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Um soneto para Vinicius de Moraes: Resultado

Vinicius de Moraes

Hoje Vinicius de Moraes completaria 103 anos. Nascido no dia 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro, um dos nossos maiores poetas não era só famoso por conta das letras e músicas que fez em parceria com nomes como Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho. Seus sonetos fazem parte da literatura brasileira e continuam a ser lidos e compartilhados por amantes da poesia. Há algumas semanas, pedimos que nossos leitores fizessem um soneto em homenagem ao poeta utilizando um de seus temas, e hoje trazemos o resultado desse concurso com os cinco poemas escolhidos pela Companhia das Letras. Confira:

 

Raoni Garcia

Soneto da Mulher Ideal

Sonho que feição terá a minha amada…
Será tua beleza negra ou morena?
Terá a pele branca como a açucena,
Os olhos de amêndoa, a tez perfumada?

Terá, talvez, a minha namorada,
O corpo delicado, a voz amena,
A expressão greco-romana — serena?
Terá a forma divina que me agrada?

Mas efêmero será o teu encanto
Se não tiver a graça d’alma pura —
Morada de amor, ternura e virtude,

Que ao poeta inspirou o supremo canto.
Conceda-me ela, anjo da ventura,
E a amarei eternamente em plenitude.

 

Arthur de Siqueira Brahm

Amor e psique

Existem outros momentos e existe o beijo.
No centro dos concêntricos instintos, nua
a rosa do toque desabrocha profunda,
um prazer inarticulado e sem desenho.

O som que vem do mundo é submergido
diante o discurso silencioso das bocas
que em sua pressão macia e escura conta
a verdade imaculada dos sentidos.

Há uma eternidade revelada no espaço
entre o movimento da mente e o contato.
Há cem paraísos perdidos experimentados

no lábio vivo que desenha o desejo
e nos absolve da vida, do querer, do tempo.
E haverá outros momentos, apesar do beijo.

 

Marcos Ferreira

Extrema-unção

Arde em teus graves olhos a tristonha
E muda exposição do amor desfeito
— Esse encanto fugaz que a gente sonha
Conservar toda a vida em nosso peito.

É que o mundo é este antro de peçonha
Que adultera o que é puro e o que é perfeito.
A ventura mais longa e mais risonha
Morre sob os lençóis do próprio leito.

Entretanto prossegue, não desiste;
Fecha logo o caixão dos sonhos mortos
E sepulta isso tudo quanto é triste!

Não te afogues no amor que se desfez
— Ser feliz é seguir por muitos portos
E morrer por amor mais de uma vez.

 

André Villani

Soneto para o reencontro

De repente, não mais que de repente
De quando em quando, mas não para sempre
Nenhum esforço para que eu me lembre
Da separação, aquela mais valente

Do desencontro, o mais belo espanto
Mesmo aquele de duas mãos espalmadas
Algum dia volta a ter seu próprio encanto
E as bocas que de espuma então embaladas

Voltam a se juntar uma outra vez
Voltam da bruma ao menos um instante
Para um novo lapso de embriaguez

Do espanto faz-se mais um novo amante
Da vida faz-se nova insensatez
De repente, não mais do que o bastante

 

Caio Junqueira Maciel

Vinicius

De repente é sábado: vou cantar
as mulheres nuas de bicicleta
passando nas ruas, junto ao poeta,
enquanto o sol morre de amor no mar.

Paixão infinita enquanto durar,
eis a verdade crua mais completa,
e fez da vida sua a mais repleta:
amadas, amigos, de Bach em bar…

Apaixonadamente a lira inflama,
e sem perder o tom na parceria
sempre um toquinho chique de poesia.

Para quem fez do amor eterna chama,
a vida nunca foi prazer fugaz:
tem a bênção de Deus e dos Orixás.

 

Conheça a obra de Vinicius de Moraes.

Concurso: Um soneto para Vinicius de Moraes

vinicius-moraes-1973

Vinicius de Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913 no Rio de Janeiro, e é um de nossos maiores poetas. Além de cronista e também dramaturgo, foi um dos grandes letristas da música brasileira: fez parcerias com Tom Jobim, Baden Powell, Chico Buarque, Carlos Lyra, Edu Lobo e Toquinho, entre outros. É um clássico das letras brasileiras.

