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Leia antes (ou depois) de assistir: conheça as adaptações de 2016

Em 2016, vários títulos publicados pelo Grupo Companhia das Letras vão ganhar versões para o cinema ou televisão. Organizamos uma lista para você planejar as leituras antes ou depois daquilo que vai ver nas telinhas. Confira!

As relações perigosas

O clássico de Chordelos de Laclos acompanha um grupo peculiar da nobreza francesa que troca cartas secretamente. No centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes de se casar. As relações perigosas ganhou uma adaptação pela Rede Globo em Ligações perigosas, ambientada no Brasil durante os anos 1920 e protagonizada por Selton Mello e Patrícia Pillar. A minissérie de dez capítulos estreou na segunda-feira e fica no ar até o final da semana que vem.

Charlie Brown não desiste nunca!

Desde que foi anunciado, o filme 3D de Snoopy e sua turma é aguardado por todos os fãs das tirinhas de Charles M. Schulz. Snoopy e Charlie Brown – Peanuts, o filme estreia no próximo dia 14 nos cinemas brasileiros, e o longa conta como Charlie Brown tenta conquistar a menininha ruiva, sua nova vizinha e colega de escola. E, claro, toda a turma e seu cachorrinho fiel vão dar aquela ajuda para o bom e velho Charlie Brown. A história do filme está em duas edições infantis lançadas pela Companhia das Letrinhas: Charlie Brown não desiste nunca!, um belíssimo livro em capa dura, e Você tem talento, Charlie Brown!, lançados no final de 2015. Dois livros para todos os fãs de Snoopy!

Steve Jobs

Dois nomes de peso de Hollywood estão envolvidos na adaptação da biografia do criador da Apple para as telonas: Danny Boyle, responsável pela direção do filme, e Aaron Sorkin, que fez o roteiro com base no livro de Walter Isaacson. O livro, baseado em mais de quarenta entrevistas com Jobs ao longo de dois anos  e entrevistas com mais de cem familiares, amigos, colegas, adversários e concorrentes , narra a vida atribulada do empresário extremamente inventivo e de personalidade forte e polêmica, cuja paixão pela perfeição e energia indomável revolucionaram seis grandes indústrias: a computação pessoal, o cinema de animação, a música, a telefonia celular, a computação em tablet e a edição digital. Protagonizado por Michael Fassbender, Steve Jobs chega nos cinemas brasileiros também no próximo dia 14.

Pastoral Americana

Em Pastoral Americana, Philip Roth narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. O filme baseado em um dos principais romances de Roth tem estreia prevista para 2016 nos EUA (ainda sem data para o Brasil), e será dirigido pelo ator Ewan McGregor, que também protagoniza o longa. O elenco ainda conta com Jennifer Connelly, Dakota Fanning e Uzo Aduba.

De amor e trevas

Confrontado com o suicídio da mãe aos doze anos, três anos depois Amós Oz declara sua independência e volta as costas para o mundo em que crescera a fim de assumir uma nova identidade num novo lugar: o kibutz Hulda, na fronteira com o mundo árabe. Entre a autobiografia e o romance, De amor e trevas é a extraordinária recriação dos caminhos percorridos por Israel no século XX, da diáspora à fundação de uma nação e de uma língua: o hebraico moderno. O livro de Amós Oz foi adaptado pela atriz Natalie Portman, que assumiu a direção e roteiro do filme e também atua no papel da mãe do escritor. O longa estreou em 2015 em Israel e tem previsão de lançamento no Brasil em abril.

Um holograma para o rei

Tom Hanks faz o papel de um empresário em apuros financeiros que realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, fazer algo de bom e surpreendente com sua vida. Ambientado em uma próspera cidade da Arábia Saudita, a história do filme é baseada no livro Um holograma para o rei, de Dave Eggers, que nos leva por uma viagem pelo outro lado do mundo e pela comovente e por vezes cômica jornada de um homem para manter a família unida e a vida nos eixos diante da crise. O filme estreia em 2016 nos EUA.

Desventuras em série

Finalmente Violet, Klaus e Sunny Baudelaire vão voltar para as telas  mas dessa vez da TV e do computador. A Netflix anunciou que está trabalhando em uma série baseada nos livros de Lemony Snicket que contam a história de três irmãos órfãos que sofrem com a constante ameaça de seu tio, o conde Olaf, que quer roubar sua fortuna. A série de 11 livros já ganhou uma versão para os cinemas em 2004 com Jim Carrey no papel do malévolo conde Olaf. Ainda sem data de estreia (mas que deverá acontecer em 2016), as gravações de Desventuras em série começam agora no início do ano. Ou seja: ainda não temos imagens da adaptação nova para mostrar, mas um fã da série fez este trailer que representa muito bem o clima do livro. Até lá, você pode ir se familiarizando com os irmãos Baudelaire com a série de Snicket.

O Círculo

Mais um romance de Dave Eggers vai ganhar sua versão para as telonas em 2016: O CírculoQuem vai viver a protagonista Mae Holland nos cinemas será Emma Watson, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo. Sediada num campus idílico na Califórnia, O Círculo incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade online única e, por consequência, uma nova era de civilidade e transparência. Quem está no Círculo é incentivado a contar tudo, e segredos não são permitidos. O círculo, que deve estrear este ano, é uma eletrizante trama de suspense que levanta questões fundamentais sobre memória, história, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano.

