wislawa szymborska

Semana trezentos e catorze

 

Companhia das Letras

Os fatos – A autobiografia de um romancista, de Philip Roth (tradução de Jorio Dauster)
Os fatos
é a incomum autobiografia de um romancista que remodelou a maneira como encaramos a ficção. Livro de irresistível candura e inventividade, é especialmente instrutivo em sua revelação sobre as conexões entre arte e vida. Philip Roth foca em cinco episódios de sua trajetória: a infância em Nova Jersey; a formação universitária; o envolvimento com a pessoa mais ríspida que conheceu; o embate com a comunidade judaica por conta de seu livro Adeus, Columbus; e a descoberta do lado adormecido de seu talento que o levou a escrever O complexo de Portnoy. Ao final, um ataque do próprio autor a suas habilidades como biógrafo encerra de forma surpreendente o novo livro de um dos principais escritores contemporâneos.

70 historinhas, de Carlos Drummond de Andrade
Lançado em 1978, 70 historinhas reúne a prosa já publicada por Drummond em outros livros. São crônicas e contos — ou “cronicontos” — em que a observação caminha junto com a fabulação, o humor roça cotovelos com o lirismo e a crítica aparece arejada pelo deboche. Treze das histórias deste livro têm crianças e adolescentes como personagens, sem que o autor se preste a infantilizá-las, pela paródia da linguagem ou pelo primarismo das ações. Pelo contrário, elas enfrentam, contestam e vencem, muitas vezes, os detentores da autoridade, com a inteligência e a argúcia a que recorrem para desafiar-lhes o poder. Mais um lance de gênio de um dos mais importantes autores brasileiros de todos os tempos.

Um amor feliz, Wislawa Szymborska (tradução de Regina Przybycien)
Quando, em 2011, a Companhia das Letras lançou Poemas, o primeiro volume com a lírica da poeta polonesa Wislawa Szymborska (Prêmio Nobel de literatura em 1996), começou uma verdadeira “febre Szymborska” no Brasil: ótimas vendas, esplêndidas resenhas e uma enorme repercussão garantiram um novo e amplo público para essa poesia que fala diretamente com o leitor. A obra de Szymborska equilibra-se entre o rigor e a observação dos fatos, sempre num tom levemente informal –- a despeito da cuidadosa construção dos versos. Falando de amores e da vida cotidiana, a escritora ergueu uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro.

Penguin-Companhia

Tratado da vida elegante – Ensaios sobre a moda e a mesa, de Honoré de Balzac (tradução de Rosa Freire D’Aguiar)
Antes de se dedicar ao projeto titânico de A Comedia Humana, monumento literário de noventa títulos e quase 2.500 personagens produzidos em pouco mais de vinte anos, Honoré de Balzac escreveu um sem-número de artigos em jornais e revistas, sobre política, filosofia, livros — e também boas maneiras, moda e culinária. Esta seleção de textos sobre a chamada “vida elegante” traz o olhar do escritor francês sobre temas como a moda, a cozinha, o uso de luvas e gravatas, além de observações sobre charutos e bebidas alcoólicas. Observações e prescrições — deliciosamente antiquadas e reveladoras da vida europeia do século XIX — a cargo de um dos maiores escritores de todos os tempos.

Objetiva

O princípio da caixa-preta, de Matthew Syed (tradução de Paulo Geiger)
Estudos de caso e entrevistas exclusivas mostram que a chave para o sucesso é uma atitude positiva em relação ao fracasso. Um dos fatores determinantes para o sucesso em qualquer área é o reconhecimento do fracasso. No entanto, a maioria das pessoas se relaciona negativamente com ele, e isso as impede de progredir e inovar, além de prejudicar suas carreiras e vidas pessoais. Raramente reconhecemos ou aprendemos com os erros — apesar de dizermos o contrário. Syed utiliza inúmeras fontes para explorar os padrões sutis do erro humano e nossas respostas defensivas a ele. O autor também compartilha histórias fascinantes de indivíduos e organizações que utilizam com sucesso o “princípio da caixa-preta”, como David Beckham, a equipe de Fórmula 1 da Mercedes e a empresa Dropbox.

