vinicius de moraes

Dois em um

Por Luiz Schwarcz

Uma viagem de quase três semanas para Lisboa e Nova York me fez ter tanto assunto neste início de mês que quem não quiser ler o meu texto terá que treinar salto duplo em distância. A segunda parte será publicada amanhã no blog.

A gentileza humana fez seu último reduto em Portugal

Lisboablog

Bem, minhas viagens, que estão virando crônicas (em todos os sentidos), desta vez começaram por Lisboa, onde foi lançado o selo da Companhia das Letras — como parte da reorganização da Penguin/Random House de Portugal. A estreia ficou por conta do livro O irmão alemão, e, como de costume, Chico Buarque confirmou sua ausência. Este, aliás, era o slogan que Washington Olivetto queria usar numa campanha publicitária da W/Brasil para o lançamento de Estorvo, primeiro romance do escritor lançado pela Companhia das Letras em 1991. A campanha, apesar de divertida, obviamente nunca foi ao ar. É importante respeitar e entender os autores — a obrigação de um escritor é escrever, já a tarefa de promover os livros cabe ao editor, com ou sem a participação dos escritores. Alguns autores se sentem à vontade para falar dos próprios livros; outros preferem deixar a leitura correr independentemente de suas próprias palavras.

Assim, lá fui eu falar do novo romance de Chico Buarque e dos livros brasileiros que aportarão na nossa antiga metrópole este ano, com os mesmos meios de locomoção que compõe o logo da Companhia estampados na capa lusa, pois — sim, senhor — eles lá estarão! Fui feliz e voltei ainda mais.

A gentileza dos portugueses é ímpar, comparável apenas com a sua discrição e timidez, que beiram o complexo de inferioridade, neste último caso totalmente despropositado. Nas entrevistas, os jornalistas portugueses me perguntavam sempre se não era temerário investir em Portugal, se eu não achava que os livros brasileiros iriam vender mal na terrinha, já que o histórico era tradicionalmente negativo. Respondi com entusiasmo, dizendo que o próprio caso do Chico é um exemplo contrário, já que seu sucesso em Portugal chega ao número dos grandes best-sellers e que outros autores poderão também seguir esse caminho. Na futura linha da Companhia das Letras em Portugal estão também Fernanda Torres, Raphael Montes, Sérgio Rodrigues, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. A escolha é da equipa de Portugal, o pequeno e voluntarioso time de sete pessoas comandado por Clara Capitão.

Disse também que todos os que fazem parte desta equipa, assim como os brasileiros e espanhóis envolvidos na operação da Penguin/Random House Portugal, acreditam em Portugal — só falta o público português acreditar. Depois desse meu depoimento fiquei preocupado com uma possível compreensão literal do que disse, mas os jornais saíram, e como os dias acabam logo, o que falei se foi com a noite, e deixei de me preocupar com minha declaração destrambelhada.

Minha estada foi curta, de um dia e meio apenas — como da outra vez, quando recentemente tomei parte do lançamento de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, de José Saramago —, e por isso intensa. Tive reuniões de trabalho, encontros com jornalistas e fui visitar um amigo, o André Fernandes Jorge da Cotovia, que luta contra uma grave doença, assim como para manter sua editora, uma joia antiga em meio à parafernália da modernidade que alcança até Portugal.

O lançamento da editora e do livro do Chico ocorreu na primeira noite, em evento ciceroneado por Pilar del Rio, na Fundação Saramago. Fiquei muito sem jeito com os discursos que antecederam o meu. Estou mais preparado para falar dos outros do que para ouvir o que falam de mim. Assim, comecei tentando relativizar o que escutei de meus colegas, da generosa Pilar, e chamar atenção para o livro do Chico, o centro da noite e minha principal razão para subir num púlpito. No final, li um poema de Drummond dedicado a Camões, que o leitor pode ler aqui, e uma canção de Vinicius chamada “Saudades do Brasil em Portugal”. Os dois textos, que o craque Leandro Sarmatz me ajudou a selecionar, disfarçaram um pouco a timidez, também suplantada por um bom treino nas horas em que não lia ou dormia no voo da ida, quando, em vez de preparar o que falar, reli para mim mesmo, inúmeras vezes, o poema de Drummond — uma obra-prima sobre a alma portuguesa através de considerações poéticas acerca de Camões. Terminei com a frase que intitula este post, também de Vinicius de Moraes, lembrando para mim mesmo que o papel do editor é fazer os autores se pronunciarem através dos livros e manter-se, o máximo possível, em silêncio. Foi o que fiz em certa medida, deixando-me representar por estes grandes poetas, num momento em que, além de tudo, eu tinha que representar um outro grande escritor. Tarefa impossível, mas Chico se fez de fato presente pela leitura de seu livro, na voz de dois amigos portugueses, Miguel Sousa Tavares e Eugénia Melo e Castro, e pela publicação cuidadosa da equipa portuguesa.