A violência, a guerra, a pobreza, o amor, a traição, a morte, a natureza, a solidão, as amizades, o Rio de Janeiro, o cinema, as artes e a própria poesia são temas que Vinicius trabalhou em seus poemas. Para homenageá-lo, a Companhia das Letras promove um concurso cultural que dá destaque a uma das formas mais populares da poesia: o soneto. Um soneto é um poema com 14 versos divididos em quatro estrofes — as duas primeiras com quatro versos e as duas últimas com apenas três. São de Vinicius de Moraes os sonetos mais populares da nossa poesia, como “Soneto de Fidelidade”, “Soneto do Amor” e “Soneto da espera”.

Para participar do concurso “Um soneto para Vinicius de Moraes”, você deve escrever um soneto utilizando um dos temas de Vinicius e publicá-lo aqui nos comentários. Os cinco melhores sonetos serão selecionados e publicados no blog da Companhia das Letras, e seus autores ganharão um kit com os livros de Vinicius de Moraes. Os comentários devem ser enviados até o dia 10 de outubro, e os participantes podem publicar mais de um soneto (se o soneto for repetido, ele será excluído).

O kit de Vinicius de Moraes contém as obras:

O cinema de meus olhos (2015), Livro de letras (2015), Uma mulher chamada guitarra (2013), Pois sou um bom cozinheiro (2013), Jazz & Co. (2013), Orfeu da Conceição (2013), Novos poemas II (2012), Novos poemas e cinco elegias (2012), Forma e exegese e Ariana, a mulher (2011), Vinicius menino (2009), Poemas esparsos (2008), O caminho para a distância (2008), Poemas, sonetos e baladas e Pátria minha (2008), A arca de Noé (2004), O poeta aprendiz (2003), Nova antologia poética (2003), Teatro em versos (1995), Para uma menina com uma flor (1992), Livro de sonetos (1991) e Para viver um grande amor (1991).

Boa sorte e espalhe poesia!

O espírito livre e artistico de Vinicius de Moraes

Por Miguel Jost

Vinicius de Moraes

A obra poética de Vinicius de Moraes é, sem dúvida alguma, uma das mais significativas na vida literária brasileira no século XX. Seus poemas e versos ocupam um lugar privilegiado dentro da tradição não só pela riqueza de forma, estilo e técnica, mas, principalmente, pela sua enorme popularidade fora dos circuitos convencionais da poesia e da literatura. Vinicius é até hoje um dos poetas mais lidos e citados em nosso país, e podemos afirmar também que foi um dos escritores que mais influenciou a formação de um ethos afetivo da sociedade brasileira. Sua capacidade de criar toda uma nova gramática sobre as maneiras de escrever e conceber o amor foi definitiva nesse processo. Mas essa habilidade ímpar de traduzir a experiência do amor de forma tão íntima e certeira por meio da sua poesia muitas vezes rasurou o fato de Vinicius ter sido um poeta de grande dedicação ao labor e ao fazer poético. A imagem do poetinha, do homem de espírito livre e boêmio, somada ao seu sucesso como compositor popular a partir dos anos 1960, também consolidou essa impressão sobre o autor.

É fundamental, nesse sentido, sublinhar que Vinicius era um perspicaz conhecedor da tradição poética e de suas diversas escolas e estilos. Desde menino, quando ficava horas transcrevendo poemas de cunho simbolista e parnasiano, passando pelos anos da Faculdade de Direito, quando se dedicou ao estudo de poetas franceses — como Claudel, Baudelaire e Rimbaud —, e chegando ao período de profunda imersão na obra dos poetas ingleses, Vinicius foi um estudioso convicto que demonstrou vasto interesse em conhecer a poesia e a fortuna crítica de autores clássicos.

