william shakespeare

Semana trezentos e dezoito

Companhia das Letras

Rio acima, de Pedro Cesarino
Um antropólogo desembarca na Amazônia para estudar os mitos de um povo indígena e a misteriosa história do “apanhador de pássaros”. Aos poucos, o pesquisador vai se aproximando da descoberta — mas ela pode ter consequências desastrosas. Narrado com precisão e agilidade, Rio acima é um misto de Nove noites, o romance de Bernardo Carvalho em que um pesquisador mergulha na vida dos índios do Xingu, e de Coração das trevas, o clássico de Joseph Conrad em que o lento avançar por um rio selvagem revela um universo sombrio. Pedro Cesarino é um dos pesquisadores mais brilhantes de sua geração e mostra que é também um grande ficcionista, capaz de ombrear com os melhores da nova literatura brasileira.

Enclausurado, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)
O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

O voyeur, de Gay Talese (tradução de Pedro Maia Soares)
“Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em O voyeur. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo.

Como ser as duas coisas, de Ali Smith (tradução de Caetano W. Galindo)
Escritas com paixão, as obras de Ali Smith são únicas. Aclamadas, discutidas e premiadas, renderam um séquito de leitores à escocesa, sensação literária da contemporaneidade. Como ser as duas coisas não é diferente. Na Inglaterra, o livro vendeu 150 mil exemplares no primeiro ano — feito raro para um romance literário. A versatilidade da arte é o tema por trás das trajetórias de amor e injustiça que aqui se espelham dissolvendo gêneros, formas, tempos, realidades e ficções. Com técnica análoga à pintura de afrescos, Smith cria uma original história de duplos, protagonizada por um pintor renascentista dos anos 1460 e uma neta dos anos 1960.

Paraíso & inferno, de Jón Kalman Stefánsson (tradução de João Reis)
Numa parte remota da Islândia do século XIX, um pequeno barco de pesca é apanhado no meio de um violento temporal e a tragédia abate-se sobre os homens. Entre os tripulantes, um jovem pescador fica surpreso pela aparente indiferença dos companheiros à morte por hipotermia do seu único amigo. Desiludido e confuso ao retornar, ele decide abandonar sua aldeia, arriscando atravessar a pé as montanhas em pleno inverno, com uma ideia fixa: chegar à cidade mais próxima para devolver o livro Paraíso perdido, de John Milton, a um velho capitão cego, que o emprestara a seu amigo. Uma história vívida e lírica, com a intensidade da paisagem natural islandesa.

Penguin-Companhia

Romeu e Julieta, de William Shakespeare (tradução de José Francisco Botelho)
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.

Objetiva

Verissimas, de Luis Fernando Verissimo
Antologia reúne, em pílulas de sabedoria e humor, o suprassumo da obra do escritor e cronista, que completa 80 anos. O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes — ou Verissimas — em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Como ter um dia ideal, de Caroline Webb (tradução de André Fontenelle)
Através de técnicas simples baseadas em pesquisas científicas de economia, psicologia e neurociência, Caroline Webb ajuda você a melhorar seu dia a dia. Em Como ter um dia ideal, Caroline Webb mostra que é possível usar as recentes descobertas da economia comportamental, da psicologia e da neurociência para transformar nossa relação com o cotidiano profissional. Avanços nessas ciências nos oferecem um melhor entendimento de como nosso cérebro funciona, por que fazemos as escolhas que fazemos e o que é necessário para conseguirmos dar o melhor de nós. Webb explica como aplicar essas descobertas em nossas tarefas e rotinas diárias e, assim, lidar melhor com os desafios do ambiente de trabalho moderno — dos conflitos com colegas a reuniões tediosas e caixas de entrada lotadas — com destreza e facilidade.