A ilíada de Homero adaptada para jovens, de Frederico Loureço
Ao lado da Odisseia, a Ilíada de Homero constitui o berço da literatura ocidental. Apensar de ter sido criado por volta do século VII a.C., este poema épico que narra os eventos da célebre guerra entre gregos e troianos aborda temas atemporais, como o amor, a coragem, a traição. Nesta versão em prosa, pensada especialmente para os jovens, Frederico Lourenço, atentando para a fidelidade ao original, retoma as aventuras vividas por deuses e heróis.

Suma de letras

Minha melodia, de Camila Moreira
Você se apaixonou por Dereck em O amor não tem leis. Chegou a hora de conhecer sua história. Dereck chegou ao fundo do poço. Sem suportar a dor de perder um grande amor, ele se entrega ao sofrimento e mergulha no lado obscuro do rock; com sexo e drogas. Com a carreira em risco, o astro volta ao Brasil um ano depois do casamento de Maria Clara e Alexandre Ferraz, em uma última tentativa de retomar o sucesso e superar o passado. Ao chegar, Dereck reencontra a mulher que nunca esqueceu. A mulher que conheceu no momento mais difícil de sua vida e que conseguiu acalmar seu coração com um sorriso. “Reconheci em sua voz o mesmo sofrimento que o meu, mas também vi em seu olhar a vontade de seguir em frente.”. E não demora para que Dereck perceba que apenas ela poderá tirá-lo do abismo em que se encontra.

O problema dos três corpos, de Cixin Liu (tradução de Leonardo Alves)
Até onde você iria para entrar em contato com seres extraterrestres? China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena a beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Reimpressões

Fora de mim, de Martha Medeiros
Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami
Freud 10 – O caso Schreber e outros textos (1911-1913), de Sigmund Freud
Introdução à história da filosofia – Vol. I, de Marilena Chaui
Um copo de cólera, de Raduan Nassar
O que é isso, companheiro, de Fernando Gabeira
O poder do hábito, de Charles Duhigg
Rápido e devagar, de Daniel Kahneman
Sete breves lições de física, de Carlo Rovelli
Notas sobre Gaza, de Joe Sacco
A herdeira, de Kiera Cass
A maldição da pedra, de Cornelia Funke e Lionel Wigram
A seleção, de Kiera Cass
Coração de tinta, de Cornelia Funke
Mentirosos, de E. Lockhart
Morte de tinta, de Cornelia Funke

O poeta e o mundo

Por Wislawa Szymborska

wislawa

Foto: Sipa/ Newscom/ Fotoarena

Chega às livrarias no dia 2 de setembro Um amor feliz, uma nova coletânea de poemas de Wislawa Szymborska, traduzidos e selecionados por Regina Przybycien e que falam dos amores e da vida cotidiana, uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro livro de Szymborska lançado no Brasil em 2011, Poemas. Em 2016, comemoramos também os 20 anos do seu prêmio Nobel de Literatura. Na entrega do prêmio que aconteceu no dia 7 de dezembro de 1996, seu discurso versou sobre o que é a poesia e o poeta. É este discurso que apresentamos aqui no blog para quem já conhece a obra da poeta e para quem ainda vai se encantar com a sua leitura. Leia a seguir (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

* * *

Dizem que a primeira frase de qualquer discurso é sempre a mais difícil. Bem, agora ela já ficou para trás. Embora algo me diga que as frases por vir — a terceira, a sexta, a décima e assim sucessivamente, até a última linha — serão tão difíceis quanto, já que é suposto que eu tenha que falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto, quase nada, na verdade. E sempre que isso aconteceu, eu tinha a ligeira impressão de que não sabia do que falava. Por isso, meu discurso será bem curto. Toda imperfeição é mais fácil de tolerar se servida em pequenas doses.

