vinicius de moraes

Semana cento e trinta

Os lançamentos desta semana são:

O silêncio contra Muamar Kadafi, de Andrei Netto
Em 10 de março de 2011, familiares, amigos e colegas suspiraram aliviados após vários dias sem notícias do jornalista Andrei Netto no interior da Líbia, então conflagrada pela revolução. O repórter do jornal O Estado de S. Paulo acabava de ser entregue pelas autoridades do claudicante regime líbio aos cuidados do embaixador brasileiro em Trípoli, de onde retornou a sua casa em Paris. Netto, na companhia de um jornalista iraquiano do Guardian, havia sido sequestrado no início do mês por militantes kadafistas na pequena cidade de Sabratha, no oeste do país, e levado para uma prisão secreta nos arredores de Trípoli. A detenção lhe rendeu oito dias de isolamento e deflagrou uma campanha internacional por sua libertação, felizmente bem-sucedida. Neste livro eletrizante e corajoso, o jornalista relata suas experiências humanas e profissionais no país, incluindo diversas entrevistas com vítimas e combatentes. A história da guerra revolucionária que acabou com mais de quatro décadas de opressão kadafista é contada passo a passo por uma testemunha privilegiada dos acontecimentos.

Novos poemas II, de Vinicius de Moraes
Em 1938, Vinicius de Moraes publicara seu quarto livro sob o título Novos poemas. O uso do adjetivo não era por acaso, pois ali havia mesmo uma mudança de rumos: após uma fase místico-religiosa, os versos mostravam agora ritmos variados, tinham vivacidade, observavam o cotidiano. Em 1959, Vinicius recuperaria o antigo título num volume que reunia poemas escritos entre 1949 e 1956: Novos poemas (II). Mas as mudanças diziam mais respeito à vida que à obra.
Só agora – mais de cinco décadas após seu aparecimento – Novos poemas (II) volta a ser editado como volume independente. A edição abre com um caderno de imagens que reproduz versões anteriores àquelas que o poeta fixou, além de fotos relacionadas ao período englobado pela obra. Ao final, o leitor encontrará um posfácio escrito por Ivan Marques e, na seção “Arquivo”, um abrangente ensaio de Eduardo Portela sobre a poética de Vinicius de Moraes.

O pacifista, de John Boyne (Trad. Luiz Antônio de Araújo)
Inglaterra, setembro de 1919. Tristan Sadler, vinte e um anos, toma o trem de Londres a Norwich para entregar algumas cartas à irmã mais velha de William Bancroft, soldado com quem combateu na Grande Guerra. As cartas, porém, não são o verdadeiro motivo da viagem de Tristan. Ele já não suporta o peso de um segredo que carrega no fundo de sua alma, e está desesperado para se livrar desse fardo, revelando tudo a Marian Bancroft. Resta saber se o antigo combatente terá coragem para tanto. O pacifista é uma história de amor e de guerra que se insere na tradição do romance Reparação, de Ian McEwan. Nada é o que parece nesta trama envolvente e vigorosa, que revela as consequências de uma vida tragicamente marcada pelo silêncio. Com uma abordagem original e relevante para o nosso tempo, o autor do best-seller internacional O menino do pijama listrado revisita neste romance o universo da guerra, tendo dessa vez como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial. Sensível e engenhoso, John Boyne esmiúça um dos capítulos mais traumáticos da história da humanidade pela perspectiva de dois jovens soldados que lutam, acima de tudo, contra a complexidade de suas emoções.

O compositor está morto, de Lemony Snicket (Trad. Érico Assis)
Quem já ouviu uma orquestra tocar, sabe que os músicos têm toda a pinta de culpados. Onde estavam os Violinos na noite do crime? Alguém viu a Harpa? Não parece que o Trompete ficou um pouco nervoso demais, reclamando de tudo?
Neste desconcertante e misterioso crime, cada suspeito parece ter um motivo, mas todos têm álibis – os Violinos estavam tocando graciosas melodias, os Violoncelos estavam no acompanhamento, as Violas estavam reclamando da vida, como sempre, as Flautas estavam imitando passarinhos, os Clarinetes fizeram muitos elogios ao Inspetor, os Trombones se embebedaram e a Tuba ficou em casa com a sua senhora, a Harpa, tomando leite morno numa xicarazinha azul. E, no entanto, o Compositor ainda está morto.
Depois de ouvir os instrumentos e a narração do próprio Lemony Snicket, ou a versão em português, com música de Nathaniel Stookey interpretada pela Filarmônica de San Francisco, os leitores descobrirão o que aconteceu no crime mais bem orquestrado da história.