Reimpressões

Alta fidelidade, de Nick Hornby
Brasil: Uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa Starling
Budapeste, de Chico Buarque
Marighella, de Mário Magalhães
Mulheres de cinzas, de Mia Couto
O anjo pornográfico, de Ruy Castro
A corrida para o século XXI, de Nicolau Sevcenko
Pippi nos mares do sul, de Astrid Lindgren
O mundo assombrado pelos demônios (Edição de bolso), de Carl Sagan
Obra completa (Edição de bolso), de Murilo Rubião
Rumo à estação Finlândia (Edição de bolso), de Edmund Wilson
Anticâncer, de David Servan-Schreiber
Fora da curva, de Pierre Moreau

A maldição de Mercúcio

Por José Francisco Botelho

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Minha iniciação ao universo shakespeariano ocorreu em um rancho profundo em Hulha Negra, no interior do Rio Grande do Sul, em certo entardecer de outono; enquanto a ventania fazia estremecer as venezianas verdes do quarto, Macbeth murmurava em uma charneca escocesa: Dia tão belo e tão feio eu nunca vi. À medida que a leitura avançava e o sol decaía, fui invadido por um misto de estranheza e entusiasmo, que apenas anos mais tarde pude elaborar, nomear e descrever: a sensação de que as criaturas vivas nas páginas eram metafisicamente mais reais que eu, meu quarto, o crepúsculo outonal e o vento que desgrenhava os campos lá fora. O tempo passou, mas o sortilégio não se dissolveu; pelo contrário, expandiu-se. Ainda hoje, basta abrir um tomo de Shakespeare e ler algumas linhas para sentir que minha própria existência mergulha em um torpor fantasmagórico, enquanto as sucessões de prosa e verso redirecionam o fluxo da realidade: as imaginações do poeta são tão poderosas que fazem com que eu me sinta vago, abstrato, inverossímil. É meramente natural, portanto, que os personagens do Bardo também nos pareçam mais reais que seu inventor. “Fala-se sobre o grande coração de Beethoven, mas quem poderia falar sobre o grande coração de Shakespeare?”, protestou Wittgenstein em uma página de diário, em 1950. De fato, pouco ou nada sabemos sobre o coração de Shakespeare; e esse nada é o bastante. Conhecemos Macbeth, Hamlet, Otelo, mas o homem que os criou permanece uma imagem apenas vagamente acessível; a ausência do Criador na Criação é o que lhe garante, por contraste, uma eterna presença entre nós. Eis aí um paradoxo que nenhum amante da literatura desejará resolver.

Antes de criar o Rei da Escócia, o Príncipe da Dinamarca e o Mouro de Veneza, Shakespeare havia inventado Mercúcio. O mais fascinante dos coadjuvantes surgiu nas páginas de Romeu e Julieta, peça escrita por volta de 1595 (e recentemente traduzida por mim). A história, todos a conhecem — afinal de contas, essa foi e continua sendo a mais popular de todas as peças do Bardo. Em algum momento no outono da Idade Média, os clãs de Capuleto e de Montéquio se digladiam pelas ruas da “bela Verona”, enquanto dois jovens e desditosos amantes tentam eludir o conflito familiar e as manhas do destino — inutilmente, é claro, pois esta história tem um desfecho necessariamente catastrófico. Melhor amigo de Romeu, Mercúcio é o responsável pela toada cômica que embala boa parte dessa tragédia. Seu humor é cínico, carnudo, hormonal; e às vezes sombrio, ominoso, onírico. Às elucubrações maneiristas de Romeu e aos sublimes, quase terríveis discursos eróticos de Julieta, Mercúcio contrapõe algumas das mais convincentes tiradas antirromânticas da literatura. Quando vê seu dileto amigo afundado nos suplícios de Eros, Mercúcio trata de curá-lo com saraivadas de trocadilhos e obscenidades, para então disparar: Ora, ora! Vais me dizer agora que esta ronda de escárnios não é melhor do que andar choramingando por amor? … Pois esse amor babão é como um grande palerma que corre para cima e para baixo, com a língua de fora — um rei dos bobos tentando tolamente enfiar o cetro em algum buraco.

Mas Mercúcio não seria Mercúcio se Shakespeare não houvesse lhe dado uma morte memorável. Embora não seja Montéquio nem Capuleto, ele acaba envolvido na luta entre as duas famílias — e recebe um golpe fatal pelas mãos de Teobaldo, inimigo de Romeu. Apalpando a ferida, Mercúcio percebe que vai morrer pela briga dos outros; e, compreendendo que seu destino era ser coadjuvante em drama alheio, lança estas que talvez sejam as mais veementes palavras finais da literatura: Malditas sejam vossas duas casas! A maldição há de cumprir-se: até o fim da peça, ambas as famílias serão dizimadas por sua própria intransigência.