Os livros da selva

Muitos conheceram a história de Mowgli, o menino lobo, com o desenho da Disney lançado em 1967. Em 2016, a história baseada no clássico Os livros da selva, de Rudyard Kipling, ganha uma versão live-action protagonizada pelo jovem ator Neel Sethi e com vozes de Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyongo, Scarlett Johansson e Christopher Walken. O filme deve estrear no Brasil no dia 14 de abril. A nova edição da Penguin-Companhia de Os livros da selva está nas livrarias desde o final do ano passado.

Novembro de 63

Os próximos itens da lista são duas adaptações baseadas em histórias de Stephen King. Em Novembro de 63o professor Jake Epping corrigia as redações dos seus alunos do supletivo quando se depara com um texto brutal e fascinante, escrito pelo faxineiro Harry Dunning. Cinquenta anos atrás, Harry sobreviveu à noite em que seu pai massacrou toda a família com uma marreta. Jake fica em choque… mas um segredo ainda mais bizarro surge quando Al, dono da lanchonete da cidade, recruta Jake para assumir a missão que se tornou sua obsessão: deter o assassinato de John Kennedy. O livro virou a série 11.22.63, com James Franco como protagonista, e estreia no dia 15 de fevereiro na plataforma Hulu.

Celular

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E se uma simples ligação de celular fosse capaz de transformar todos os seus usuários em assassinos impiedosos? Clay Riddell finalmente consegue vender um de seus livros de histórias em quadrinhos quando as pessoas ao seu redor, que por acaso falavam ao celular naquele momento, enlouquecem. Fora de si, começam a atacar e matar quem passa pela frente. Apenas Clay e mais duas pessoas que estavam sem celular no momento escapam e tentam sobreviver à loucura que se instaura. Celular é o próximo livro de Stephen King a virar filme. Com previsão de estreia ainda neste ano, será estrelado por Samuel L. Jackson, John Cusak e Isabelle Fuhrman.

Os filhos da noite

Esta estreia vai acontecer apenas em 2017, mas achamos que você já pode se preparar para ler Os filhos da noite, livro de Dennis Lehane que está se transformando em roteiro do novo filme de Ben Affleck como diretor. O livro acompanha a vida de Joe Coughlin, filho mais novo de um proeminente capitão da polícia de Boston, no mundo do crime em plena Lei Seca. Dos pequenos delitos cometidos na infância, Joe agora desfruta com gosto de uma carreira no crime construída a soldo de um dos mais temidos mafiosos da cidade. Combinando uma história de amor e uma saga de vingança, Lehane traz à vida uma época em que o pecado era motivo de celebração e o vício era uma virtude nacional.

Ansioso para as estreias? Não deixe de ler as histórias que deram origem aos filmes e séries que vêm por aí.

 

Semana duzentos e setenta e três

 

Diários da Presidência 1995-1996 (Volume1), Fernando Henrique Cardoso
Os diários têm a franqueza das confissões deixadas à posteridade – como de fato era a intenção original do autor. Neles transparecem as hesitações do cotidiano, os julgamentos duros de amigos próximos, os pontos de vista que mudam com os fatos, as afinidades que se criam e as que arrefecem. Para o leitor, são não só uma janela aberta para a intimidade do poder como uma ferramenta valiosa para a compreensão do Brasil contemporâneo. Os registros orais de FHC foram transcritos por Danielle Ardaillon, curadora do acervo da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso, revistos pelo autor e pela editora, e serão organizados em quatro volumes bianuais (1995-6; 1997-8; 1999-2000; 2001-2). Os dois primeiros anos compreendem quase noventa horas de gravação, decupadas a partir de 44 fitas cassete, que renderam mais de novecentas páginas.

Doutor Fausto, Thomas Mann (Tradução de Herbert Caro)
Último grande romance de Thomas Mann,Doutor Fausto foi publicado em 1947. O escritor fez uma releitura moderna da lenda de Fausto, na qual a Alemanha trava um pacto com o demônio – uma brilhante alegoria à ascensão do Terceiro Reich e à renúncia do país a sua própria humanidade. O protagonista é o compositor Adrian Leverkühn, um gênio isolado da cultura alemã, que cria uma música radicalmente nova e balança as estruturas da cena artística da época. Em troca de 24 anos de verve musical sem paralelo, ele entrega sua alma e a capacidade de amar as pessoas. Mann faz uma meditação profunda sobre a identidade alemã e as terríveis responsabilidades de um artista verdadeiro.

A morte em Veneza & Tonio Kröger, Thomas Mann (Tradução de Herbert Caro e Mario Luiz Frungillo)
A morte em Veneza (1912), aqui na tradução de Herbert Caro, é uma das novelas exemplares da moderna literatura ocidental. A história do escritor Gustav von Aschenbach, que viaja a Veneza para descansar e lá se vê hipnotizado pela beleza do jovem polonês Tadzio, mais tarde daria origem ao notável filme homônimo do diretor italiano Luchino Visconti, de 1971. O volume traz ainda Tonio Kröger, narrativa de 1903 que Thomas Mann declarava ser uma de suas favoritas. A novela tem diversos traços autobiográficos e está centrada na relação entre artista e sociedade, um tema muito caro à obra de ficção do escritor, sobretudo nos primeiros trabalhos. A nova tradução é de Mario Luiz Frungillo.