A máquina de madeira, de Miguel Sanches Neto
Uma enorme máquina taquigráfica chega ao Rio, vinda numa embarcação do Recife. Quem acompanha o desembarque é seu criador, o padre Francisco João de Azevedo. A máquina é uma das revoluções do século XIX. Com ela, sermões e discursos poderão ser transcritos com agilidade até então desconhecida, como que num registro do próprio progresso brasileiro. É um momento de ebulição nas ciências nacionais. Dezenas de inventores se agrupam no prédio da Exposição Universal, que receberá visita do imperador d. Pedro e de investidores do mundo todo. Nas ruas, a expectativa de um salto industrial e econômico para o Brasil. Neste romance histórico, o escritor Miguel Sanches Neto usa a trajetória do padre Azevedo, precursor da máquina de escrever e quase desconhecido entre nós, para narrar a formação da identidade de um país. Com humor e um olhar por vezes ferino, mostra um Rio de Janeiro que tenta caminhar do exótico para o moderno, um lugar onde os ventos europeus contracenam com resquícios do Brasil colônia. A figura do padre professor, impelido à desastrada aventura no Rio por suas habilidades manuais e ânsia pelo progresso, serve de baliza para uma trama maior, de exploradores e explorados, de articulações políticas e econômicas, que vai da intriga nos corredores do Paço à residência de uma certa amante do imperador, passando pelos melhores bordéis da cidade.
Em meio a essa quase tragicomédia brasileira, surge um personagem denso e complexo. Entre a fé e a ciência, entre o amor e o dever, Azevedo representa uma nova mentalidade. No descompasso de suas ideias progressistas e as já velhas tradições nacionais, surge uma reflexão atual sobre um país sempre em movimento. No Rio de Janeiro do século XIX, recriado minuciosamente por Miguel Sanches Neto, é o Brasil de hoje que se desvela.

Onde está tudo aquilo agora?, de Fernando Gabeira
Como seu famoso relato, O que é isso, companheiro?, este livro também nasce de uma indagação. Se, no primeiro, Gabeira usava a militância na luta armada para reavaliar suas posições, em Onde está tudo aquilo agora? é toda essa trajetória de cinco décadas que ele passa em revista. A partir de uma revolta incipiente, “um difuso desejo de liberdade”, acompanhamos os caminhos que o fazem se voltar para o jornalismo e se empregar em redações do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, iniciando então sua atividade política. É como jornalista que ele acompanha o golpe de 1964. Com o endurecimento do regime, Gabeira radicaliza e se envolve num dos mais conhecidos episódios da ditadura, o sequestro do embaixador Charles Elbrick. Na parte final de Onde está tudo aquilo agora?, Gabeira passa a limpo esses dezesseis anos como deputado em Brasília, assim como as duas campanhas políticas, para a prefeitura e para o governo do Rio. Os erros e as dificuldades são inseridos numa meditação ampla sobre o fisiologismo e a política partidária no Brasil. Do rompimento com o PT a uma percepção interna do mensalão, ele transforma a atividade parlamentar em mais um passo para compreender a democracia, a liberdade e o poder.

Editora Paralela

Profundamente sua, de Sylvia Day (Trad. Alexandre Boide)
Desde o primeiro momento em que se viram, Eva e Gideon experimentaram uma atração incontrolável. Mais do que sexo casual, os dois logo se deram conta de que o que havia entre eles era um amor profundo e arrebatador. E de que viver esse romance seria muito complicado. Segundo volume da trilogia Crossfire, Profundamente sua dá continuidade à jornada que Eva e Gideon começaram em Toda sua, romance publicado em 34 países que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares e 600 mil e-books só nos Estados Unidos. Neste livro ainda mais ardente, detalhes perturbadores da história de Gideon são revelados, e Eva se defronta com a reaparição de um fantasma do passado, enquanto os dois lutam para construir um futuro juntos. Recheado de surpresas e cenas picantes, este romance é imperdível!