A praga de Mercúcio representa uma epifania recorrente na acidentada história da prudência humana: o momento em que, no calor de um conflito ou no estrépito de uma discussão, advém um súbito clarão de ceticismo, revelando que todos os lados estão igualmente errados, ou que são identicamente daninhos. À alma solitária e raivosamente lúcida, resta apenas praguejar contra Montéquios e Capuletos. “Malditas sejam vossas duas casas!” — quantas vezes, em nossa vida, não nos seria útil recorrer à maldição de Mercúcio? É pena que, no mais das vezes, esse píncaro de clarividência só se alcance quando já é tarde demais: lançada a imprecação imortal, o grande coração de Mercúcio logo se calou, para sempre, em alguma rua anônima da bela Verona.

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Para a Penguin-Companhia, traduziu Contos da Cantuária (2013) e Drácula (2014). Sua tradução de Romeu e Julieta será lançada em setembro. É autor da coletânea de contos A árvore que falava aramaico (Zouk, 2011).

De como Cervantes e Shakespeare escreveram o manual de literatura moderna

Por Salman Rushdie

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Texto originalmente publicado na NewStatesman. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro. 

Ao celebrarmos o quadricentésimo aniversário das mortes de William Shakespeare e Miguel de Cervantes Saavedra, talvez valha observar que, embora seja geralmente aceito que esses dois gigantes morreram na mesma data, a 23 de abril de 1616, isso não aconteceu de fato no mesmo dia. Em 1616, a Espanha passara a usar o calendário gregoriano, enquanto a Inglaterra continuava com o juliano, portanto, onze dias atrás. (A Inglaterra ainda se aferraria ao antigo sistema juliano de datação até 1752, e quando finalmente se deu a troca, houve levantes e, conta-se, turbas gritando “Devolvam nossos onze dias!” nas ruas.) É de supor que a coincidência das datas e a diferença dos calendários teria encantado as sensibilidades eruditas e lúdicas de ambos os pais da moderna literatura.

Desconhecemos se chegaram a tomar conhecimento da existência um do outro, mas tinham muito em comum, a começar bem ali, na zona do “desconhecimento”, visto os dois serem homens envoltos em mistério; há anos em que não se encontra registro algum deles e, ainda mais significativo, documentos desaparecidos. Nenhum deles nos legou material pessoal em quantidade suficiente. Quase nada em forma de cartas, diários de trabalho ou rascunhos rejeitados, apenas suas colossais obras completas. “O resto é silêncio.” Não surpreende, assim, que tenham se tornado presas para todo tipo de teorias energúmenas que buscam estabelecer sua autoria.

Uma busca rápida na internet, por exemplo, “revela” que Francis Bacon não só escreveu as obras de Shakespeare, como também o Dom Quixote. (Minha teoria louca favorita sobre Shakespeare é a de que suas peças não foram escritas por ele, mas por outra pessoa com o mesmo nome.) E, claro, Cervantes teve sua autoria contestada no decurso mesmo de sua vida, quando alguém com o pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda, de quem também não se sabe a verdadeira identidade, publicou uma falsa continuação do Dom Quixote, obrigando Cervantes a escrever o verdadeiro Livro II, cujos personagens têm ciência da existência do plagiador Avellaneda, desprezando-o absolutamente por isso.

É quase certo que Cervantes e Shakespeare jamais se encontraram, mas quanto mais se examina as páginas que os dois deixaram para trás, mais ecos de um no outro se ouve. O primeiro deles, e no que me diz respeito à ideia compartilhada mais preciosa, é a crença de que uma obra literária não tem que ser particularmente cômica, trágica, romântica ou política, mas sim que, se concebida apropriadamente, ser todas essas coisas ao mesmo tempo.

Basta ver as cenas de abertura de Hamlet. A cena 1 do ato 1 é uma história de fantasmas. “E então, isso tudo é só mera fantasia?”, pergunta Bernardo a Horácio, e é claro que a peça é muito mais que aquilo. A cena 2 do ato 1 insere a intriga na corte de Elsinore: o príncipe erudito e furioso, sua mãe recém-viúva prometida em casamento ao tio (“Ó pressa ignóbil, se jogar/Com tanta rapidez no leito incestuoso!”). Ato 1, cena 3, e eis Ofélia, contando ao dúbio pai, Polônio, o começo do que irá ser uma triste história de amor: “Senhor, ele tem feito ultimamente ofertas/Mostrando sua afeição por mim.” Ato 1, cena 4, voltamos à história de fantasmas e “há algo de podre no Estado da Dinamarca”.