A vida dos elfos, Muriel Barbery (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Maria e Clara são jovens órfãs unidas por dons secretos. A chegada de Maria a uma granja na Borgonha traz prosperidade à terra, o que leva todos a acreditarem que a menina conversa com a natureza. Enquanto isso, Clara cresce numa aldeia perdida nos Abruzos, no sul da Itália, aprende italiano “na velocidade do milagre” e, depois de se revelar um prodígio no piano, é enviada a Roma para desenvolver sua veia musical. As duas garotas, cada uma à sua maneira, se comunicam com um mundo misterioso que garante à vida dos homens sua profundidade e beleza, mas ao mesmo tempo oferece uma ameaça grave contra nossa espécie. As sombras da guerra e do mal avançam, e só Maria e Clara poderão combatê-las, reinstaurando a paz. Mas elas ainda não compreendem os muitos enigmas que as envolvem. De onde vêm? O que as conecta?

Benjamin Franklin, Walter Isaacson (Tradução de Pedro Maia Soares)
Um dos chamados Pais Fundadores dos Estados Unidos, Benjamin Franklin está entre as figuras mais influentes de sua época, cujas descobertas científicas e ideias filosóficas e de negócios reverberam mundo afora. É também um homem de carne e osso que foi fundamental no desenvolvimento do que é hoje a nação mais poderosa do mundo. Nessas páginas, Walter Isaacson – autor do best-seller Steve Jobs: A biografia – narra a tumultuada trajetória desse escritor, cientista, inventor, diplomata e jornalista. Isaacson mostra como essa vida inacreditável ultrapassa o seu próprio tempo, e como a colaboração de Franklin em documentos como a Declaração de Independência Americana ajudou a moldar o mundo moderno.

Um crime na Holanda, Georges Simenon (Tradução de André Telles)
Quando um professor francês em visita a um pacato vilarejo da Holanda se vê acusado de assassinato, o comissário Maigret é enviado para investigar o caso.
A comunidade parece satisfeita em acusar um estrangeiro desconhecido, mas há pessoas do lugarejo que sabem muito mais do que aparentam: Beetje, a filha insatisfeita de um fazendeiro da região, Any van Elst, cunhada do falecido, e um notório vigarista local.
Nesta sétima jornada de Maigret – Simenon escreveu 75 livros com o personagem -, o carismático investigador francês aprende a duvidar de suas certezas.

Seguinte

Star Wars: A arma de um jedi, Jason Fry (Tradução de Álvaro Hattnher)
Nesta história, que se passa entre Uma nova esperança (episódio IV) e O Império contra-ataca (episódio V), Luke está no meio de uma tarefa para a Aliança Rebelde quando um chamado da Força o leva até Devaron, um planeta misterioso onde há muito tempo erguia-se um templo Jedi, agora reduzido a ruínas.
Luke decide se desviar temporariamente da missão e seguir aquele chamado, com a ajuda de um guia local corajoso o suficiente para ignorar as lendas que diziam que o lugar era mal-assombrado. Em meio aos escombros, Luke descobrirá que, mesmo sem um mestre, poderá continuar seu treinamento Jedi – isto é, caso consiga sobreviver à sua primeira batalha com um sabre de luz. Nesta série, você encontrará aventuras inéditas de seus personagens favoritos, além de algumas caras novas. Mas leia com atenção! Há pistas escondidas nas páginas dos livros, que dão dicas preciosas sobre o episódio VII, O despertar da Força!

Star Wars: Alvo em movimento, Jason Fry e Cecil Castellucci (Tradução de Érico Assis)
Nesta história, que se passa entre O Império contra-ataca (episódio V) e O retorno de Jedi(episódio VI), Leia descobre que o Império está construindo uma nova Estrela da Morte e, enquanto o alto-escalão da Aliança organiza um ataque, a princesa bola um plano para ajudar: atrair parte da frota imperial para outro setor da galáxia, distante de onde o verdadeiro ataque iria acontecer. Para isso, ela precisará passar por três planetas do setor Corva, recrutando líderes para uma reunião da causa rebelde. A primeira parada seria no planeta rochoso de Basteel, seguida pelo planeta aquático de Sesid e terminando nas terras rurais de Jaresh. Logo Leia chama a atenção do Império, conforme o planejado – mas talvez um Destróier Estelar e uma capitã implacável em sua cola sejam demais! Nesta série, você encontrará aventuras inéditas de seus personagens favoritos, além de algumas caras novas. Mas leia com atenção! Há pistas escondidas nas páginas dos livros, que dão dicas preciosas sobre o episódio VII, O despertar da Força!

