virginia woolf

Virginia Woolf por Paulo Mendes Campos

Por Paulo Mendes Campos



À esquerda: Vita Sackville-West e Virginia Woolf. À direita: capa por Alceu Chiesorin Nunes.

[Orlando, de Virginia Woolf, será publicado pela Penguin-Companhia este mês. Leia abaixo um trecho do ensaio de Paulo Mendes Campos sobre o livro, presente na íntegra como posfácio desta nova edição do clássico.]

Quem tem medo de Virginia Woolf? Todo mundo. Seria capaz de apostar que o autor da peça teatral leu a autobiografia de Osbert Sitwell, na qual este conta que jamais entendeu por que as pessoas tinham medo dela — mas tinham. A romancista inglesa foi um tipo acabado de onésima. Onésima, segundo a classificação de Jaime Ovalle, é a pessoa que duvida, sorri, desaponta, gela, com um senso de humor que aterroriza as pessoas de fácil ebulição emocional. Alexander Pope foi ainda mais puramente onésimo e, para verificar isso, é consultar a descrição que a própria Virginia Woolf faz do poeta numa passagem de delicioso virtuosismo do livro (romance? poema?) chamado Orlando.

Em contrapartida, todos se apaixonavam por Virginia Woolf. Varões e varoas. Moços e velhos. Mágicos e lógicos. Bravos e covardes. Homossexuais e tradicionalistas. Não é bastante racionalizável a fascinação de Virginia, the Goat, como diziam os íntimos. Não se discute o magnetismo de uma chama. Arrisco apenas a pensar que ela possuía em alto teor todas as nossas fraquezas e todas as qualidades que também gostaríamos de possuir.

Além disso era linda. Não de uma beleza caída do céu por descuido, mas de uma beleza conquistada através da solidão, da contemplação, do ritmo, uma beleza que se desenvolve de dentro para fora e se estampa em ossos angulares e linhas inesperadas. Uma beleza apesar dos outros. Contraditória e quase irritante. Uma beleza feita de imaginação em movimento, não de reflexão, uma beleza de água. Tão rápida que os amigos jamais chegaram a um acordo sobre os olhos de Virginia, a não ser que eram belos. Olhos acinzentados, diz o poeta Stephen Spender. Cor de hematita, negros e azuis, diz o pintor Jacques Émile Blanche. Verdes para David Garnett. Com esses olhos indefinidamente irisados, Virginia viu um mundo em perpétua mutação de cores e formas. A visão, no sentido físico e simbólico, é o seu signo. Anda justa Monique Nathan ao falar que, sem o contexto histórico, a obra de VW perde a articulação concreta. Podemos ir mais longe: obra ou personalidade, ela está sempre articulada ao contexto, como a ostra à concha; é sempre Virginia mais o contexto, seja este histórico, familiar, urbano, campestre, praieiro. Era uma alma situada no instante, presente portanto na infinitude das experiências, mas sem residência certa ou endereço conhecido.

[…]

Tinha 36 anos quando publicou Orlando. Estava casada, castamente casada (quem deseja informações sob VW só deve esperar pelo inesperado) com um homem paciente, inteligente, correto, devotado: Leonard Woolf. Publicara até então seis livros. Orlando foi escrito a grande velocidade. É uma torrente ritmada que se estende por três séculos da história da Inglaterra. Surpresa: o mesmo personagem cobre esses trezentos anos de existência. Maior surpresa ainda: Orlando é alternadamente homem e mulher. A androginia andava no ar que os poetas farejam. Uns seis anos antes, Katherine Mansfield anotava no diário: “não somos nem machos nem fêmeas. Escolhi o homem que desenvolverá e ampliará em mim o que há de masculino; ele me escolheu para engrandecer nele o que há de feminino”. A figura mais importante do mais famoso poema da época (The Waste Land — T.S. Eliot) é Tirésias, o velho andrógino da antiguidade, o vidente cego. Coleridge já divisara uma androginia espiritual em todos os grandes criadores. Shakespeare seria para VW o máximo da potencialidade masculina-feminina. Contudo, as intuições dos escritores ingleses estavam em atraso. Já em 1898 Freud manifestava para um amigo sua crença na bissexualidade fundamental do ser humano: “Estou me habituando a considerar todo ato sexual como um acontecimento implicando quatro pessoas”. Jung, por sua vez, pretende identificar no psiquismo a tendência de reconstituir um estado de coexistência do masculino e do feminino. Desses dois postulados partiram os poetas da ciência psicológica. Hoje se fala em mito confirmado pela biologia; sobre a teoria dos hormônios estaria o fundamento da bissexualidade, com um tríplice campo de pesquisas: bissexualidade biológica em diversos animais; traços de bissexualidade anatômica no ser humano; bissexualidade permanente e flutuante através das secreções de hormônios masculino e feminino. (Cf. Suzanne Lilar, Planète, n. 12).