À medida que a peça avança, ela vai se metamorfoseando, tornando-se, alternadamente, uma história de suicídio, de assassinato, de conspiração política e de uma trágica vingança. Tem seus momentos cômicos e uma peça dentro da peça. Contém ainda exemplos da mais elevada poesia jamais escrita em inglês, terminando em melodramáticas poças de sangue.

Foi a isso que chegamos após a herança do Bardo: ao conhecimento de que uma obra pode ser tudo a um só tempo. A tradição francesa, mais rígida, separa tragédia (Racine) e comédia (Molière). Shakespeare mistura tudo, e assim, graças a ele, nós também.

Em célebre ensaio, Milan Kundera sugere uma dupla paternidade para a forma romance: a Clarissa, de Samuel Richardson, e o Tristram Shandy, de Laurence Sterne; entretanto, essas duas volumosas e enciclopédicas obras de ficção revelam a influência de Cervantes. O tio Toby e o cabo Trim de Sterne são abertamente moldados no Sancho Pança do Quixote, e o realismo de Richardson é enormemente tributário do desmascaramento empreendido por Cervantes da tola tradição literária medieval cujas ilusões mantêm Dom Quixote agrilhoado. Na obra-prima de Cervantes, à semelhança do que ocorre na obra de Shakespeare, baixezas coexistem com nobreza, pathos e emoção com obscenidades e escabrosidades, culminando no momento infinitamente emotivo em que o mundo real se impõe e o Cavaleiro da Triste Figura reconhece que tem sido um tolo, um velho louco, “pois águas passadas não movem moinhos”.

São dois escritores conscientes do que fazem, modernos de um jeito que a maioria dos mestres modernos reconheceria; um, criando peças de teatro que são altamente conscientes de sua teatralidade, de estarem sendo encenadas; o outro, criando uma ficção que é agudamente consciente de sua natureza ficcional, ao ponto mesmo de inventar um narrador imaginário, Cide Hamete Benengeli — um narrador, curiosamente, com antepassados árabes.

E os dois têm também a mesma consideração, uma adesão, de fato, pelos marginais como pelos ideais elevados; a sua galeria de patifes, prostitutas, punguistas e bêbados sentir-se-iam em casa nas tavernas um do outro. É esse aspecto terreno que revela serem os dois realistas no maior sentido, mesmo quando estão posando de fantasistas, e dessa forma, uma vez mais, nós, os que viemos depois, podemos aprender a partir deles que a magia não tem sentido senão quando a serviço do realismo — terá havido algum mágico mais realista que Próspero? — e que o realismo pode se beneficiar de uma dose saudável do fabulista. Por fim, a despeito de ambos empregarem tropos originários de contos populares, do mito e da fábula, eles se recusam a moralizar, e é aí, acima de tudo, que são mais modernos que os muitos que se seguiram a eles. Eles não nos dizem o que pensar ou o que sentir, mas nos mostram como fazê-lo.

Dos dois, é Cervantes o homem de ação, lutando em batalhas, sendo gravemente ferido, perdendo o uso de sua mão esquerda, sendo escravizado por corsários argelinos durante cinco anos até sua família conseguir levantar o dinheiro para pagar por seu resgate. A experiência de Shakespeare foi desprovida desse lances dramáticos; apesar disso, dos dois, ele parece ter sido o escritor com interesse maior na guerra e em seus soldados. Otelo, Macbeth, Lear são todas histórias de homens em guerra (guerra interior, por certo, mas também nos campos de batalha). Cervantes fez uso de suas dolorosas experiências, por exemplo, no conto do escravo, no Quixote, e em um par de peças teatrais, mas a batalha em que Dom Quixote se engaja é — para empregar termos modernos — absurda e existencial antes que “real”. Estranhamente, coube ao guerreiro espanhol escrever sobre a cômica futilidade de ir à guerra e criar a poderosa figura icônica do guerreiro como tolo (aqui logo vêm à mente o Heller de Ardil-22 ou o Vonnegut de Matadouro 5, somente para citar as mais recentes explorações do tema), enquanto a imaginação do poeta e dramaturgo inglês mergulhou de cabeça (como Tolstói e Mailer) na guerra.