Os poetas contemporâneos são sempre céticos e desconfiados, até mesmo, ou talvez especialmente, sobre si próprios. Eles só admitem ser poetas de modo relutante, como se estivessem um pouco envergonhados por o ser. Nesta nossa época ruidosa, porém, é bem mais fácil admitir seus defeitos, principalmente se numa roupagem interessante, que reconhecer os próprios méritos, visto estes estarem profundamente ocultos, tanto que nem nós mesmo acreditamos neles… Ao preencher formulários ou ao conversar com estranhos, isto é, quando não conseguem evitar de dizer no que trabalham, os poetas preferem utilizar o genérico “escritor”, ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer trabalho que tenham além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um misto de incredulidade e pânico ao descobrirem que estão frente a um poeta. Imagino que os filósofos se deparem com reações similares. Se bem que talvez estejam em uma situação melhor, dado que na maior parte do tempo podem dourar sua vocação com algum tipo de galardão acadêmico. Professor de filosofia — isso sim soa bem mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia, porque isso implicaria, afinal, que a poesia é uma ocupação que requer estudo especializado, avaliações frequentes, artigos teóricos acompanhados de bibliografia e notas de rodapé e, por fim, diplomas cerimoniosamente concedidos. O que, por sua vez, significaria que não basta preencher páginas mesmo com poemas dos mais requintados para se tornar um poeta. O elemento crucial seria alguma folha de papel trazendo um selo oficial qualquer. Lembremos que o orgulho da poesia russa, que viria ele mesmo a ser premiado com um Nobel, Joseph Brodsky, foi certa vez sentenciado a um exílio em seu próprio país com base exatamente nessas convenções. Chamaram-no de “parasita” por ele não dispor de um documento oficial que lhe assegurasse o direito de ser poeta…

Muitos anos atrás, tive a honra e o prazer de conhecer Brodsky pessoalmente. E notei que, de todos os poetas que eu já havia conhecido, ele era o único que gostava de se apresentar como um. Ele pronunciava a palavra sem constrangimento algum.

Na verdade, era exatamente o oposto, ele a pronunciava com liberdade desafiadora. Julguei que era assim por ele se lembrar sempre das humilhações brutais que havia sofrido em sua juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é roubada tão prontamente, os poetas aspiram, claro, ser publicados, lidos e compreendidos, mas não se esforçam muito, se é que se esforçam, para se situarem acima do rebanho e do cotidiano esmagador. E no entanto, não faz muito tempo, nas primeiras décadas do século passado, os poetas buscavam chocar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Embora fosse tudo meramente para consumo do público. Porque sempre chega o momento em que os poetas têm que cerrar as portas atrás de si, despir-se dos seus mantos, ornamentos e outras parafernálias poéticas para confrontar — silenciosamente, aguardando pacientemente seus verdadeiros eus — a ainda branca folha de papel. Porque é isso, no final, que conta de verdade.

Não é por acaso que se produzem aos montes biografias filmadas de grandes cientistas e artistas. Os diretores mais ambiciosos buscam reproduzir de modo convincente o processo criativo que levou a descobertas científicas importantes ou ao surgimento de uma obra-prima. E é possível descrever alguns tipos de trabalho científico com relativo sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, maquinário elaborado, trazidos à vida; esse tipo de cenário pode manter o interesse do público por algum tempo. E aqueles momentos de incerteza — será que o experimento, repetido pela milésima vez com algum tipo de variação microscópica, vai finalmente alcançar o resultado desejado? — podem ser bem dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, na medida em que buscam recriar cada passo da evolução de um quadro célebre, da primeira linha do esboço até a pincelada final. A música preenche todos os espaços em filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que ecoa nos ouvidos do músico finalmente emergem como um trabalho maduro em forma sinfônica. Claro que tudo isso é bem ingênuo e não explica o estranho estado mental conhecido popularmente como inspiração, mas pelo menos há ali algo para olhar e ouvir.