Estive em Portugal, no fundo, para me emocionar com os nossos veículos cruzando o Atlântico, ouvir o doce sotaque português, a língua falada com gosto disfarçado em melancolia, ler alguns poemas brasileiros e lembrar. Agora e sempre.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Nunca achei que Susana pudesse um dia morrer

Por Luiz Schwarcz

suzana

Por estes dias os leitores deste blog não deveriam estar me lendo. Minhas breves férias de uma semana começam hoje. Mas se me leem é por uma razão muito triste. Soube há algumas horas que minha querida e amada amiga Susana de Moraes acaba de falecer. Não conheci até hoje ninguém com a fibra de Susana. Agora penso que se nem ela foi capaz de vencer a morte, é porque somos uma espécie frágil e passageira. Pois acreditava mesmo que Susana venceria mais esta, como venceu tudo e todas as batalhas que enfrentou, por tantos anos, desde que o câncer a surpreendeu. Visitei-a nestes últimos tempos inúmeras vezes, duas em São Paulo onde veio se tratar, e muitas outras em sua casa, no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Para vê-la subia nas alturas, via a cidade maravilhosa quase do ponto mais alto, roçava as nuvens, a floresta e chegava até ela. Chegava e a encontrava no quarto, deitada ou sentada, mas sempre rindo do jogo com a doença. Mesmo quando falava “Luiz, uma merda essa doença, é uma merda” a frase soava mais como zombaria do que reclamação. Mas uma merda mesmo é Susana morrer, faz a gente se lembrar de quão fracos nós somos. Com ela, nas alturas, sempre eram feitos planos: as edições de Vinicius em outros países, a restauração de seu filme sobre o pai, a futura animação cinematográfica de Arca de Noé, a montagem de Orfeu na Broadway. Tudo era pensado por ela e sua família, mas sem imaginar que ela poderia não estar presente quando os planos virassem realidade. E ela não estará. Não irá para Nova York se Orfeu for montado na Broadway; não verá a Antologia poética de Vinicius sair em Portugal — ou quem sabe nos Estados Unidos —; não assistirá a Arca no cinema, se um dia o projeto se concretizar; não verá seu documentário sobre o pai restaurado.

Susana era a veterana guardiã das obras de Vinicius, do espírito do pai, que agora continuará sob os ótimos cuidados de Pedro, Georgiana, Maria Gurjão e Júlia. Susana queria ainda muita coisa da vida. Tudo o que citei acima e mais. Queria uma nova biografia de Vinicius, um Vinicius mais porreta do que o que aparece na boa biografia feita por José Castello. Pois, como o pai, Suzana ria da vida, ria do câncer, ria daqueles que não tinham a mesma energia que ela, ou seja, ria, respeitosamente, de todos nós.

Maria Gurjão me ligou hoje, há algumas horas, me encontrou na Europa — saindo de uma reunião  realizada em um Conselho cultural referente a um prêmio internacional —, e me contou a péssima notícia. Quando ouvi, me dei conta que não imaginava que Susana pudesse morrer. Mesmo com um malvadíssimo câncer.

Preciso ainda me acostumar com esta ideia. Preciso imaginar que Vinicius continuará a existir sem ela, pois, a obra do poeta chegou a mim, principalmente através de suas mãos. Sim, ele existirá, sem Luciana e Susana, ou junto com elas. Mas acho que nunca mais vou subir tão alto, chegar perto da vista chinesa, ver o Rio de Janeiro lá de cima, roçar as nuvens. Para quê?

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O anjo das pernas tortas, por Vinicius de Moraes

Foto de M. Soares. Arquivo do Globo (14/9/1957).

Durante a Copa do Mundo, vamos publicar aqui no blog da Companhia das Letras textos relacionados ao esporte nos dias de jogos da Seleção Brasileira. O texto de hoje é o poema “O anjo das pernas tortas”, de Vinicius de Moraes, presente no livro Para viver um grande amor. Leia a seguir.