Em suas diferenças, eles encarnam oposições extremamente contemporâneas, do mesmo modo que, em suas similaridades, eles concordam em muito do que ainda hoje é útil a seus herdeiros.

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Até o dia 25 de abril, o box de Dom Quixote, as peças de Shakespeare editadas pela Companhia das Letrinhas e a biografia Shakespeare: o mundo é um palco estão em promoção em nosso site.

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Salman Rushdie nasceu em Bombaim, na Índia, em 1947. Em 1968 formou-se em história no King’s College, em Cambridge. Depois de uma breve carreira como ator, passou a dedicar-se à literatura em 1971. Seu romance Os filhos da meia-noite ganhou o prestigioso Booker Prize (1981), o Booker of Bookers (1993) e o Best of the Booker (2008). Já Os versos satânicos (1988) valeu-lhe o Whitbread Prize e uma sentença de morte, promulgada pelo aiatolá Khomeini. Seu livro mais recente, Dois anos, oito meses e 28 noites, foi publicado no Brasil agora em abril.

Semana duzentos e sessenta e quatro

blog

A queda do céu, Davi Kopenawa e Bruce Albert (Tradução de Beatriz Perrone-Moisés)
A queda do céu foi escrito a partir de suas palavras contadas a um etnólogo com quem nutre uma longa amizade – foram mais de trinta anos de convivência entre os signatários e quarenta anos de contato entre Bruce Albert, o etnólogo-escritor, e o povo de Davi Kopenawa, o xamã-narrador. A vocação de xamã desde a primeira infância, fruto de um saber cosmológico adquirido graças ao uso de potentes alucinógenos, é o primeiro dos três pilares que estruturam este livro. O segundo é o relato do avanço dos brancos pela floresta e seu cortejo de epidemias, violência e destruição. Por fim, os autores trazem a odisseia do líder indígena para denunciar a destruição de seu povo. Recheada de visões xamânicas e meditações etnográficas sobre os brancos, esta obra não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a noção de progresso e desenvolvimento defendida por aqueles que os Yanomami – com intuição profética e precisão sociológica – chamam de “povo da mercadoria”.

A garota na teia de aranha – Millennium vol.4, David Lagercrantz (Tradução de Guilherme Braga e Fernanda Sarmatz Åkesson)
A genial e atormentada justiceira Lisbeth Salander está de volta. Mas por que Lisbeth, uma hacker fria e calculista que nunca dá um passo sem pesar as consequências, teria cometido um crime gravíssimo e ainda provocado de forma quase infantil um dos maiores especialistas em segurança dos Estados Unidos? Depois de finalmente se livrar da polícia sueca e de todas as acusações que pesavam sobre si, que motivo ela teria para se atirar em outro lamaceiro político? É o que se pergunta Mikael Blomkvist, principal repórter da explosiva revista Millennium, além de amigo e eventual amante de Lisbeth. Mas Blomkvist precisa lidar com seus próprios demônios: afundada numa crise sem precedentes, a revista foi comprada por um grupo que pretende modernizá-la. Nada mais repulsivo ao jornalista que prefere apurar e pesquisar suas histórias a ceder às demandas e ao ruído das redes sociais. Ainda assim, há tempos o repórter não emplaca um de seus furos, e por isso não hesita em sair no meio da madrugada para atender a um chamado que promete ser a grande história de sua carreira. Presos a uma teia de aranha mortífera, Lisbeth e Blomkvist terão mais uma vez que unir forças, agora contra uma perigosa conspiração internacional. Uma volta em grande estilo da dupla que mudou para sempre os romances de mistério e aventura.

Devagar e simples, André Lara Resende 
André Lara Resende herdou do pai, Otto, o dom da palavra, o prazer do convívio, a clareza de raciocínio e o foco no que importa. E aprimorou essas qualidades ao longo da vida. Este livro é um exemplo dessas virtudes. Os treze artigos aqui reunidos têm alguns eixos comuns, que não derivam apenas de um passageiro interesse do autor no momento em que os escreveu. Alguns são imprescindíveis para o debate público do momento no Brasil. Outros são muito relevantes para entender o atual debate no mundo e seu significado para o Brasil.