Star Wars: A missão do contrabandista, Greg Rucka (Tradução de André Czarnobai)
Nesta história, que se passa entre Uma nova esperança (episódio IV) e O Império contra-ataca (episódio V), Han e Chewie precisam pilotar a Millennium Falcon numa missão ultrassecreta da Aliança Rebelde: resgatar o tenente Ematt, um oficial da Rebelião que está sozinho e desprotegido no venenoso planeta de Cyrkon.
A dupla viaja até lá e logo percebe que a missão será bem complicada, já que Han Solo está sendo procurado por todos os contrabandistas da galáxia, que querem levá-lo a Jabba para receber uma alta recompensa. Para piorar, a oficial do Império Alecia Beck também está no planeta procurando por Ematt. Agora, Han precisa encontrá-lo e fugir dali o quanto antes – para seu próprio bem. Nesta série, você encontrará aventuras inéditas de seus personagens favoritos, além de algumas caras novas. Mas leia com atenção! Há pistas escondidas nas páginas dos livros, que dão dicas preciosas sobre o episódio VII, O despertar da Força!

Claro Enigma

A Grécia Antiga passo a passo, de Éric Teyssier e Éric Dars (Tradução de Julia da Rosa Simões)
Grécia antiga passo a passo faz um passeio pela cultura grega em suas muitas facetas, desde as informações mais comuns até as descobertas científicas nos campos física, matemática e astrologia. E ainda traz curiosidades culturais como o repúdio à profissão de pescador, que “ousava” viver como os deuses, e o status dos piratas, que eram bem vistos pela sociedade. Com leveza e humor, o leitor entenderá que o legado dessa antiga civilização está muito mais próximo de nosso cotidiano do que conseguimos imaginar.

Fazendo coisas

Por André Conti


Esteve no Brasil o físico teórico e escritor Brian Greene. Ele veio falar no Fronteiras do Pensamento, onde apresentou a conferência “Em busca de uma teoria unificada”. Durante uma hora e meia, Greene tentou explicar o que ele faz como físico teórico, quer dizer, o que significa trabalhar concretamente, suar a camisa mesmo, na resolução das Grandes Perguntas: o que é o universo e o que há para além dele. Ele descreveu lindamente o funcionamento das coisas muito pequenas numa proporção assim: se um átomo tivesse o tamanho do universo inteiro, os fenômenos que ele estava mostrando teriam o tamanho de um lápis. Greene usou a imagem de um mar revolto para demonstrar esse mundo subatômico, com o movimento aleatório das ondas (em dez ou onze dimensões) sendo responsável pela existência de coisas diferentes: elétrons, prótons, eu e você. Alguém da plateia mandou um bilhete perguntando como é que se explicava a consciência humana em meio a tanta aleatoriedade. Ele respondeu que não era neurocientista e que entendia tanto de cérebros quanto nós; isso posto, caso o universo realmente funcione como ele imagina na menor escala possível, o provável é que a consciência seja apenas uma sensação decorrente do funcionamento desses fenômenos subatômicos. O que sentimos como a passagem do tempo, a força da gravidade, o estado da matéria e, sobretudo, a consciência de ser alguém, não passaria de um efeito colateral das engrenagens do universo.

Isso diz o sujeito que vive de forçar a própria consciência a abstrair o funcionamento do cosmos, para depois obrigar a mesma consciência a dar um sentido matemático àquilo tudo, ou seja, a usar uma segunda abstração, no caso as equações matemáticas, para tornar concreta a primeira abstração. Mas o barato é que ele faz isso no duro, como atividade do dia a dia: o processo deve ser precedido por acordar cedo, tomar banho, beber café, abrir a janela para ver se está frio.

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Mexi num computador pela primeira vez num museu de história natural, numa viagem com a família. O museu estava celebrando o Mês do Morcego, e uma das atrações era uma sala em que, usando os últimos recursos tecnológicos da época, tentava-se simular diversas habilidades dos morcegos. A ideia era mostrar que, mesmo comparados à tecnologia de ponta da época, os morcegos eram animais sofisticadíssimos, cujos sistemas de voo, detecção etc. ainda estavam à frente de nós. Na prática, eram totens de som que reproduziam as frequências captadas por morcegos, um pequeno biossonar que imitava o sistema de colisão dos morcegos, uma membrana peluda com textura horrenda que imitava a asa de um morcego. E havia também uns três computadores, todos travados no mesmo jogo de soletrar, em que você colocava à prova seus novos conhecimentos sobre morcegos. Foi uma experiência indescritível, o computador fazendo coisas. Você batia numa tecla e a letra aparecia no monitor, você completava a palavra e vinha um efeito dissolve e um morcego colorido. Ele tocava sons, mudava de tela, tinha um placar com a pontuação dos visitantes. Era melhor do que todo e qualquer morcego do planeta Terra.

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Ninguém inventou o computador. Para Walter Isaacson, biógrafo de Steve Jobs e que lança agora Os inovadores: uma biografia da revolução digital, a ideia de uma máquina que resolve problemas variados surgiu no século XIX e chegou a seu estado atual pela colaboração de centenas de pessoas ao longo das décadas. Isso não é dizer o óbvio: a tecnologia avança, cada inovação dá um passo além da anterior etc. A tese de Isaacson é que a própria natureza do computador é indissociável desse processo altamente colaborativo. O computador é uma máquina aberta e de possibilidades tão vastas porque cada inovador queria fazer coisas diferentes com ele, fosse solucionar um impasse técnico, criar um produto novo, humilhar rivais, distribuir fanzines. Ou ainda: a inovação tecnológica não nasce de um lampejo no vácuo, há sempre uma demanda que eventualmente é alcançada pela ciência de seu tempo; daí inúmeros inventos similares, criados por pessoas que não se conheciam, terem surgido nas mesmas épocas no mundo (pergunte a um italiano quem inventou o telefone, pergunte a um brasileiro quem inventou o avião).