Post mortem, de Patricia Cornwell (Trad. Celso Nogueira)
Um brilho inusitado sugere a presença de alguma substância desconhecida no corpo de uma série de mulheres assassinadas. Mulheres saudáveis transformam-se em corpos inertes, assassinadas por prazer. Escassas e obscuras, as pistas não levam a lugar nenhum. A investigação dos crimes está sendo sabotada. A dra. Kay Scarpetta, médica-legista, precisa ir muito além da identificação de um produto químico para chegar ao assassino. Precisa descobrir, por exemplo, quem está do seu lado e quem não está.

Semana cento e nove

Os lançamentos desta semana são:

Poemas, Adonis (Trad. Michel Sleiman)
Há muito tempo Adonis é considerado o maior poeta árabe vivo. Não apenas foi o principal renovador daquela poesia, ao introduzir algumas das mais importantes conquistas formais do modernismo ocidental, como continua a ser uma das vozes fundamentais e mais ativas da cultura árabe. Embora consciente de viver em tempos de corrosão, ele não teme exercitar uma poesia de sabedoria, na fronteira da filosofia ou mesmo da religião, chegando a cristalizar novas máximas, nunca dogmáticas, em seus textos. “A poesia”, disse recentemente Adonis, “não pode ser feita para se adequar a uma religião ou a uma ideologia. Ela oferece aquele conhecimento que é explosivo e surpreendente.” Em tradução inédita do árabe, este livro é a primeira seleta de poemas de Adonis publicada no Brasil.

As impurezas do branco, Carlos Drummond de Andrade
As impurezas do branco é um livro que aponta novos e múltiplos caminhos na lírica de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em 1973 (década em que a vida política estava sufocada pela Ditadura ao mesmo tempo em que se assistia à explosão da cultura jovem em todos os cantos do mundo), os poemas tratam sem cerimônia alguma de temas maiúsculos como amor e metafísica, e abordam – com agudeza – aspectos da vida cotidiana, como o noticiário e a publicidade. Sem esquecer, é claro, daqueles motivos que consagraram o poeta mineiro como um dos pontos altos do tempo e a brevidade da vida.

Novos poemas e 5 elegias, Vinicius de Moraes
Os dois livros aqui alinhados formam um conjunto de grande força e beleza. Mas não é apenas isso: ambos se animam por um espírito comum. O abrir de olhos para o mundo alcança um momento excepcional em Cinco elegias, de 1943. Se os poemas que compõem o livro são, como os de Novos poemas, representativos de um período de transição, há também um salto: estamos diante de uma experimentação poética e humana que é um marco na poesia brasileira do século XX. O leitor tem em mãos dois livros que, além de vizinhos no tempo, definem uma mudança de rumo e um ponto alto na obra de Vinicius de Moraes.

Antologia poética, Carlos Drummond de Andrade
Com poemas selecionados e arranjados com inaudita perspicácia pelo prórpio autor há 50 anos, esta Antologia poética é ainda hoje a melhor e mais eloquente introdução panorâmica à obra de Carlos Drummond de Andrade. Dividido em nove seções – que dão conta com maestria do vasto escopo dessa lírica fundamental -, este volume traz diversos clássicos drummondianos e outros poemas que, lidos em conjunto, poderão ganhar uma nova luz.

Sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade
Sentimento do mundo, publicado em 1940, é a obra em que o poeta mineiro traz um olhar cuidadoso para as temáticas políticas e sociais de seu tempo. Afinal, durante sua elaboração o Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Europa observava a assustadora ascensão nazifascista. Esse senso crítico apurado é perceptível em poemas como “Congresso Internacional do Medo” e “O operário no mar”, além do texto que dá título ao livro. O tom desesperançado não impede que Drummond revele também uma faceta delicada e intimista, seja lembrando-se de sua Itabira natal (“apenas uma fotografia na parede”), seja ao homenagear Manuel Bandeira em “Ode no cinquentenário do poeta brasileiro”.

Como ficar sozinho, Jonathan Franzen (Trad. Oscar Pilagallo)
Considerado um dos mais importantes ficionistas norte-americanos de sua geração, Jonathan Franzen retoma, em Como ficar sozinho, o ensaísmo em que também se destacara com A zona do desconforto (2008). O autor desfaz a fronteira entre ficção e não ficção nesta obra permeada pelo universo ficcional de grandes escritores como Kafka, Proust, Goethe, Daniel Defoe e Alice Munro. Uma verdadeira aula de literatura.