Assim, partindo da poesia/mito, a ciência retorna aos emboléus ao estado primitivo: o amor seria a tentativa de reconstituir uma indistinção sexual perdida. Mas Orlando não é uma fantasia científica sobre a androginia. Nem mesmo chega a ser propriamente uma fantasia poética ou mítica sobre a androginia. De toda a especulação moderna, o que mais interessaria a VW seria decerto a hipótese de que o psiquismo humano é estreitamente tributário da oscilação permanente do equilíbrio hormonal. Pois, com Orlando, VW se fez uma espécie de Diana Caçadora: a peça procurada no bosque intrincado é a identidade humana, o ser contínuo, a personalidade íntegra. A caçada serve para mostrar que a caça não existe: em vez de um eu integral, encontramos o esmiuçamento da personalidade, Orlando é um poema sobre o tempo, melhor, sobre a fugacidade do ser e das projeções do ser dentro do tempo. O tempo é o personagem. Orlando é um indivíduo-dividido, ilogicidade insolúvel. Esse indivíduo é inerme dentro do tempo, e é o tempo que corrige a passibilidade da pessoa, repetindo-a através das sucessivas eras, em uma fantasia musical libérrima, mas que recorre indefinidamente aos mesmos motivos: beleza, sexo, amor, natureza, solidão, sofrimento e morte. É como se algo todo-poderoso — o deus Tempo — assoviasse a música do destino humano, o fatum, o fado. É um scherzo, uma brincadeira musical do tempo. Este, o autor, compõe, supremo virtuosismo, através de cada homem/motivo a sonata completa de toda a Humanidade.

Outro personagem concorrente é o Espírito da Época, a submissão ao efêmero, às ilusões em vigência. O Espírito da Época é a nossa limitação e por isso é importante. É a moeda corrente: quem usar outra pode ser apanhado como falsário. Com pespontos bem femininos anota VW: “a transação entre um escritor e o espírito da época é de infinita delicadeza, e a fortuna de suas obras depende de um bom arranjo entre os dois”. A vida interior é inenarrável: “Orlando estava tão quieta que se ouviria a queda de um alfinete. Quem dera que houvesse caído um alfinete. Sempre teria sido um pouco de vida”.

O livro brotou da contemplação meditativa de um retrato de Vita Sackville-West. Uma paródia aos mais acurados estudos biográficos da época. Contudo, é também autobiográfico, indisfarçavelmente nas páginas finais, até certo ponto autocomplacentes, mas dramáticas: “Se a heroína de nossa biografia não se decide nem a matar nem a querer, mas só a pensar e imaginar, podemos deduzir que não se trata de outra coisa além de um corpo morto e abandoná-la”.

Aqui se pode talvez detectar um dos veios neuróticos que levaram VW ao suicídio; se a pessoa simples luta contra a rejeição afetiva dos outros, a sensibilidade complexa costuma provocá-la ou inventá-la. Virginia amplificava eletronicamente as menores contrariedades. Mas Orlan­do deve ter sido também uma tentativa de recuperação da normalidade (?) feminina de VW, condenada a um encadeamento de raciocínios que a afastavam da espontaneidade a que, por ter nascido mulher, tinha direito.

Pode-se ainda dizer que o personagem de Orlando é o próprio ritmo do livro. Ritmo de água. Na água encontraríamos as conotações mais sensíveis do simbolismo woolfiano. Um crítico chega a afirmar que a água é a substância do romance de VW e não um elemento decorativo. O trágico apelo das águas… Quem buscou a morte nas águas de um rio conquistou o direito de ter deixado em uma obra sutil essa frase banal. Orlando pode ser ainda um romance sobre a vida. Agora sou eu que me arrisco no foco da banalidade. Que é a vida? “A vida não é uma série de lanternas dispostas simetricamente, a vida é um halo luminoso, um invólucro meio transparente onde somos encerrados desde o nascimento de nossa consciência até a morte.” A tarefa do romancista — ela pergunta — não será exprimir esse espírito mutável, desconhecido e ilimitado, sejam quais forem as aberrações e complexidades que ele possa apresentar? Jamais conheci qualquer pessoa — diz Osbert Sitwell — com uma percepção mais sensível das menores sombras atiradas em torno dela. Depois de túneis e mais túneis, de crises e mais crises, depois de ter escrito nove romances, sete volumes de ensaios, duas biografas e 26 cadernos de um diário, em 1941 as sombras estreitam-se espessas em torno de Virginia Woolf. No mês de abril, dois meses depois da morte de Joyce, seu bastão e seu chapéu foram achados à margem de um rio. O corpo só foi encontrado semanas mais tarde. Deixou para o marido este bilhete: ‘‘Tenho a impressão de que vou ficar louca. Ouço vozes e não posso concentrar-me em meu trabalho. Lutei contra isso, mas não posso continuar lutando. Devote toda a felicidade de minha vida. Foste impecavelmente bom para mim. Não posso continuar estragando tua vida”.

[Texto publicado inicialmente em Diário da Tarde (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Massao Ohno, 1981), a ser lançado pela Companhia das Letras.]

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Mineiro de Belo Horizonte nascido em 1922 e falecido em 1991, Paulo Mendes Campos viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Livros como O domingo azul do mar fizeram dele um dos melhores poetas de sua geração. Como cronista, foi, ao lado de Fernando Sabino e Rubem Braga, um dos responsáveis pelo enorme prestígio que o gênero ganhou no país nos anos 1950-60. Marcada pelo humor e pelo lirismo, sua obra, em que se incluem livros como O cego de IpanemaHomenzinho na ventaniaO colunista do morro, permaneceu esgotada durante anos antes de ser reorganizada pelo jornalista Flávio Pinheiro e ganhar novos títulos, entre eles O amor acabaCisne de feltroO gol é necessárioArtigo indefinido.