Os personagens do livro são engenheiros, inventores excêntricos, homens de negócios, nerds solitários. Essas vidas são narradas num fôlego só, se entrelaçam, há brigas, disputas judiciais e lances dramáticos — para quem gosta do assunto, é um thriller sem assassinos, mas com placas de circuito, cabos, soldas e relés. De saída, as personalidades deles parecem diametralmente opostas a de cientistas como Brian Greene: enquanto uns criam modelos abstratos para entender as coisas, eles buscam modelos concretos para resolver as coisas. Todavia, empresas como a Bell Laboratories e a Texas Instruments investiram caminhões de dinheiro em pesquisa pura, em gente que se ocupava também de ter ideias sem aplicação concreta e imediata. Na verdade, são dois mundos que se alimentam: as pesquisas de Greene podem exigir novos aparelhos para serem provadas; quem banca esses aparelhos espera usar seus componentes e ideias em outros aparelhos, desta vez de uso comercial. Ou ainda: um avanço prático na computação feito por um eremita do Vale do Silício pode dar a Greene a ferramenta de que ele precisa para provar alguma ideia. Sem esse ecossistema de teóricos, investidores e engenheiros, ainda estaríamos inventando o ábaco.

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Saiu há duas semanas o disco novo do Shellac, banda maravilhosa de Chicago encabeçada pelo engenheiro de som Steve Albini. Ele foi produtor de centenas de discos, entre eles “In Utero”, do Nirvana e “Surfer Rosa”, dos Pixies, além de ter trabalhado com Breeders, The Jesus Lizard, Helmet, Dirty Three e outras tantas bandas sem as quais o universo estudado pelo Brian Greene seria mais silencioso e menos interessante. Como engenheiro, ele tem métodos rigorosos e intransigentes de trabalho, e costuma criar discos com pouquíssima interferência de produção, que tendem a soar como se a banda estivesse gravando ao vivo. Todavia, como esta carta espetacular que ele mandou aos integrantes do Nirvana quando queria produzir o “In Utero” mostra, ele é acima de tudo um técnico, ou seja, não se trata de impor seus gostos pessoais a um processo criativo que pertence aos artistas.

Mas ele também é músico, teve bandas fabulosas como Flour e Big Black, e mantém o Shellac desde 1992, embora os lançamentos e os shows sejam bissextos. O que importa é o seguinte: Shellac parece tudo menos uma banda de engenheiro, e decididamente não soa como os discos que ele produz. Para quem vive de trabalhar nas coisas que os outros fizeram (oi), é um respiro ouvir algo tão original partindo de alguém que, segundo suas próprias contas, produziu 1500 discos (“Alguns ótimos, alguns bons, alguns horríveis, a maioria ali no meio”). Sendo Editor com Vaidades Artísticas, ver que é possível fazer coisas suas com a mesma energia que trabalhamos nas coisas feitas pelos outros é animador.

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Randall Munroe era um jovem prodígio da NASA. Ele trabalhava no departamento de robótica, o que em termos de fazer coisas é mais do que eu posso imaginar. Munroe abandonou a NASA para se dedicar ao XKCD, uma tirinha de internet que o tornou uma das mais célebres personalidades da rede. O mesmo tipo de criatividade que movia os engenheiros da revolução digital não foi suficiente a ele: mais do que colocar robôs em Marte, ele queria colocar seus personagens de palitinhos no monitor das pessoas. Batendo o olho assim, me parece inconcebível, mas é quase óbvio — ser um entre as dezenas de cientistas que ajudaram o robô Curiosity a mexer um bracinho para a direita ou ser a única pessoa capaz de fazer isso aqui:

As tirinhas costumam tratar de ciência, computação etc., de modo que os fãs volta e meia mandavam perguntas ao Munroe (que outro ex-funcionário da NASA você conhece?). Como bons leitores do XKCD, eles queriam saber de que altura é preciso jogar um bife para que ele chegue no chão ao ponto. Ou se é possível saltar de um avião com um tanque de gás hélio e encher bexigas o suficiente para não morrer na queda (parece que sim). Ou em que ano o número de perfis de pessoas mortas no Facebook vai ultrapassar o de pessoas vivas. Ou ainda o que aconteceria se a Terra parasse de girar e a atmosfera mantivesse a velocidade. Para dar conta, ele criou o blog What If?, em que investiga essas hipóteses com rigor científico, bonecos de palitinhos e senso de humor de físico de partículas. Agora ele fez um livro baseado no blog, E se? Respostas científicas para perguntas absurdas, que o Érico Assis traduziu e que a Cia. publica no início de novembro. Acabou de sair lá fora e está, merecidamente, em todas as listas: é dos livros mais engraçados e maníacos que já passaram aqui na editora. É também uma proposta curiosa. Esse é o sujeito que seria capaz de fazer coisas realmente impactantes na linha de frente do conhecimento científico, mas ele se dedica a responder, com a mesma seriedade, às únicas hipóteses mais improváveis do que mandar um robô para Marte.