José, Carlos Drummond de Andrade
No ensaio de “José e algumas de suas histórias”, escrito especialmente para este volume, o crítico e poeta Júlio Castañon Guimarães analisa a fortuna do livro e do poema que lhe empresta o título. E revela que o próprio Drummond muitas vezes retomou o mote em algumas de suas crônicas publicadas em jornal. O poeta, aliás, reuniu numa pasta os mais diversos recortes em que o verso “E agora, José?” retornava, de forma paródica ou mesmo celebratória. Mais uma demonstração do enorme poder de penetração de um autor que marcaria para sempre o cenário da poesia do século XX.

Toda Rê Bordosa, Angeli
Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Outros personagens de Angeli, como Bibelô, Meia Oito, Wood & Stock, passaram por sua vida (e sua cama). E ela acompanhou, alheia, as mudanças sociais e políticas dos anos 80 e 90. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo, e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras desse Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro. Quem conhece apenas o mito terá acesso a todas as tiras, histórias longas, rabiscos e ameaças tramadas por Angeli contra sua criatura. E quem nunca se esqueceu dela pode ir encostando no balcão. A casa é sua, como ela disse tantas vezes.

Semana sessenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
O moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes escritores da África, reflete sobre as mazelas e maravilhas do continente nos artigos e ensaios deste livro de “interinvenções”. Da corrupção endêmica de boa parte dos governos africanos à destruição do meio ambiente, da força da tradição oral às complexas relações entre as culturas locais e a modernidade urbana, do entrelaçamento do português com as línguas nativas à herança de séculos de escravismo, tudo passa pelo crivo do autor, que também fala de escritores que lhe são caros, como Jorge Amado e Guimarães Rosa. Nestes textos militantes, em que se atacam os principais entraves ao desenvolvimento dos povos africanos, Mia Couto se serve de sua dupla experiência de biológo e escritor, combinando rigor intelectual e imaginação poética para ler melhor um mundo em permanente mutação.

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli
Comprar barato e vender caro pode ser um processo mental vicioso. Devido à prática, o dono de uma loja de quinquilharias atinge essa condição extrema ao expor a clientela a tal materialismo cínico. Prestes a se casar, dispensa a noiva com frieza e apaixona-se pela bunda de uma garçonete. Lê livros policiais e sua mente adota um ritmo alucinante. No entanto, algo de errado no encanamento dos fundos da loja põe tudo sob a seguinte perspectiva: o mau cheiro vem do ralo ou do protagonista? Surpreendente estreia literária de Lourenço Mutarelli, o livro exploca alguns dos temas prediletos do autor, como a desumanização progressiva, o absurdo e a crueldade, com a linguagem ágil que foi amadurecida em sua carreira nos quadrinhos. Adaptado às telas, resultou em atuação memorável de Selton Mello, além de marcar a história recente do cinema brasileiro.

A importância de ser prudente e outras peças, de Oscar Wilde (Tradução de Sonia Moreira)
Muito da fama de Oscar Wilde se deve ao romance O retrato de Dorian Gray, mas foi como dramaturgo que ele alcançou o maior sucesso em vida, com as comédias de costumes Uma mulher sem importância, Um marido ideal e A importância de ser prudente, reunidas neste volume. Nas peças que em larga medida satirizam a alta sociedade vitoriana que jamais o aceitou de bom grado, Wilde aponta de maneira irônica para si mesmo. Há algo do autor nas observações cínicas de lorde Illingworth em Uma mulher sem importância, assim como no estilo de vida despreocupado de lorde Goring, o bon vivant que é a fonte de sensatez de Um marido ideal, e também no inconsequente dândi Algernon de A importância de ser prudente. Com introdução e notas de Richard Allen Cave, diretor e estudioso do teatro britânico, a edição da Penguin-Companhia situa o leitor sobre o contexto em que as peças foram encenadas e as inovações que Wilde, um intelectual de grande apuro técnico, trouxe para a dramaturgia moderna.

