will eisner

Semana trinta

Os lançamentos desta semana foram:

Telefone sem fio, de Ilan Brenman e Renato Moriconi
Uma borboleta que é um planeta? Acho que ouvi maçaneta… É uma caminhoneta. O quê, uma costeleta? Entendi, você quis dizer muleta. Quem é que estava na gaveta? Ah, uma luneta! Ela é violeta? Você ganhou uma gorjeta? Estão me deixando zureta!!
Quem já brincou de telefone sem fio, entendeu essa conversa de maluco. É disso que brincam também os personagens desse livro sem palavras. O que será que eles estão cochichando?

Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed (Tradução de Bernardo Ajzenberg)
Dez dias que abalaram o mundo é não só um testemunho vivo, narrado no calor dos acontecimentos, da Petrogrado nos dias da Revolução Russa de 1917, como também a obra que inaugura a grande reportagem no jornalismo moderno. A Universidade de Nova York elegeu este livro como um dos dez melhores trabalhos jornalísticos do século XX. Reed conviveu e conversou com os grandes líderes Lênin e Trotski, e acompanhou assembleias e manifestações de rua que marcariam a história da humanidade. Leia o post do editor Matinas Suzuki Jr. sobre este livro.

28 contos de John Cheever (Tradução de Jorio Dauster e Daniel Galera)
Reunião de contos de John Cheever — considerado um dos maiores contistas americanos do século XX e aquele que obteve o maior sucesso comercial com o gênero em todos os tempos — revela momentos de epifania e transcendênciano ambiente aparentemente anódino do subúrbio americano.

Ao coração da tempestade, de Will Eisner (Tradução de Augusto Pacheco Calil)
Nesta obra autobiográfica, um dos maiores gênios das histórias em quadrinhos apresenta um panorama do preconceito e da situação dos judeus na Europa e nos Estados Unidos, dos momentos que antecedem a Primeira Guerra Mundial ao início da Segunda, através da história de sua família.

Enquanto eles dormiam, de Donna Leon (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)
Em mais um volume da bem-sucedida série protagonizada por Guido Brunetti, o inspetor de polícia veneziano terá de enfrentar os interesses de uma obscura organização religiosa — protegida pelos poderosos da cidade —
para defender a frágil testemunha de uma possível rede de crimes.

Joana d’Arc e suas batalhas, de Phil Robins (Tradução de Marcelo Andreani; Ilustrações de Philip Reeve)
Joana d’Arc é praticamente sinônimo de fogueira, mas ela foi muito mais que isso. Liderou um exército, colocou um rei em seu trono e foi condenada à morte — tudo em apenas dezenove anos. Conheça mais sobre a aventura que foi a vida de Joana em mais uma biografia bem-humorada da coleção Mortos de Fama.

O ratinho se veste, de Jeff Smith (Tradução de Érico Assis)
O ratinho quer muito ir ao celeiro com a mãe e os irmãos. Mas, antes, precisa fazer um monte de coisas: colocar a cueca prestando atenção na etiqueta e no buraco para a cauda; vestir as calças, o que só dá para fazer sentado; acertar todos os botões da camisa… Será que ele vai conseguir ficar pronto a tempo?

[sem título]

Por Erico Assis



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O silêncio da splash page (2)

Por Erico Assis


Páginas de Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima.

[Leia a primeira parte do texto sobre splash pages]

Livros de arte. Aqueles livros de arte caros, grandões, capa dura, pesados, Taschen e cia. Em vários deles você encontra, da folha de guarda até a página introdutória, uma sequência de imagens sem legenda que funciona como sequência de introdução ao espetáculo que é o livro. Queiram os mais eruditos ou não, esta sequência é uma história em quadrinhos. De splash pages.

Um dos nomes mais celebrados do design de livros (de arte ou não) na última década, Chip Kidd, é fã confesso de HQ. Em Peanuts: the art of Charles M. Schulz, dedicado ao criador de Snoopy e Charlie Brown, ele deixou sete páginas de esboços, ilustrações ampliadas que estouram o ponto da impressão e reproduções de jornal até chegar à página dupla com o título do livro. Pode não haver sequência lógica entre as splashes, mas uma narrativa se constrói na mente do leitor. Já é quadrinho.

Assim como atribui-se muito da linguagem visual do cinema a Orson Welles e seu Cidadão Kane, costuma-se ver em Will Eisner a criação de várias técnicas narrativas nos quadrinhos. Foi possivelmente nas histórias do Spirit, na década de 1940, que surgiram as splashes. Toda história abria com uma imagem de página inteira; às vezes para situar a cena, às vezes somente para propor o clima da HQ. (Também ficou famoso o jeito de Eisner brincar com o título da história: “The Spirit” e o título apareciam sempre escritos como parte de prédios, em meio à névoa ou de alguma outra forma que estivesse integrada ao cenário.)

Jack Kirby ajudou a popularizar as splashes nos quadrinhos de super-herói — adorava desenhar grandes e elaboradas máquinas, que ficam mais majestosas em páginas inteiras. Mas foi Frank Miller que reinventou o uso da página inteira, misturando Eisner e Kirby e um terceiro elemento: mangá, a HQ japonesa. Ele percebeu em Lobo Solitário como o quadrinho americano era desnecessariamente verborrágico e preocupado em encher cada página de ação, quando uma imagem singular, e grande, podia ter impacto ainda maior. Tinha a ver também com o ritmo de produção do mangá: as histórias estendem-se literalmente por milhares de páginas, portanto não há receio de desperdiçar espaço.

Em seu primeiro trabalho autoral, Ronin, Miller extrapolou: na última edição, o leitor descobria uma página-pôster, que tinha que ser desdobrada para formar um quadro de, na prática, quatro páginas. Em Cavaleiro das Trevas, há várias imagens icônicas de Batman em splashes silenciosos. Mas Miller só conseguiu explorá-las — e talvez re-reinventá-las — em Sin City. Sua primeira história já abre com três splashes. O motivo: ele não tinha limitação de número de páginas.

No verbete sobre linguagem dos quadrinhos, a Wikipédia (em inglês) diz que uma HQ costuma ter no máximo duas splash pages. Menciona também exceções, como a edição da morte do Superman, na década de 90: toda composta por splash pages. A referência, porém, está restrita ao quadrinho tradicional, mainstream. Como aconteceu com Miller, outros quadrinistas só puderam explorar a splash page quando livraram-se das restrições comerciais de 22, 32, ou 48 páginas por edição. Uma graphic novel tem quantas páginas for necessário — como qualquer livro.

A splash que mais se prendeu à minha memória nos últimos anos de quadrinhos está em La guerre d’Alan, de Emmanuel Guibert. Guerre consiste nas memórias de Alan Cope, um militar norte-americano que serviu na Segunda Guerra Mundial e tem uma vida carregada de histórias. Nas três páginas de encerramento, Guibert reproduz algumas falas de Alan enquanto mostra seis cenas da pequena fazenda deste, vazia. O último quadro toma a página final: uma mesa, em frente à janela e a porta que dá para o pomar. Uma única linha de texto: “ok, é isso.” Sobre essa imagem e essa frase pesam as trezentas páginas anteriores da narrativa. É um último e prolongado suspiro.

Talvez a splash page só se compare a isto: os raros suspiros da nossa vida, real, que parecem fazer o tempo e o mundo pararem ao nosso redor.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.