Durante os últimos meses, trabalhei nos dois livros com a Lucila, a Erika, a Marina e a Adriane (gratidão eterna). Foi bom editá-los em paralelo, você começa a ver ligações entre tudo, a achar que a pessoa calculando um salto impossível de um avião está tentando, por caminhos outros, o mesmo que o engenheiro que grava um disco ou o físico que olha uma parede igual a nossa e vê dez dimensões. Isso de fazer coisas. Um mundo de gente fazendo coisas para que os outros possam fazer mais coisas, o que for.

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André Conti é editor da Companhia das Letras.

Jô e Jobs

Por Luiz Schwarcz


(Fotos por Norman Seeff e Marcio Scavone)

Fazia muito tempo que a Companhia das Letras não tinha dois livros com vendagem tão rápida e significativa como aconteceu agora, com a biografia de Steve Jobs e o romance de Jô Soares, As esganadas. Na verdade, os últimos três anos foram aqueles em que, provavelmente, tivemos menos livros na lista de mais vendidos — curiosamente foram também os anos em que o faturamento da editora mais cresceu. Por sorte, dependemos mais do catálogo do que de livros de alta tiragem, mas quando eles surgem são mais que bem vindos.

Sinto que o leitor do blog muitas vezes divide os livros em categorias, às vezes torcendo o nariz para a literatura de entretenimento ou para outros gêneros menos frequentes na nossa lista editorial. Tenho puxado o assunto para tentar rever com os leitores, e até com muitos funcionários da editora, ideias arraigadas que acabam por hierarquizar livros injustamente.

Por isso, saudar livros de alta vendagem neste blog, como os do Jô e a biografia de Steve Jobs, que muito me orgulham no momento, acaba tendo certo conteúdo provocador. Cada livro tem sua história, sua proposta, e deve ser entendido a partir daí. A boa literatura de entretenimento é melhor que a má literatura cheia de pretensão.

Com provocação ou não, queria contar como esses dois livros nasceram, ao menos como foram os primeiros momentos em que nós, parteiros/editores, fomos chamados a participar de uma maneira ou de outra.

Soube do livro de Walter Isaacson por meio de nossa scout, Maria Campbell. Para os que não sabem, um scout é um profissional que busca informar as editoras para as quais trabalha sobre novos e promissores livros, antes que suas concorrentes o façam. Eles representam um elo cada vez mais importante num mundo que se tornou essencialmente concorrencial. Ao saber do livro, ainda confidencialmente, tentei encontrar-me com a agente durante meses, ameaçando inúmeras vezes viajar especialmente para esse fim; sempre sem sucesso. Apesar de termos sido os editores da biografia de Einstein — o livro de Isaacson que precedeu a biografia de Jobs e que chegou ao topo das listas no Brasil —, eu temia que o novo livro fosse a leilão, o que levaria o preço dos seus direitos às alturas.

Pois Maria Campbell agiu com presteza e, amiga da agente Amanda Urban, assegurou que a Companhia tivesse uma primeira conversa exclusiva, podendo ofertar com preferência. Por coincidência, estava em Nova York logo que os agentes tomaram a decisão de começar a discutir com os editores estrangeiros, e devo ter sido o primeiro a poder ofertar, depois dos meus colegas de língua inglesa.

Assim, num dia especialmente frio, em pleno inverno nova iorquino, fui à ICM, e saí de lá com os direitos comprados. A oferta foi alta, altíssima, mas acabamos pagando menos do que a maioria dos outros países, que compraram a obra três meses depois, em plena feira de Londres, num ambiente competitivo mais acirrado. O adiantamento já deve estar se pagando, no segundo mês de venda do livro, cuja edição também teve momentos emocionantes.

Sabendo do estado de saúde do biografado, combinei com Marta Garcia, a editora do livro na Companhia, que deveríamos trabalhar em tempo real com a edição americana — apesar de termos contra nós o difícil encargo da tradução. Marta conseguiu montar uma equipe ágil de tradutores e, dito e feito: começamos a receber o material em julho, e um mês antes da data prevista para a publicação do livro, com a triste notícia da morte de Jobs, a edição americana foi antecipada, e nós tivemos que correr para conseguir manter a simultaneidade.

O livro, que estava previsto para o dia 22 de novembro, teve que sair no dia 24 de outubro, dois dias depois da data prevista para o livro do Jô. Steve Jobs e As esganadas de Jô Soares, livros que de alguma forma traziam as mesmas inicias invertidas, acabaram indo para as livrarias na mesma semana. (Poucas semanas depois, um inédito de José Saramago, Claraboia, saía da gráfica. Estamos no mês dos Js e Ss!).

A história das Esganadas, como fiquei sabendo do livro  e o do que antecedeu o nascimento dele, conto na próxima semana. Isso se nenhum assunto extraordinário se apresentar. De qualquer forma até lá e: saudades, meus jovens!

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Semana setenta e seis

Os lançamentos da semana são:

Seu genoma por mil dólares, de Kevin Davies (Tradução de Ivo Korytowski)
Câncer, diabetes, mal de Alzheimer, esclerosa múltipla, problemas cardíacos diversos: algumas das doenças mais mortíferas podem estar com os dias contados. O vertiginoso desenvolvimento das técnicas de decodificação do DNA já permite que muitas pessoas conheçam sua predisposição a vários males evitáveis. Ao mesmo tempo, pesquisas farmacêuticas imbricadas com o progresso da genética têm originado medicamentos altamente específicos e eficientes, que tornam a cura dessas doenças algo real. Da bilionária decodificação do primeiro genoma humano até os atuais serviços de análise cromossômica por correspondência, Seu genoma por mil dólares discute as principais questões tecnológicas e culturais ocasionadas pela revolução genética.