Nesse mergulho na tradição da poesia inglesa — por ocasião da bolsa de estudos em Oxford, fruto do prestigioso prêmio Filipe d’Oliveira, nos anos 1930 —, Vinicius chegava a jornadas rigorosas de até doze horas de estudo ininterrupto. Sua fascinação pelos sonetos de Shakespeare, que o poeta traduzia incessantemente nesse período, foi um dos pilares para que Vinicius fosse considerado por muitos críticos nas décadas seguintes um reinventor da forma-soneto na poesia brasileira.

O amplo conhecimento de diversas tradições poéticas da literatura ocidental é o que levou Manuel Bandeira a afirmar sobre Vinicius: “Tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas) e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, e o esplêndido cinismo dos modernos”.

As nuances modernas, românticas, simbolistas e parnasianas se interpenetram e se contaminam, principalmente nos livros lançados a partir dos anos 1940. Por vezes, é possível observar alguns desses cruzamentos até mesmo dentro de um único poema. Esse híbrido de sua escrita é o que impossibilita a classificação de Vinicius dentro de qualquer escola ou movimento, gerando um enorme desconforto para os críticos e historiadores da literatura que trabalham com esse tipo de pressuposto.

A publicação em 1946 de Poemas, sonetos e baladas é um dos exemplos mais bem-acabados desse mosaico de estilos e formas que caracterizou a sua produção poética. Com ilustrações de seu amigo Carlos Leão, o livro demonstra toda a heterogeneidade que marcou a formação de Vinicius. No posfácio da reedição em 2008 pela Companhia das Letras, o ensaísta José Miguel Wisnik, em total consonância com a citação de Manuel Bandeira, escreve: “O livro de 1946 se desdobra em faces românticas, clássicas, simbolistas e modernas; é desigual mas sempre elevado, como tudo no autor, pela nobreza do sentimento e pela autenticidade da veia lírica”. É possível, portanto, afirmar que essa confluência entre tantas escolas, e principalmente sua inadequação para se tornar um representante fiel delas, é uma das principais características da escrita de Vinicius.

A partir dos anos 1950, mantendo o mesmo espírito livre, o poeta estenderia sua atuação para o teatro, o cinema, a crônica e, principalmente, a canção popular. Sem fazer juízo de valor entre essas linguagens e sem respeitar certos postulados da época — como a clássica distinção entre a literatura como alta cultura e a música popular como baixa cultura —, o autor se tornou um dos personagens mais importantes para que esse tipo de hierarquia não se consolidasse em nosso país. Assim como em toda sua trajetória nos livros de poesia, Vinicius não se interessava por limites preconcebidos quando o assunto era seu processo artístico criativo. O que nunca mudou foi a sua matéria-prima: a palavra poética, em suas diversas possibilidades e dimensões.

* * * * *

Miguel Jost é professor do Departamento de Letras da PUC–Rio, é mestre e doutor em Estudos de Literatura por esta mesma instituição. Em 2008 organizou e assinou o prefácio do livro Samba Falado – Crônicas musicais de Vinicius de Moraes, que revelou um enorme volume de textos do poeta sobre a música popular ainda não publicados. Desde então vem desenvolvendo uma série de trabalhos ligados a preservação e circulação da obra de Vinicius. Em 2013 foi convidado para ser curador de uma série de atividades organizadas pela VM Produções por conta do centenário de nascimento do poeta. Em 2014 foi também o curador geral de uma grande exposição que marcou o fim das comemorações do centenário de Vinicius de Moraes no Rio de Janeiro.

Semana duzentos e setenta e nove

Sinatra – o chefão, James Kaplan (Tradução de Denise Bottmann e Claudio Carina e Paulo Geiger)
Quando saiu Frank: a voz, primeiro volume da biografia de Sinatra, os admiradores do cantor norte-americano sabiam que estavam diante de um empreendimento majestoso. Com a prosa rica e viciante de James Kaplan, a história da ascensão de Frank Sinatra (1915-1998) para a fama é também a história do nascimento da cultura de massas, da vida boêmia nos cassinos, do apogeu do rádio, do culto à celebridade. Este segundo volume captura o artista a partir da metade dos anos1950, quando ele começou a se dividir entre os estúdios de gravação e os sets de filmagem, chegando aos anos da maturidade – quando os lapsos de memória no meio de uma canção já anunciavam seus melancólicos dias finais.