Poetas, no entanto, são os piores. O trabalho deles, indiscutivelmente, não tem como ser fotogênico. Alguém sentado a uma mesa ou deitado em um sofá, olhando imóvel para o teto ou uma parede. Vez ou outra essa pessoa escreve sete linhas apenas para riscar uma delas quinze minutos depois, e depois outra hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Eu falei de inspiração. Os poetas contemporâneos dão respostas evasivas quando perguntados sobre o que é isso, e se existe de fato. Não é que nunca tenham experimentado a graça desse impulso interior. É que não é fácil explicar a alguém algo que você próprio não entende.

Quando me perguntam sobre o assunto, eu também tergiverso. Mas respondo o seguinte: inspiração não é privilégio exclusivo de poetas ou artistas em geral. Existe, existiu e sempre vai existir certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. Esse grupo é composto de todos os que escolheram atender à sua vocação e fazer seu trabalho com amor e imaginação. E ele pode incluir médicos, professores, jardineiros — e eu poderia enumerar aqui centenas de outras profissões. O trabalho dessas pessoas se torna uma aventura contínua enquanto elas conseguirem continuar a descobrir novos desafios nele. Dificuldades e contratempos não sufocam sua curiosidade. Um enxame de novos questionamentos surge para cada novo problema que elas resolvem. Seja o que for a inspiração, o certo é que ela surge de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maior parte dos habitantes da Terra trabalha para viver. E trabalha porque têm que trabalhar. Eles não escolheram um ou outro trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas é que escolheram por eles. Trabalhos sem amor, trabalhos tediosos, trabalhos valorizados somente porque outros não conseguem sequer aquilo, por menos apreciados e tediosos — essa é uma das mais dolorosas misérias da condição humana. E não há nenhum sinal de que os séculos por vir produzirão qualquer mudança para melhor, até onde se pode vislumbrar.

E é por isso que, embora eu possa negar aos poetas seu monopólio sobre a inspiração, ainda assim eu os situo no seleto grupo dos prediletos da Fortuna.

A esta altura, porém, algumas dúvidas podem ser levantadas pelo meu público. Todo tipo de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que buscam o poder fazendo uso de alguns poucos bordões gritados a plenos pulmões também gostam do seu trabalho, e também desempenham seus afazeres com inventivo fervor. Sim, claro, mas eles “sabem”. Eles sabem, e seja lá o que saibam, é o que lhes basta para o agora e para todo o sempre. Eles não querem descobrir mais nada sobre nada mais, dado que isso pode diminuir a força de seus argumentos. E qualquer conhecimento que não levante novas questões morre rapidamente, porque não sucede em manter a temperatura necessária para preservar a vida. Nos mais extremos dos casos, aqueles bem conhecidos da história antiga e moderna, esse tipo de conhecimento se constitui de fato em uma ameaça letal à sociedade.

E é por isso que eu prezo tanto aquela pequena expressão, “não sei”. Ela é curta, mas tem asas enormes. Ela amplia nossas vidas para incluir nela nossos espaços interiores, mas também os exteriores, em que está suspensa a nossa pequena Terra. Se Isaac Newton não tivesse jamais dito para si um “não sei”, as maçãs em seu pequeno pomar poderiam ter caído ao solo como granizo, e na melhor das hipóteses ele teria parado para apanhar algumas delas e devorá-las com prazer. Se minha compatriota Marie Sklodowska-Curie jamais tivesse dito para si própria seu “não sei”, por certo ela acabaria lecionando química em alguma escola privada para moças de boas famílias, e terminaria seus dias desempenhando essa, de todo modo, perfeitamente respeitável profissão. Mas ela continuou dizendo “não sei” e estas palavras a levaram, não apenas uma, mas duas vezes, a Estocolmo, onde espíritos incansáveis e questionadores são de quando em quando premiados com o Nobel.