Omeros, de Derek Walcott (Tradução de Paulo Vizioli)
Poeta mulato das Antilhas, prêmio Nobel de literatura de 1992, Derek Walcott escreveu um poema destinado a permanecer entre os mais belos e instigantes do século XX. Com um desenho circular, que enfeixa tanto o mundo atemporal dos heróis gregos como o dia a dia de uma aldeia de pescadores do Caribe, Omeros (grego moderno para Homero) é, antes de tudo, uma história viva do oceano, dos povos e idiomas que por ele ressoam. Das raízes mediterrâneas aos grandes autores da língua inglesa, passando pelo patois crioulo das Antilhas e os sons africanos que pulsam até hoje nas margens do Caribe, este é um canto universal, que funde de modo magnífico o encontro de raças, línguas e culturas que se deu nas praias americanas.

Steve Jobs, de Walter Isaacson (Tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann e Pedro Maia Soares)
A vida de Steve Jobs tem o fascínio dos grandes folhetins: entregue para adoção ao nascer, imerso na contracultura dos anos 70 – com direito à maconha, LSD, vegetarianismo radical e peregrinação à Índia em busca de iluminação – milionário aos 25 anos, expulso de sua própria empresa aos 30 anos, retorna triunfalmente 12 anos depois. Essa biografia escrita a seu pedido, no momento em que lutava contra o câncer, é mais um exemplo dos paradoxos de Steve Jobs, conhecido por sua obsessão pelo controle de tudo: ele deixou claro que em nenhum momento interferiria em sua execução, nem exigiria ler o manuscrito antes da publicação. Como resume o próprio autor, “este é um livro sobre a vida de altos e baixos e a personalidade intensa e abrasadora de um empreendedor criativo, cuja paixão pela perfeição e cujo ímpeto feroz revolucionaram 6 indústrias: computadores pessoais, filmes de animação, música, telefones, tablets e publicação digital. É uma história tão instrutiva quanto admonitória, cheia de lições sobre inovação, caráter, liderança e valores”.

Travessias difíceis, de Simon Schama (Tradução de Denise Bottmann)
A travessia do oceano Atlântico nos porões dos navios negreiros foi uma das mais sombrias experiências de migração na história humana. Neste livro, Simon Schama trata da luta dos abolicionistas para encerrar o infame tráfico negreiro transatlântico e de suas relações com a história da colonização de Serra Leoa — a terra prometida dos ex-cativos, onde não havia escravidão. Articulando episódios fundadores do movimento antiescravista inglês ao papel desempenhado pela escravidão negra na Guerra de Independência dos EUA, Schama oferece uma envolvente narrativa sobre a luta dos africanos e de seus descendentes pela liberdade nos dois lados do Atlântico.

As esganadas, de Jô Soares
Rio, 1938. Um perigoso assassino está à solta nas ruas. Seu alvo: mulheres jovens, bonitas e… gordas. Sua arma: irresistíveis doces portugueses. Com requintes de crueldade gastronômica, ele mata sem piedade suas vítimas, e depois expõe seus cadáveres acintosamente, escarnecendo das autoridades. Com o hilariante e engenhoso As esganadas, Jô Soares está de volta ao seu gênero de predileção: o romance histórico policial. Veja um vídeo com Jô lendo um trecho do livro.

Antônio Vieira, jesuíta do rei, de Ronaldo Vainfas
Educado no colégio jesuítico de Salvador, fluente em tupi ainda na juventude e testemunha da invasão holandesa da Bahia, na maturidade Vieira foi um missionário incansável entre as tribos bravias do Maranhã e do Pará; já septuagenário, após uma longa temporada na Europa, recolheu-se a uma modesta casa religiosa na capital baiana, onde organizou a maior parte de seus escritos para publicação. Tais fatos já seriam mais que suficientes, segundo o historiador Ronaldo Vainfas, para justificar a inclusão de Vieira na coleção Perfis Brasileiros. Contudo, mesmo quando ausente do Brasil, o religioso exerceu vasta influência sobre os destinos da principal colônia portuguesa. Antônio Vieira, jesuíta do rei oferece um abrangente panorama biográfico dessa figura capital da literatura e da história da lusofonia.

Essencial Padre Antônio Vieira (Organização e introdução de Alfredo Bosi)
Embora o mundo monárquico, escravista e radicalmente dogmático de Vieira já tenha há muito desaparecido, sua extensa obra continua a iluminar a história e a literatura da lusofonia. Jesuíta, político e pregador, confessor de reis e profeta do Quinto Império, autor de centenas de sermões e de uma riquíssima correspondência, Vieira foi um homem de múltiplos interesses, unificados por sua fé inquebrantável e pela crença nos altos destinos de Portugal. Essencial Padre Antônio Vieira é uma generosa amostra de sua eloquente produção literária, incluindo alguns de seus melhores sermões, cartas e textos proféticos, além de uma esclarecedora introdução de Alfredo Bosi, membro da Academia Brasileira de Letras, e de excertos de A chave dos profetas.