Burocracia e sociedade no Brasil colonial, de Stuart B. Schwartz (Tradução de Berilo Vargas)
Entre o fim do século XV e o começo do século XVI, a monarquia portuguesa passou a contar cada vez mais com a burocracia estatal para centralizar o poder, processo esse quase contemporâneo — e de alguma forma propulsor — da expansão ultramarina. Esse esforço pela construção de uma burocracia régia acabou por legar às colônias a herança de uma estrutura administrativa bem desenvolvida e de uma concepção curiosamente legalista do governo e da vida. Este livro (publicado originalmente nos anos 1970 e reeditado agora com nova tradução, apêndice documental inédito e nova introdução do autor) foi estudo pioneiro da burocracia colonial na América portuguesa, tanto pelo enfoque, a justiça, como pela abordagem, que privilegiou as teias humanas que formavam a burocracia.

Visões da liberdade, de Sidney Chalhoub
Rio de Janeiro, últimas décadas do século XIX. Adão Africano, Genuíno, Juvêncio, Bonifácio, Francelina, Maria de São Pedro — todos negros, vários escravos: esses são alguns dos personagens que, outrora esquecidos em meio à documentação dos arquivos, protagonizam este livro. Um trabalho de pesquisa minucioso e sensível permite a Sidney Chalhoub analisar os processos criminais e de obtenção de alforria em que esses negros estavam envolvidos, revelar seus desejos e interferências nas operações de compra e venda a que tinham de se submeter e, por fim, desvendar o papel que a cidade do Rio desempenhava em suas vidas. Recuperando aspectos da experiência dos escravos na Corte, seus modos de pensar e atuar sobre o mundo, Chalhoub mostra que as lutas entre diferentes visões de liberdade e cativeiro contribuíram para o processo que culminou com o fim da escravidão no Rio de Janeiro.

Histórias de mistério, de Lygia Fagundes Telles
Esta bela reunião de seus contos apresenta a escritora Lygia Fagundes Telles em alguns de seus aspectos mais importantes. Seus temas, aqui, são a ansiedade e a morte, assim como o desamparo diante da perda do amor. Ao mesmo tempo encontramos a surpresa, o inusitado surgindo sem aviso do cotidiano bem conhecido. É o que acontece, por exemplo, em “As formigas”, em que duas estudantes alugam um quarto no sótão de uma pensão e descobrem, abandonado pelo locatário mais recente, um caixotinho cheio de ossos. Assustadas, elas veem como noite após noite uma fileira maciça de formigas entra na caixa e, aparentemente, não sai. As formigas parecem ter uma missão. Nesse e nos outros contos deste livro, o leitor encontrará os temas e o clima que caracterizam os contos de Lygia Fagundes Telles, escritos na linguagem ao mesmo tempo delicada e incisiva de uma das maiores escritoras brasileiras de nosso tempo.

Escuta só, de Alex Ross (Tradução de Pedro Maia Soares)
Em Escuta só, Alex Ross reúne momentos significativos de sua atuação como crítico musical da prestigiosa revista New Yorker, da qual é colaborador desde 1996. Após o sucesso de O resto é ruído, o livro convida a uma urgente reavaliação dos rótulos e preconceitos que continuam a segregar a chamada “música clássica” do cotidiano da maioria das pessoas. De Kurt Cobain a Bach, de Schubert a Bob Dylan, o repertório selecionado pelo autor propicia uma fascinante viagem pelo mundo da música e de seus compositores. A escrita erudita e refinada de Ross, híbrida entre a reportagem, a crítica e o ensaio, relaciona assuntos tão contrastantes como a estrutura da sonata clássica e a vitalidade anárquica do punk com a sutileza das modulações de um prelúdio de Debussy. Leia o prefácio do livro aqui.

Meu filho pato (Organização de Ilan Brenman e Instituto 4 Estações; Ilustrações de Rafael Anton)
Nem sempre é fácil falar sobre a morte, mas vivemos o sentimento de perda desde a infância. Pensando na dificuldade que muitos adultos têm em falar com seus filhos sobre o tema, o escritor Ilan Brenman, autor de inúmeros livros de sucesso destinados ao público infantil, e a equipe de psicólogas do Instituto 4 Estações, especializadas em lidar com situações de perda, resolveram convidar seis escritores de renome (Angela-Lago, Índigo, Lalau, Flávia Lins, César Obeid e Roger Mello) para criar histórias para os pequenos sobre esse assunto. O resultado é um livro tão variado em estilos — há contos de humor, outros mais tristes, um mais psicodélico, cordel e poesia — quanto em conteúdo — muitas possibilidades para que as crianças possam falar sobre a morte e entendê-la como um fenômeno inerente à vida.

