victor heringer

Notas avulsas sobre O amor dos homens avulsos

Por Victor Heringer

homensavulsos

1. Olá, meu nome é Victor Heringer, nasci no Rio de Janeiro em 1988, cidade para a qual retorno, madaleno arrependido, mais ou menos de dois em dois anos. Tenho 1,86 de altura, peso uns 85kg, não fico bronzeado, só muito vermelho, mas gosto do mar e da praia. Entre a esquerda e a direita, costumo acreditar mais no abismo, embora seja escravo da utopia. Sou macumbeiro, vascaíno e, quando tenho que dizer uma profissão para anotarem nos formulários, digo que sou professor de português.

Nada disso, porém, importa. O escritor não é ninguém, não pode ser ninguém, mas tem que ser tudo: os homens e mulheres, os vis e os ingênuos, as pedras, os bichos de luz, as geladeiras velhas, os azulejos de botequim, as piores e as melhores intenções, os senadores da República, os que esfaqueiam pelas costas e o asfalto quente dos subúrbios cariocas.

2. Ao escrever O amor dos homens avulsos, meu romance mais recente, no qual se fabula o primeiro amor entre dois meninos, pedi aos leitores que me enviassem os nomes de seus primeiros amores. Essa lista é o coração do romance, o ♥ estético e o ♥ ético do livro. É um cardiograma que está em sintonia com o meu e estará, assim espero, com o do leitor.

3. Todos os amores são cópias esbatidas e degradadas do primeiro amor? Ou o primeiro amor é a abertura feliz para todos os outros?

4. A saída deste livro é a ternura. A ternura, mais calma que o amor e mais amável que a mera simpatia ou tolerância, é uma forma de compreender e interferir no mundo tão boa quanto qualquer outra. Ternura também é resistência.

“Amai-vos uns aos outros”, amar a todos, franciscanamente, talvez seja pedir demais. Afinal, como escreveu Freud no seu mal-estar, “um amor que não escolhe parece perder parte do seu valor. Além disso, nem todos os humanos são dignos de amor”. Mas todos são dignos de ternura.

Sede ternos!

5. O romance é público, pertence ao leitor. A minha orientação sexual, isto é, a do escritor Victor Heringer, não lhes interessa senão como fofoca. Aí, nada pode prosperar, como canta Caetano.

6. O romance é a forma experimental por excelência. Daí que nos pareça natural misturar e proliferar linguagens: imagem, texto, som, interação etc. E os leitores, hoje seres digitais, transalfabetizados, finalmente estão preparados para decodificar poéticas esquisitas. Este é o tempo perfeito para escrever. Machado de Assis, Hélio Oiticica, Bispo do Rosário e Valêncio Xavier.

(Quando não foi o tempo perfeito?)

7. Escrevo porque não consigo fazer outra coisa e, a esta altura, nem quero. Escrever me concede identidade e realidade. Se não fosse ficcionista, o mundo real não seria real para mim. Escrever funda mundos no mundo. Como utopia — e, portanto, meio boba —, esta é uma das minhas saídas para o fim deste mundo como o conhecemos: fundar mundos num mundo que já vai dando tchau. Falo daquele fim do mundo cujo símbolo é o urso polar se equilibrando num naco de gelo. O real.

8. A questão climática está ali, sempre de esguelha, em tudo o que escrevo. Nós é que escolhemos ignorá-la. É difícil como os grandes traumas, mas este é também um livro sobre grandes traumas.

9. O Rio de Janeiro está ali, sempre de chofre. Meu amor mais duradouro e mais complicado. Ali estão também todos os nossos amores difíceis, carne, osso e sol. Este também é um livro sobre amores difíceis.

* * *

O AMOR DOS HOMENS 13967_gAVULSOS
Sinopse: 
No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970. Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida. Essa história, aparentemente banal, e desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade.

* * * * *

Victor Heringer nasceu no Rio de Janeiro, em 1988. Prosador, poeta e ensaísta, tem uma coluna na revista Pessoa e publicou Glória (Premio Jabuti 2013), O escritor Victor HeringerAutomatógrafo, entre outros. Em agosto, lançou pela Companhia das Letras O amor dos homens avulsos.

Semana trezentos e dez

Companhia das Letras

O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer
No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970. Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida. Essa história, aparentemente banal, e desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade. 

Paralela

À procura de alguém, de Jennifer Probst (tradução de Camila Pohlmann)
Sorte nos negócios, azar no amor: essa é a sina de Kate. Aos 28 anos, ela está longe de ter conhecido alguém especial com quem dividir a vida. Sua carreira de cupido profissional, por outro lado, vai de vento em popa: todos na pequena cidade de Verily, Nova Iorque, conhecem e admiram a Kinnections, agência de relacionamentos que Kate fundou com suas duas melhores amigas. Até que, um dia, um homem tão lindo quanto furioso entra em sua sala. Slade Montgomery é um advogado de divórcios que não acredita em finais felizes e muito menos em agências de relacionamentos. Para ele, a Kinnections é uma grande farsa, criada para ludibriar pessoas frágeis e ingênuas, como sua irmã. Agora, é uma questão de honra: Kate não vai medir esforços para provar a Slade que seus talentos são legítimos e suas intenções nobres, nem que para isso precise encontrar a namorada ideal para ele. Mas um simples toque vai fazer com que essa tarefa se torne muito mais difícil do que ela poderia conceber…

Objetiva

A baronesa do jazz, de Hannah Rothschild (tradução de Juliana Lemos)
A biografia de Pannonica Rothschild, que abandonou a família para morar em Nova York e seguir os grandes músicos do jazz. Bela e de personalidade forte, Pannonica Rothschild, conhecida como Nica, nasceu em 1913 e teve uma vida excêntrica. Depois de se casar, foi morar em um palácio para se tornar mãe e viver ao lado do marido. Contudo, quando ouviu “Round Midnight” do compositor de jazz Thelonious Monk, tudo mudou. Abandonou o casamento, foi atrás de Monk em Nova York e passou a se dedicar a ele e a outros músicos, tornando-se a filantropa desconhecida da cena do jazz na cidade. Hannah Rothschild levou vinte anos para descobrir quem sua tia-avó realmente foi e A Baronesa do Jazz é um retrato fascinante — parte odisseia musical, parte história de amor — que apresenta uma mulher que ousou viver como bem entendeu.

Seguinte

Star Wars — antes do despertar, de Greg Rucka (tradução de Zé Oliboni)
A jovem Rey vive em Jakku, um planeta desértico e inóspito. Ela sobrevive trocando equipamentos perdidos por ração e água, porém uma descoberta inesperada vai virar sua rotina de cabeça para baixo. Poe Dameron é um dos melhores pilotos da Nova República, mas quando as ameaças da Primeira Ordem parecem cada vez maiores, ele precisa rever se toda sua dedicação está sendo eficaz para proteger a galáxia. FN-2187, por sua vez, é um stormtrooper dedicado e talentoso, que obedece aos comandos da capitã Phasma sem hesitação… mas aos poucos começa a questionar os métodos usados pela Primeira Ordem para alcançar o poder. Rey, Poe e Finn ainda não se conhecem nem sentiram a Força despertar. Antes de formarem o trio de heróis que será a esperança da galáxia, precisam lidar com seus próprios dilemas e conflitos.