Os poetas, se autênticos, também devem seguir repetindo “não sei”. Cada poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas tão logo a linha final seja deitada à página, o poeta começa a hesitar, começa a perceber que essa resposta particular era puro disfarce, que seria totalmente inadequado trajar. Assim, os poetas seguem tentando, e cedo ou tarde os resultados consecutivos de seu desagrado consigo mesmos são organizados em uma pasta gigante por historiadores literários, passando a ser chamados sua “obra”…

Amiúde sonho com situações que não podem, de modo algum, se tornar realidade. Imagino audaciosamente, por exemplo, que me é dada a oportunidade de conversar com o Eclesiastes, o autor daquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Eu me curvaria profundamente diante dele, porque ele é, acima de tudo, um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Feito isto, eu tomaria sua mão. “‘Não há nada de novo sob o sol’, foi isso o que escrevestes, Eclesiastes. Mas vós mesmo nascestes novo sob o sol. E o poema que criastes também é novo sob o sol, considerando que aqueles que viveram antes de vós não puderam ler esse poema. E esse cipreste sob o qual estais sentado não esteve ali crescendo desde a aurora dos tempos. Ele veio a ser graças a um outro cipreste semelhante a esse vosso, mas não exatamente o mesmo. E, Eclesiastes, eu também gostaria de vos perguntar em que coisa nova sob o sol estais trabalhando agora? Um acréscimo de última hora aos pensamentos que já expressou? Ou talvez estejais tentado a contraditar alguns deles agora? Em uma obra anterior, mencionastes o êxtase — então, e daí se ele for fugaz? Talvez vosso novo-poema-sob-o-sol seja sobre o êxtase? Já fizestes anotações sobre ele, e rascunhos? Eu duvido que irás escrever ‘Eu já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar.’ Não há poeta no mundo que possa dizer isto, ao menos um grande poeta como vós.”

O mundo — não importa o que pensemos quando aterrorizados pela sua vastidão e nossa própria impotência, ou amargurados pela sua indiferença ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e, talvez, mesmo das plantas, porque como podemos estar tão certos que as plantas não sintam dor; pensemos o que possamos pensar de suas extensões, atingidas pelos raios das estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, alguns deles já mortos?, ainda mortos?, não sabemos; o que quer que possamos pensar desse imensurável teatro para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cuja validade é comicamente curta, limitada como o é por duas datas arbitrárias; não importa o que possamos pensar sobre este mundo — é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que embute uma armadilha lógica. Somos assombrados, afinal, por coisas que se desviam de alguma norma bem conhecida e universalmente aceita, de uma obviedade com a qual crescemos acostumados. O ponto agora é: esse mundo óbvio não existe. Nosso assombro existe por si só e não é baseado em comparação com outra coisa.

Claro, no discurso cotidiano, em que não paramos para considerar toda palavra dita, todos fazemos uso de frases como “o mundo normal”, “a vida normal”, “o curso normal dos eventos”… Mas na linguagem da poesia, em que toda palavra tem seu peso, nada é corriqueiro ou normal. Nem uma simples pedra e nem uma simples nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite que a ele se segue. E acima de tudo, nem uma única existência, nem a existência de qualquer pessoa nesse mundo.

Ao que parece, os poetas sempre terão um trabalho duro à frente.

Fonte: Nobel Prize.

Semana setenta e dois

Os lançamentos da semana são:

Livro do desassossego, de Fernando Pessoa (edição revista e ampliada)
O narrador principal das centenas de fragmentos que compõem este livro é o “semi-heterônimo” Bernardo Soares. Ajudante de guarda-livros em Lisboa, ele escreve sem encadeamento narrativo claro e sem uma noção de tempo definida. Os temas não deixam de ser adequados a um diário íntimo: a elucidação de estados psíquicos, a descrição das coisas através dos efeitos que elas exercem sobre a mente, reflexões sobre a paixão, a moral, o conhecimento. Nesta nova edição, o pesquisador Richard Zenith estabelece nova ordem, acrescenta trechos recentemente descobertos e descarta outros que só depois da digitalização do acervo do autor puderam ser corretamente compreendidos — a caligrafia difícil dava margem a inúmeros equívocos. Livro fundamental para a compreensão da extensa influência de Pessoa na criação da noção contemporânea de indivíduo, suas páginas revelam o gênio de um autor no seu auge.

