objetivo é, assim, que o livro convide tanto crianças não indígenas como indígenas para essa viagem. Nos parece importante que as escolas indígenas tenham em suas bibliotecas publicações não apenas sobre o próprio povo ou sobre os não indígenas, como também sobre outros povos indígenas, de modo a reconhecerem semelhanças e diferenças culturais e linguísticas.

Além de me voltar para um público também indígena, fiz questão de dividir os direitos autorais com associações dos povos nos quais nos inspiramos. Alguns de seus representantes ajudaram na revisão dos desenhos e na correção das palavras. Particularmente, agradeço muito a Mutuá Kaühe Kuikuro e a Davi Kopenawa Yanomami pelas correções e a inestimável ajuda. Agradeço também a Paula Mendonça por me apresentar a Mutuá, e a Moreno Martins pela mediação no contato com Davi. Por fim, faço um agradecimento mais do que imenso aos meus amigos Guarani, que me ensinaram tantas palavras e um mundo de significados. Sobretudo, me ensinaram como aprender sobre o outro pode ser uma maneira de aprender muito sobre nós mesmos fazendo da diferença um motor de criatividade e conhecimento. Espero que nossos leitores comecem desde cedo a curtir essa brincadeira!

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Valéria Macedo é antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em janeiro, publicou pela Companhia das Letrinhas Aldeias , palavras e mundos indígenas, ilustrado por Mariana Massarani.