vladimir nabokov

Lolita

Por Carol Bensimon

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Quando li Lolita pela primeira vez, ainda não entendia o que me fazia gostar ou não de um livro. Eu tinha uns 18 anos e aquele romance só tinha me caído nas mãos porque era o primeiro volume dessas coleções que às vezes os jornais lançam (ou lançavam): pelo valor da assinatura mais tantos reais, você ganha uma incrível biblioteca de clássicos da literatura universal. A versão intelectualizada dos utensílios de cozinha de Caras. Lolita era o primeiro livro, mandaram-no como amostra grátis. Meu avô não se interessou em pagar pelo resto.

Li Lolita assim, por acaso. Foi como conhecer uma grande banda porque ela está tocando nos corredores de um supermercado.

O que havia lá? Naquela idade, eu não sabia dizer direito (a diferença para hoje é que talvez eu me esforce mais tentando explicar, mas continuo ignorando a maior parte da origem e dos caminhos malucos que fazem os arrebatamentos). Lolita me fisgou. Me deixou colada no sofá com a sensação de que eu esperava sempre uma coisa, a próxima coisa, a próxima coisa incrível. Senti asco, desejo, culpa, empatia, e a mistura de tudo isso me deixou tonta, empolgada, na ponta dos pés, na corda bamba da imoralidade.

Lolita foi o terceiro livro escrito em inglês que Nabokov, um russo, publicou depois de emigrar para os Estados Unidos. Me perdoem os fãs de Nabokov, mas acredito que nenhum outro de seus romances chega aos pés desse, escrito aos 56 anos. Ele passou cinco anos escrevendo-o e dizem que tinha fichas extremamente organizadas, e dizem também que andava em ônibus com pré-adolescentes para anotar num caderno a cadência de suas falas e as gírias que usavam. Durante aquele período, todos os modos, o kitsch, o consumismo da cultura americana dos anos cinquenta eram uma fonte de inspiração para o imigrante europeu que sobrevivia na América dando aulas de literatura em escolas de pouco prestígio. No livro The Annotated Lolita, Alfred Appel Jr. nos apresenta a reprodução de um anúncio de época — o anúncio de um roupão — que teria servido a Nabokov como referência para o físico de Humbert Humbert.

A publicidade também parece ter ajudado na criação da dona-de-casa suburbana Charlotte Haze. Havia um anúncio em particular que Nabokov adorava mostrar aos seus alunos e que envolvia colheres de prata e uma mulher com as mãos entrelaçadas. Ambos anúncios — o do roupão e o das colheres — podem ser vistos nesse artigo da New Yorker. Curiosamente, Nabokov não deixou para trás nenhuma referência visual da menina Lolita, essa personagem que a cultura pop e as adaptações cinematográficas transformaram numa garota de cerca de 16 anos, mas que de fato tinha apenas 12. Vender Lolita como uma figura sexualizada, aliás, era uma ideia que seu criador desaprovava; Nabokov não queria que as capas das edições de Lolita fizessem qualquer referência à personagem principal, algo que teve dificuldade em controlar sobretudo depois do lançamento do filme de Stanley Kubrick.

A primeira edição do livro data de 1955 e foi publicada, em inglês, na França. O livro apareceria somente três anos depois nos Estados Unidos, e teve imediatamente um sucesso estrondoso; foi o primeiro livro, depois de E o vento levou, que vendeu 100.000 cópias em três semanas. Bons tempos.

Lolita seria publicado hoje? Não podemos saber. Se não há uma censura declarada a obras literárias, há sem dúvida uma onda moralizante e politicamente correta que condena os personagens cujos valores são distorcidos ou diferentes dos nossos. É sintomático também que nosso tempo coloque na lista dos mais vendidos uma saga em que a perversão (sado-masoquismo) passou por uma limpeza enorme, uma adequação social e comercial, deixando tudo com o aspecto de uma longuíssima propaganda de perfume.

Cinquenta tons de cinza não faz mal a ninguém. Enquanto isso, Lolita mantém intacto seu potencial de choque e de desestabilização, mesmo depois de passados sessenta anos. Tanto é que o romance foi recentemente censurado na universidade de Columbia.

Mas o que seria da literatura sem os maus e sem os loucos?

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Meus autores favoritos (2)

Por Luiz Schwarcz


Jorge Luis Borges em sua biblioteca (Foto por Sara Facio)

Naquela sala em Nova York eu iria assinar o contrato mais suado da Companhia das Letras. Dois anos haviam se passado desde o começo da negociação com a agente de Vladimir Nabokov, e finalmente lá estava eu, na residência de Nicky Smith, acompanhado de João Moreira Salles, que na época tirara uns meses de sabático da Videofilmes e viera trabalhar como editor na Companhia das Letras e também na editora Knopf. Não é comum um editor ir até um agente para assinar um contrato. Mas naquele caso fora preciso. Para conseguir Nabokov para a Companhia das Letras ameacei, inúmeras vezes, aparecer na porta do apartamento do agente, até que finalmente fui, e levei o João — que na época estava em Nova York —, comigo. Faltava acertar alguns poucos detalhes, o que fizemos in loco, e assinar o contrato, o que eu tinha deixado claro que faria. Era isso ou não arredaria pé da casa daquela senhora, que ao vivo era tão gentil, mas por carta ou fax era muito pouco ativa, e que certamente não queria um editor brasileiro estacionado por muitas horas ou dias em seu sofá.