O caso de Saint-Fiacre, Georges Simenon (Tradução de Eduardo Brandão)
O caso Saint-Fiacre é o décimo terceiro livro protagonizado por Jules Maigret, em que, finalmente, conhecemos seu passado. Ele é filho do administrador de um castelo ao sul de Paris, para onde volta pela primeira vez desde o enterro do pai. O motivo? Um bilhete anônimo: um crime seria cometido no local durante a missa de finados. Antes do fim do sermão, a condessa de Saint-Fiacre morre subitamente. Sua família está falindo. O filho é um aproveitador. O secretário, seu amante e possível herdeiro. Os atuais administradores do castelo, oportunistas em potencial. O padre, um omisso.

Seguinte

Capitolina – O poder das garotas, Vários autores
A revista on-line Capitolina surgiu em 2014 como uma alternativa à mídia tradicional voltada para meninas adolescentes. Sua proposta é criar um conteúdo colaborativo, inclusivo e livre de preconceitos, abordando temas como relacionamentos, feminismo, cinema, moda, games, viagens e muito mais. Esta edição reúne os melhores textos publicados em um ano de revista, além de vários artigos inéditos, todos eles ilustrados. No total, são 41 jovens escritoras e 23 artistas talentosas. Para completar, há atividades interativas para que cada leitora ajude a construir o livro e dê a ele seu toque pessoal. As leitoras vão encontrar conselhos, dicas, reflexões, muito apoio e, principalmente, a sensação de que não estão sozinhas.

Os bons segredos, Sarah Dessen (Tradução de Cristian Clemente)
Sydney sempre se sentiu invisível, já que Peyton, seu irmão mais velho, era o foco da atenção da família. Até que ele causa um acidente por dirigir bêbado, deixando um garoto paralítico, e vai para a prisão. Sydney parece ser a única a responsabilizá-lo, ao contrário de seus pais, que enxergam o filho como vítima. Para fugir do clima insuportável em casa, certa tarde Sydney entra numa pizzaria ao acaso. Lá conhece Layla, filha do dono do restaurante, e a amizade entre as duas é instantânea. Logo Sydney se vê contando à garota segredos que ninguém mais sabe, e encontra entre a família dela um espaço onde todos a enxergam e a aceitam como é.

Penguin-Companhia

Hamlet, William Shakespeare (Tradução de Lawrence Flores Pereira)
Um jovem príncipe se reúne com o fantasma de seu pai, que alega que seu próprio irmão, agora casado com sua viúva, o assassinou. O príncipe cria um plano para testar a veracidade de tal acusação, forjando uma brutal loucura para traçar sua vingança. Mas sua aparente insanidade logo começa a causar estragos – para culpados e inocentes.

Piloto de guerra, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Mônica Cristina Corrêa)
Durante a Segunda Guerra Mundial, Saint-Exupéry serviu como piloto nas forças armadas francesas. Em 1940, foi designado para um sobrevoo da região de Arras, ao norte da França, numa missão de alto risco. Em parte relato dessa expedição, em parte indagação sobre o sentido da guerra – o conflito não é uma aventura, mas uma doença, afirma o narrador -, Piloto de guerra é um clássico a ser redescoberto por todas as gerações de leitores.

Companhia das Letrinhas

O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry (Tradução de Mônica Cristina Corrêa)
Nesta edição, depois de ler a história do piloto que encontra um menino de cachos dourados no deserto do Saara, o leitor é convidado a fazer um mergulho na vida do autor e nos detalhes e curiosidades que envolvem a obra, em um posfácio recheado de fotos inéditas e informações imprescindíveis.

Mônica é daltônica?, Mauricio de Souza
Nesta história, a primeira publicada na revista Mônica, em 1970, o Zé Luís – e não o Cebolinha, acredite se quiser -, inaugura a tradição dos planos mirabolantes para tentar acabar com as temidas coelhadas da dona da rua. E o Titi, o Cascão, o Cebolinha, junto com o líder do grupo, executam passo a passo o combinado, até que… Além de descobrir o fim da aventura, o leitor vai conhecer curiosidades sobre a turma e as ilustrações surpreendentes de Odilon Moraes, que reinterpreta um clássico de Mauricio de Sousa.