Forma e exegese & Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes
Este livro reúne Forma e exegese (1935) e Ariana, a mulher (1936), o segundo e o terceiro livro de Vinicius de Moraes, respectivamente. Forma e exegese foi publicado quando Vinicius tinha apenas 22 anos. Mas se o jovem poeta já chamara a atenção da crítica com seu primeiro livro, O caminho para a distância (1933), o segundo trouxe a consagração ao receber o prestigioso prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira. Ariana, a mulher é um único e longo poema que põe em cena, como num transbordamento, o mundo emotivo e existencial de um sujeito. O texto se inicia com o relógio “batendo soturnamente a Meia Noite” e termina com o mesmo relógio “parado sobre a Meia Noite”. É nesse mundo estagnado, morto, que o poeta clama por Ariana. Mas ela não é apenas uma mulher; como o título sugere, ela é a mulher. E é também a morte, a vida, a natureza.

Beijos, Luciana ou A ausência que seremos

Por Luiz Schwarcz

Amanheci com um sentimento estranho hoje. Tinha que fazer um exame , dormi mal, e, ao chegar no laboratório, a atendente cometeu um erro, invalidando as horas de jejum e a minha correria para estar no  local a tempo de fazer tudo corretamente. Voltei para casa e, em vez de praticar esporte, acabei indo para o escritório terminar o livro de Hector Abad, A ausência que seremos, ouvindo uma nova gravação da Sinfonia número 2 de Mahler, a sinfonia da Ressurreição. O desconforto que sentia era grande, sem saber a razão. Entre bufos, eu chacoalhava a cabeça e desabafava comigo: merda de dia!

Cheguei à editora cedo, e aí veio a notícia. Minha amiga Luciana de Moraes foi encontrada morta, estatelada no chão em frente ao prédio onde morava.

Ontem à noite, exatamente às 22h41, ela havia me enviado um email respondendo a minha sugestão de reunião para tratarmos de uma conquista importante: finalmente, nesta Feira de Londres, após anos de insistência sem sucesso, eu consegui convencer um agente literário importante a representar a obra de Vinicius de Moraes no exterior. Além disso, queria discutir desde já as atividades relativas ao centenário do poeta. Luciana me escreveu confirmando o encontro para a próxima quinta-feira. Era uma mensagem curta, mas carinhosa, com o “Querido” de sempre  no começo e com o beijo de sempre ao final.

Ainda não posso acreditar no que aconteceu. Lembro de quando a encontrei pela primeira vez, quando eu ainda trabalhava na Brasiliense. Foi na Pizzaria Guanabara, em uma grande mesa comandada por Caetano Veloso e Wally Salomão ― ou melhor, só por este último, Wally não dividia o comando ―, e a voz rouca da Luciana disputava com a do Wally, quase no mesmo tom, a atenção dos presentes.

Depois disto tivemos muito contato, por conta da obra de seu pai, que veio para Companhia das Letras em 1991.

Somos muito diferentes, Luciana e eu, mas nos entendíamos bem. Ela era brava, mas bem humorada. E o humor nos unia. Ela me chamava muitas vezes pelo meu nome completo. E Schwarcz com sotaque do Rio soa como se fosse um nome tipicamente carioca, particularmente quando falado por ela.  Alguns anos atrás,  senti que Luciana e sua irmã Suzana não estavam satisfeitas com o trabalho que fazíamos, e tinham razão. Convoquei uma dessas reuniões, como seria a de quinta-feira, e levei um novo plano, feito em conjunto com Eucanãa Ferraz, para a edição completa da poesia e prosa de Vinicius de Moraes.

No final da reunião, Luciana exclamou: “Valeu, Luiz Schwarcz, nosso casamento estava precisando de Viagra,  de Viagra, e você sacou” e Suzana completou, “Haja Viagra então!” e todos comemoramos.

Não tenho mais o que dizer. Homenagear Luciana, todas as irmãs, e quem vivia e trabalhava com ela é tão pouco. Mandar beijos para ela, sentir tanto, pensar em abraçar logo a família, e ouvir a Sinfonia número 2. É o que estou fazendo, neste momento.

Luiz

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