Assinado o contrato, após efusivos cumprimentos e abraços, perguntei, assim só por perguntar:

— Miss Smith, existe algum outro autor de sua lista de representados que a senhora pensa que caberia na linha da minha editora?

A resposta veio rápida e surpreendente:

— Sim, Borges!

Olhei para o João, enquanto ele também me olhava, os dois totalmente incrédulos, e em uníssono gritamos :

— BORGES?

E ela:

— Sim, Borges. Interessa?

Foi o que Nicky Smith respondeu, dirigindo–se quase imediatamente para seu quarto, após ver nossas cabeças balançando, para cima e para baixo, sem parar.

Em poucos minutos ela voltava com uma minuta de contrato, igual à de Nabokov, para as obras completas de Jorge Luis Borges. Nabokov custara-me dois anos, Borges 10 minutos.

Saímos do apartamento e não resistimos, nos abraçamos longamente, pulamos, acho que até beijo teve. Certamente alguém que nos visse naquele corredor, pulando abraçados, poderia tirar algumas conclusões apressadas.

A alegria, porém, durou pouco. Apenas um dia. Na manhã seguinte, ainda com um sorriso estampado no rosto — Borges é sem dúvida um dos meus autores favoritos desde quando, ainda adolescente, li O Aleph —, fui à editora Penguin para um encontro com um dos chefes da seção de direitos internacionais, Hal Fessenden, um amigo de longa data. Vendo-me tão feliz, Hal disse logo de cara:

— Você parece muito bem, Luiz, o que aconteceu?

—Hal, acabei de comprar os direitos da obra de Jorge Luis Borges —, eu disse, lhe contando em seguida a boa fortuna que tive ao insistir em assinar o contrato de Nabokov de corpo presente.

A cara de Hal foi de total decepção. Não sabia como me dar a notícia que veio a seguir

— Sinto muito, Luiz, você não será, pelo menos por enquanto, o editor de Jorge Luis Borges no Brasil. Nicky Smith não detém mais os direitos de representá-lo. Deve ter te oferecido o contrato para tentar convencer o espólio do autor a ficar com ela, mas isso não ocorrerá. A briga ali é feia.

Acho desnecessário descrever como me senti. O oposto da alegria anterior é pouco. Descendente do mesmo rabino que gerou algum antecedente de Woody Allen, vivo a tristeza com uma plenitude inigualável.

Alguns anos depois, talvez com este assunto ainda entalado na garganta, vibrei ainda mais quando um outro agente, Andrew Wylie, me procurou com a mesma pergunta:

— Represento agora Maria Kodama e o espólio de Borges. Gostamos muito do trabalho feito pela Companhia das Letras com a obra de Calvino, que mostrei à Maria. Você gostaria de editar Borges no Brasil? Para tal, seria preciso ir na semana que vem para Buenos Aires para conversar com Maria Kodama. Você pode?

No domingo seguinte lá estava eu, na cidade de Borges. Tomei um avião para encontrar a viúva do escritor, numa confeitaria próxima à sua casa, onde conversaríamos por uma hora. Na manhã seguinte, às 7 horas, eu teria que voltar para o Brasil. Falei para minha mãe que iria para Buenos Aires, contei o motivo confidencial da viagem, e disse que daquela vez não procuraria minha família argentina, a quem sempre visitava, tornando todas as minhas viagens àquela cidade uma sucessão de compromissos pouco prazerosos.

Cheguei algumas poucas horas antes do encontro, e resolvi passear na praça em frente ao meu hotel, onde fui visto por minha prima, que passava de ônibus pela mesma região. Ela me reconheceu através da janela e por sorte não pôde descer, mas logo ligou para minha mãe, perguntando o que eu fazia em Buenos Aires, ainda mais sem avisá-la. Minha mãe inventou uma desculpa mirabolante, disse que eu estava lá a pedido do Ministro da Cultura, numa missão sigilosa e muito importante. (Eu não disse que era primo do famoso cineasta, autor de Annie Hall?)

O encontro com Kodama correu muito bem, foi agradável e produtivo, e eu voltei confiante ao Brasil. No entanto, ainda não seria desta vez que o autor de Ficções viria parar em nossas mãos. Já com tudo acertado, e mais um contrato das obras completas de Borges na minha mesa esperando por uma assinatura, Andrew Wylie me falou que queria que a Companhia das Letras resolvesse as pendências jurídicas com a editora que detinha, na ocasião, os direitos do autor no Brasil. Pedido feito e de pronto negado com firmeza.

Nove anos depois, em 2006, a oferta foi repetida, desta vez com todos os impedimento jurídicos definitivamente afastados. Foi quando, na editora, pudemos sorrir, nos abraçar e beijar, de verdad, em espanhol.

[Leia a 1ª parte de “Meus autores favoritos”, sobre Italo Calvino]

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.