Semana trinta e sete

Os lançamentos desta semana são:

Meu tipo de garota, de Buddhadeva Bose (Tradução de Isa Mara Lando)
Obrigados a passar uma noite de inverno na sala de espera de uma estação, quatro homens matam o tempo contando histórias de amor que viveram ou testemunharam. Por meio dessas histórias, que podem ser lidas quase como contos autônomos, o escritor bengali Buddhadeva Bose revela de modo sutil as relações culturais, raciais e religiosas na Índia da primeira metade do século XX. Poucos autores conseguem entrelaçar de modo tão fluente e aparentemente espontâneo a observação das emoções humanas e a descrição da vida social.

Américo – O homem que deu seu nome ao continente, de Felipe Fernández-Armesto (Tradução de Luciano Vieira Machado)
Américo Vespúcio (1454-1512), protagonista dos descobrimentos dos séculos XV e XVI, é também um dos mais complexos e enigmáticos personagens dessa história. A despeito da magnitude de suas realizações como cosmógrafo e navegador — exagerada, segundo alguns, por um sagaz instinto de autopromoção —, os documentos de sua trajetória são surpreendentemente escassos. Com grande fluência literária e boas doses de humor, Américo explica como o domínio dos preceitos retóricos dos mestres da Antiguidade, um interesse profundo pela magia e um notável senso de oportunidade contribuíram para que Vespúcio superasse entre seus contemporâneos a fama do rival pioneiro, o genovês Cristóvão Colombo, e entrasse para a posteridade como o topônimo do Novo Mundo.

Em risco, de Patricia Cornwell (Tradução de Rafael Mantovani)
Neste romance policial, a genial criadora de Kay Scarpetta nos apresenta a um novo detetive, Win Garano. Ele é designado para reabrir e resolver casos arquivados usando novas tecnologias de investigação, e recebe a tarefa quase impossível de resolver um assassinato que ocorreu há vinte anos. A tarefa logo se revela mais difícil do que parece. Pistas falsas apontam para uma trama de interesses que envolvem bandidos e policiais. Com a ajuda da agente Sykes, uma de suas várias admiradoras, e amparado por visões premonitórias de uma avó cartomante, Garano precisa lidar com a delicada situação pessoal de sua chefe, que também parece conhecer e esconder fatos essenciais à investigação.

Dez mais histórias de fantasmas, de Michael Cox (Tradução de Ricardo Gouveia; Ilustrações de Michael Tickner)
Neste livro, há dez das melhores histórias de abantesmas e espectros, algumas engraçadas, outras tristes e muitas realmente assustadoras, como “O escritor-fantasma”, de Arthur Conan Doyle, e “O Horla”, de Guy de Maupassant. Entre cada narrativa, seções de fatos interessantes explicam, por exemplo, por que algumas pessoas acabam virando fantasmas e outras não; dão dicas de como caçar fantasmas; mostram a diferença entre gremlins e espíritos malignos; e apresentam detalhes sobre as fantasmagóricas reuniões conhecidas como sessões espíritas. Da mesma coleção de Dez mais horripilantes contos de fadas, Dez mais lendas do rei Artur e Dez mais histórias de terror.

Muito barulho por nada, Andrew Matthews (Tradução Érico Assis; Ilustrações de Tony Ross)
Nesta adaptação em prosa de uma das mais famosas comédias de Shakespeare, dois casais estão às voltas com as confusões em que seus corações lhes metem: Cláudio ama Hero mas desiste de se casar com a moça por acreditar, erroneamente, que ela é infiel; Benedito e Beatriz precisam ser vítimas de uma complicada tramoia para perceber que estão perdidamente apaixonados um pelo outro. Felizmente, no final tudo fica bem. Esta edição ainda inclui um prefácio de Ernani Ssó e dois posfácios: um sobre a origem da história e como Shakespeare se apropriou dela; e outro que trata das dúvidas em torno da identidade do grande dramaturgo inglês. Na mesma coleção, de adaptações juvenis das peças de Shakespeare, foi publicado Romeu e Julieta.

Gelo nos trópicos, de CárcamO
A dinâmica entre as crianças nem sempre é permeada de sentimentos fraternos. Brigas quase sempre fazem parte das brincadeiras, e a competição, então, nem se fala. Artista premiado, CárcamO conta, apenas com o traço, a história de um pinguim que boia em um pedaço de gelo e, contra a própria vontade, acaba chegando a uma ilha tropical, onde vivem um jacaré, uma capivara e uma anta. Competindo pela atenção do forasteiro e também pelo pedaço de gelo, os três companheiros acabam tendo uma lição sobre o valor da amizade.