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A Flávio Porto

 

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés — um pé de vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: — Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!

 

Rio, 1962

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Leia também os outros textos publicados:

Futebol, por Carlos Drummond de Andrade

O gol é necessário, por Paulo Mendes Campos

Bola murcha, por Otto Lara Resende

Futebol, metáfora da vida, por Tostão

Centenário de Vinicius de Moraes

Em outubro, a Companhia das Letras celebra o centenário de nascimento de Vinicius de Moraes, poeta do amor e da delicadeza. Comemore conosco! Teremos contações de história, leituras e um pocket show em homenagem ao escritor:

Contação de história especial: A arca de Noé
Sábado, 19 de outubro
São Paulo, às 11h: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional
Campinas, às 11h: Livraria da Vila – Galleria Shopping – Rod. Dom Pedro I, s/nº
Rio de Janeiro, às 17h: Livraria Travessa Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290

100 anos sempre encantando: leituras
Leitura de textos, poemas e músicas de Vinicius de Moraes, com roteiro e direção de André Acioli.
– São Paulo: Sábado, 19 de outubro, às 17h. Elenco: Miriam Mehler, Maria Fernanda Cândido, Aretha Marcos, Elias Andreato, Claudio Fontana, Clovys Torrês e Daniel Maia. Direção Musical: Daniel Maia. Apresentação: Leandro Sarmatz. Local: Livraria Cultura – Loja Principal – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional
– Rio de Janeiro: Domingo, 20 de outubro, às 16h. Elenco: Joana Fomm, Lucinha Lins, Clarice Niskier, Claudio Tovar, Tadeu Aguiar, Domingos Montagner e José Maria Braga. Direção Musical: José Maria Braga. Local: Livraria Travessa Shopping Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290
– Salvador: Sábado 26 de outubro, às 17h. Elenco: Kátia Leal, Fernanda Paquelet, Ricardo Castro e Bertrand Duarte. Local: Fundação Casa de Jorge Amado – Largo do Pelourinho.

Pocket Show Vinicius de Moraes: Jazz & Co.
Sábado, 19 de outubro, às 19h
Pocket show com músicas comentadas no livro Jazz & Co., de Vinicius de Moraes. Participação do Trio Fanculô Jazz.
Local: Paribar – Praça Dom José Gaspar, 46 – São Paulo, SP

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Vamos sortear livros entre os leitores do blog também! Para participar, basta deixar um comentário neste post até a meia-noite do dia 29 de outubro dizendo qual é seu poema favorito de Vinicius de Moraes. Sortearemos 3 comentários, e seus autores receberão a caixa “Uma seleção do melhor de Vinicius de Moraes em prosa e verso”, que contém Livro de sonetosPoemas esparsosPara uma menina com uma florPara viver um grande amor. Aceitaremos apenas uma resposta por pessoa. O resultado será divulgado neste mesmo post, no dia 30 de outubro.

Veja abaixo os cinco episódios da websérie inspirada em Vinicius de Moraes com narração de Rodrigo Amarante:

 

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Post editado e atualizado dia 30/10/2013.


Os vencedores da promoção são: Nuria, Gabriela Tiago e Bruno Gavranic. Entraremos em contato por e-mail.
Obrigado a todos que participaram!

Semana cento e setenta e um

Os lançamentos da semana são:

A causa secreta – e outros contos de horror, de vários autores
Os seis autores aqui reunidos representam o que há de mais importante na literatura dedicada ao gênero horror. Do precursor Edgar Allan Poe, que apresenta a atmosfera aristocrática das abadias do príncipe Próspero, personagem do conto “A máscara da morte rubra”, passando pela crueldade psicológica de Fortunato, de “A causa secreta”, de Machado de Assis, ou a morte surpreendente de Elias, um cientificista que sofre a vingança de um bicho no conto “A selvagem”, do irlandês Bram Stoker, autor da mais famosa história de vampiro na literatura, Drácula (1897). E ainda “A mão”, do francês Guy de Maupassant, “O rapa-carniça”, de Robert Louis Stevenson e “O cirurgião de Gaster Fell”, do também escocês Arthur Conan Doyle. Todas as histórias aproximam o leitor do obscuro e do indizível que muitas vezes só a literatura consegue traduzir.