Os cantos perdidos da Odisseia: um romance, de Zachary Mason (Tradução de Rubens Figueiredo)
Odisseu está sempre voltando a Ítaca, por mais que os deuses retardem seu regresso à terra natal. Aqui, porém, os acontecimentos escapam a seu controle, e o herói da Guerra de Troia já não se comporta como um guerreiro mítico. Este é um Odisseu de carne e osso, abandonado pelos deuses, que faz a corte a Helena, dá vida a um duplo de Aquiles, enfrenta a ira do ciclope Polifemo e o canto das sereias. E enfim retorna a Ítaca para reencontrar uma Penélope envelhecida e cansada de esperá-lo. Zachary Mason cria 44 cantos para uma história fundadora, reinventado-a a partir de episódios inusitados e explorando as possibilidades imaginativas da literatura.

Poemas, de Wisława Szymborska (Tradução de Regina Przybycien)
Este livro da maior poeta polonesa viva, ganhadora do Nobel e inédita no Brasil, inaugura, ao lado de Omeros, a reedição da coleção de poesia traduzida da Companhia das Letras, com novas capas e projeto gráfico. Aos 88 anos, Wisława Szymborska vive desde menina em Cracóvia, no sul da Polônia. O fato de ter permanecido a vida inteira no mesmo lugar diz muito sobre essa poeta conhecida por sua reserva e extrema timidez. Seus poemas, contudo, viajam pelo mundo. Não são tantos: sua obra inteira consiste em cerca de 250 poemas cuja função, como declarou a poeta no discurso de Oslo, é perguntar, buscar o sentido das coisas. Com sua poesia indagadora, Szymborska foi chamada “poeta filosófica”, ou “poeta da consciência do ser”. No Brasil, teve poemas esparsos publicados em jornais e revistas ao longo dos anos, mas esta edição, com seleção, introdução e tradução de Regina Przybycien, é a primeira oportunidade que tem o leitor brasileiro de lê-la em português. A coletânea de 44 poemas é uma belíssima apresentação à obra dessa importante poeta contemporânea.

Contos e lendas dos Jogos Olímpicos, de Gilles Massardier (Ilustrações de Nicolas Thers; Tradução de André Viana)
No fim do século XIX, o barão de Coubertin, um grande incentivador da prática de esportes nas escolas e admirador incondicional da Grécia, teve uma grande ideia: reviver os antigos Jogos Olímpicos. Assim, em 1986, foram realizadas as primeiras Olimpíadas da era moderna. Desde então, de quatro em quatro anos, homens e mulheres tentam romper os limites físicos da humanidade, de acordo com um dos lemas dos jogos: ser mais rápido, ir mais alto, impor mais força. Os contos deste livro trazem informações sobre a história dos jogos e dados biográficos de alguns atletas ainda pouco conhecidos, entremeados em narrativas de ficção. Alguns deles são cômicos; outros, emocionantes e outros ainda bastante inusitados. Em comum, falam de maneira variada sobre o universo dos esportes, para aqueles que não perdem uma boa história.

Cinco histórias de cinco continentes (Vários autores e ilustradores; Tradução de Heloisa Jahn)
Dizem que as histórias nos fazem viajar sem sair do lugar. Se elas falam de outras culturas, o passeio fica ainda mais interessante. Como numa espécie de volta ao mundo em 120 páginas, este livro apresenta histórias dos cinco continentes do planeta Terra: partindo da Rússia, as narrativas passam pela China, Austrália, Magreb e América do Norte. Um menino que engana a bruxa Baba Yaga com sua esperteza; uma princesinha muito voluntariosa que aprende a sua lição; um papagaio que, com seu sangue colorido, pinta os pássaros; uma lebre que acredita estar sendo perseguida mas acaba descobrindo que tem uma sombra; e uma cigarra que procura um pretendente para casar e acaba arranjando um partidão são os personagens que recheiam esta antologia ilustrada e saborosa.