A paixão de A., de Alessandro Baricco (Tradução de Roberta Barni)
Turim, anos 1970. Quatro adolescentes de 16, 17 anos, levam uma vida de classe média, pacata e sem sobressaltos. Todos são católicos, tocam numa banda de paróquia e fazem trabalho voluntário em um hospital da cidade. É quando aparece Andre, jovem rica, fascinante, desinibida, que reduz a pó a estabilidade do grupo de amigos. Seduzidos pela beleza da garota e pelo mundo completamente diferente no qual ela se move, os quatro amigos aos poucos vão se abrindo para experiências antes impensáveis, o que colocará em xeque suas convicções mais arraigadas, a começar pela fé. Tudo se precipita de modo muito veloz e, a partir de certo ponto, cada um deles seguirá seu rumo — um caminho necessariamente solitário e doloroso, mas também cheio de prazer.

E o cérebro criou o homem, de António R. Damásio (Tradução de Laura Motta)
O que é a consciência? Onde ela fica? Como se desenvolveu ao longo do processo evolutivo e que vantagens traz à sobrevivência? A ciência vem avançando na busca por essas respostas, que este livro apresenta numa discussão rica e instigante. Mas que não se espere uma resposta final. “A tarefa de compreender como o cérebro produz a mente consciente continua incompleta. O mistério da consciência ainda é mistério, apesar de termos conseguido penetrar um pouquinho em seus segredos”, diz o autor. Uma coisa é certa: sem a consciência em seu desenvolvimento máximo, a humana, não haveria ciência nem arte. E não haveria a possibilidade de buscar desvendar essa consciência. Neurocientista português radicado nos EUA, Damásio é um dos pensadores mais influentes do mundo no que diz respeito à investigação da mente.

Budapeste, de Chico Buarque
Nova edição do terceiro romance de Chico Buarque, que ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de 2003. José Costa é um ghostwriter: ele escreve anonimamente, por encomenda, monografias escolares, cartas de amor, autobiografias romanceadas e até best-sellers involuntários. A versátil picaretagem mistura-se, na trama, com o seu enfeitiçamento pela língua húngara, após uma escala forçada de seu avião em Budapeste. A língua ininteligível invade-lhe os sonhos e o toma como uma idéia fixa, levando-o a criar uma tresloucada vida paralela em Budapeste. Casado aqui com uma apresentadora de telejornais, envolve-se lá com uma professora de húngaro. O que o leva, na verdade, a se afundar num estranhamento permanente, entre duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas…

A casa dos náufragos, de Guillermo Rosales (Tradução de Eduardo Brandão)
Internado pela família em uma instituição psiquiátrica em Miami, o escritor William Figueras, um cubano exilado, mergulha em um processo de desumanização gradual, apenas adiado pelo amor por uma mulher e o sonho de voltar a escrever. Massacrado pela doença mental e emparedado entre o ressentimento por Cuba e a marginalidade a que é relegado na “América livre”, Figueras naufraga sem esperança de encontrar, seja no passado ou no presente, um porto seguro. Escrito em evidente paralelismo com a experiência vivida no exílio pelo jornalista e escritor cubano Guillermo Rosales, este romance é considerado um marco da literatura hispano-americana do século XX.

Lulu: um livro sobre ser pequenininho, de Camilla Reid (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz; Ilustrações de Ailie Busby)
A Lulu tem um gato chamado Aroldo e uma coelha muito bonitinha, a Coelhalda. Vai com a mãe ao supermercado, depois ao parquinho e faz bagunça em casa com seus dois melhores amigos, a Bia e o Teo. Espiando embaixo das abas, as crianças são apresentadas aos pais da Lulu, à sua casa e a seus brinquedos favoritos. Acompanham um dia na vida da personagem, a ajudam a encontrar a Coelhalda, a contar as pombas, e adivinham qual é a janela do quarto da menininha, entre outras brincadeiras. Com linguagem atenta ao universo das crianças pequenas, as histórias da Lulu são sucesso entre o público de um a quatro anos.

Fotografando Verger, de Angela Lühning (Ilustrações de Maria Eugênia)
Pierre Verger nasceu em Paris, em 1902, em uma família com boa situação social e econômica. Contudo, a vida confortável e os costumes da sociedade europeia de seu tempo não lhe satisfaziam. Aos 30 anos, aprendeu a fotografar com um de seus amigos artistas, e fez desse o seu principal ofício. Por meio da fotografia, despediu-se de forma definitiva do mundo que lhe era familiar, e partiu em busca de novas experiências, viajando por quase todo o planeta. Nessas viagens, Verger procurava captar a identidade de cada lugar visitado, registrando em suas fotos sobretudo pessoas, em situações cotidianas e da maneira mais espontânea: em seus afazeres domésticos, no trabalho, nas horas de lazer. Na década de 1940, Pierre chegou a Salvador, cidade que desejava conhecer desde que lera Jubiabá, de Jorge Amado, ainda na França. E foi na capital baiana que ele se estabeleceu até o fim de sua vida, dedicando-se às imagens e aos estudos da cultura africana. Em 1988, na casa onde morava, criou uma fundação destinada a preservar e divulgar sua obra, bem como destacar a importância das culturas africanas e afro-brasileiras.

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