O cinema de meus olhos, Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes amava o cinema. Mantinha o hábito de frequentar a sala escura, escrevia críticas e comentários, acompanhava as mudanças – tecnológicas e estéticas – da sétima arte. Essa convivência com filmes aumentou bastante quando, no final da década de 1940, o então jovem diplomata foi servir no consulado geral do Brasil em Los Angeles. Nameca do cinema, pôde conviver com estrelas como Orson Welles e Carmen Miranda, entre outras. Esta edição, organizada pelo crítico Carlos Augusto Calil, traz novos textos de Vinicius de Moraes sobre o cinema, seus grandes diretores, as grandes estrelas. Líricos, por vezes críticos, sempre muito bem-informados, os escritos cinematográficos do grande poeta brasileiro continuam um convite ao prazer das telas e das páginas.

Penguin Companhia

O livro das selvas, Rudyard Kipling (Tradução de Julia Romeu)
Personagem imortal da literatura, o menino Mowgli foi achado na selva e criado por uma loba. Para viver na floresta, ele precisava aprender mais do que caminhar sem fazer ruído ou enxergar no escuro. Sua forma humana, que de início parecia uma desvantagem, ajudou a transformá-lo em um caso único. Mowgli somou a sabedoria dos lobos e a inteligência dos homens para viver uma infância repleta de aventuras e descobrimentos.
Muitos especialistas consideram Os livros da selva uma contraposição do universo infantil à vida adulta do trabalho. Ao longo de diversos contos, a sofisticação narrativa de Kipling e de seus personagens é capaz de emocionar leitores de todas as idades.

 

Semana duzentos e cinquenta e quatro

blog1

Livro de letras, de Vinicius de Moraes
Esta nova edição do Livro de letras reúne a totalidade de canções compostas por Vinicius, entre peças individuais e parcerias. Um elenco inesquecível de canções, conhecidas hoje no Brasil e no mundo: “Garota de Ipanema”, “Canto de Ossanha”, “Água de beber” e “A tonga da mironga do kabuletê”, entre dezenas de outras. De quebra, duas letras que anteriormente não tinham sido publicadas, fruto da parceria do poeta com os compositores Francis Hime e Edu Lobo. Completa o volume o ensaio de Paulo da Costa e Silva, encomendado especialmente para esta edição, com uma análise detida e esclarecedora da canção em Vinicius de Moraes, além de textos de Eucanaã Ferraz (curador da coleção), José Castello (sobre o percurso do Vinicius letrista) e uma divertida crônica do autor português Alexandre O’Neill sobre um concerto de Vinicius e Baden a alegrar uma noitada e espantar o cinza em plena Lisboa salazarista.

O corpo humano, de Paolo Giordano (tradução de Eduardo Brandão)
Último a se incorporar ao pelotão de rapazes comandado pelo primeiro-sargento Antonio René, o cabo Roberto Ietri tem apenas vinte anos quando é enviado à Guerra do Afeganistão. O momento de adentrar o território inimigo será também aquele em que cada soldado terá de acertar as contas com o que deixou em suspenso na Itália. Ao voltar, terão ultrapassado irreversivelmente a linha que separa a juventude da vida adulta. Delineando com precisão os contornos das guerras contemporâneas, sem deixar de lado os conflitos familiares, afetivos e os intermináveis conflitos que travamos contra nós mesmos, o romance visceral de Paolo Giordano nos faz lembrar do que é ser humano.

Companhia das Letrinhas

O jardim, de Carlos Drummond de Andrade
Neste livro, construído a partir de crônicas e poemas de Carlos Drummond de Andrade, o leitor conhece as várias faces do seu jardim: “O jardim, convite à preguiça, exige trabalho infatigável.”; “Jardim apenas, pétalas, presságio.”; “‘Amor’ – eu disse – e floriu uma rosa/ embalsamando a tarde melodiosa/ no canto mais oculto do jardim,/ mas seu perfume não chegou a mim.”. Não bastasse o encantamento dessas palavras, as pinceladas de Atak entram em cena para completar o quadro e fazer desse jardim um convite – para todas as idades – à imaginação e ao desenvolvimento das nossas sensibilidades.

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