Uma mulher chamada guitarra – crônicas escolhidas de Vinicius de Moraes
Entre os grandes nomes da nossa poesia, Vinicius de Moraes era também um cronista de primeira, tendo colaborado durante décadas com alguns dos mais prestigiados jornais e revistas do Brasil. Sua produção era vasta, e seus interesses abarcavam os mais diversos aspectos da cultura e da realidade do nosso país. Esta seleção de crônicas cobre assuntos que vão da infância do menino criado num Rio de Janeiro bucólico ao lirismo sobre o amor e os relacionamentos, da observação — sempre bem-humorada e aguda — do cotidiano à reflexão sobre a passagem do tempo. Uma reunião deliciosa de textos que, escritos com delicadeza e sabedoria, se mantêm ainda muito atuais.

Reprodução, de Bernardo Carvalho
Em Reprodução, Bernardo Carvalho parece fazer picadinho — com um humor convulsivo — de um típico personagem da nossa era: o comentarista de blogs e portais da internet. Reacionário e racista (embora não se assuma como tal), o “estudante de chinês” que é protagonista deste romance vive entre a realidade e a paranoia, dividido entre sua visão distorcida do mundo e a espera pelo dia em que a China dominará o planeta e então ele, iniciado no estudo do intricado idioma, poderá integrar as fileiras de uma nova classe dominante. Vítima de uma comédia de erros na hora em que pretendia embarcar para Pequim, ao ser detido pela Polícia Federal, desanda a falar venenosamente sobre tudo e todos. E é graças a esse monólogo a um só tempo trágico e patético que o autor pinta um retrato irresistível e cruel dos dias que correm.

Albert Einstein e as fronteiras da física, de Jeremy Bernstein
Albert Einstein não impressionou seus primeiros professores. Eles o achavam uma criança sonhadora e com um futuro inexpressivo. Mas em algum momento de sua juventude ele desenvolveu um deslumbramento pelo mundo. Adulto, Einstein lembrou de dois momentos de sua infância — a fascinação, aos cincos anos, pelo compasso e o momento que conheceu a precisão da geometria —, esses talvez tenham sido os primeiros sinais do que ele viria a ser anos depois. De um começo de vida típico de um jovem comum, Einstein se tornou um dos maiores pensadores e cientistas de todos os tempos. Nesta apaixonada biografia, escrita por um professor de física e adorador confesso do cientista, Jeremy Bernstein descreve para os leigos os experimentos de Einstein e as suas teorias revolucionárias, que  vão da sua mais famosa descoberta — a teoria da relatividade —, que mudou a nossa concepção de universo e o entendimento de nosso lugar no mundo, à sua pesquisa da teoria do campo unificado que explica as forças do universo.

Vidas dos grandes artistas, de Charlie Ayres
Giotto acaba de terminar a Capela Arena. Gian Lorenzo Bernini admira a melhor escultura que já concebeu na vida. Francisco de Goya aguarda a chegada da família real espanhola para um novo retrato. Eugène Delacroix enfrenta a folha em branco. Claude Monet visita seus jardins. E Leonardo da Vinci tenta controlar a impaciência de sua nova modelo, uma moça chamada Lisa. Inspirado em Vida dos Artistas, de Giorgio Vasari, primeiro clássico da História da Arte, Charlie Ayres conduz o leitor nas revoluções da arte do século XIII ao XIX. O autor visitou ateliês, capelas, galerias particulares e retiros no campo até encontrar um momento marcante que ajudou a definir a personalidade de Manet, Rembrandt, Van Gogh, Dürer entre outros. Dirigido ao público infantojuvenil, o livro é uma apresentação sucinta, envolvente e rica dos grandes nomes da arte. Além disso, traz propostas de atividades baseadas nas obras de cada artista, e também links para galerias online, nos quais é possível conhecer a produção dos artistas.

Editora Paralela

Desumano e degradante, de Patricia Cornwell
Ronnie Jod Waddel é um criminoso perigoso sentenciado à cadeira elétrica pelo assassinato brutal de uma jovem apresentadora de televisão. Depois de executado, seu corpo passa a ser tratado como o que seria uma autópsia rotineira para a médica-legista Kay Scarpetta. Porém, mais uma vez ela é desafiada por evidências confusas, e as impressões digitais encontradas em um novo crime conduzem a uma conclusão absurda. Entre tantos fatos contraditórios, novos assassinatos e comentários histéricos da imprensa questionando sua competência, Scarpetta pode ser indiciada pelos mesmos crimes que está tentando resolver. Perdida em seus relatórios e sem poder confiar em seus amigos mais próximos, ela parece ser alvo de uma intriga que vai muito além de seu território.