zélia gattai

Semana cento e trinta e nove

Os lançamentos desta semana são:

As agruras do verdadeiro tira, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Aos cinquenta anos, Amalfitano — professor universitário de literatura latino-americana que será familiar ao leitor de 2666 — descobre-se homossexual ao se envolver com um aluno, o talentoso poeta marginal Padilla. A relação acaba se tornando um escândalo na universidade de Barcelona onde leciona, e o docente se vê obrigado a transferir-se para a violenta cidade de Santa Teresa, no México. Rodeado por um ambiente estranho e muitas vezes sinistro, o protagonista reflete sobre sua homossexualidade tardia, enquanto se relaciona com outro homem, o falsificador de arte Castillo.
Reconstruído a partir de arquivos que Bolaño deixou em seu computador e de algumas páginas datilografadas, este romance póstumo passeia pelos vários estilos e temas explorados pelo escritor chileno, alternando entre um registro cerebral, herdado de Borges, e uma sensibilidade poética despudorada.

A morte do inimigo, de Hans Keilson (Tradução de Luiz A. de Araújo)
Alemanha, 1930. Um jovem judeu fica fascinado por um “inimigo” que aos poucos ascende ao poder: B., líder populista cuja propaganda política cria uma atmosfera cada vez mais ameaçadora, opressiva e profundamente antissemita. Diante da barbárie, o protagonista decide assumir uma neutralidade moral, defendendo que, até num duelo de vida ou morte, é preciso levar em conta as razões do inimigo. Assim, distancia-se cada vez mais de seu povo, enquanto se vê progressivamente absorvido pela figura carismática de um ditador. Sem nomear a realidade, lançando mão de um recurso original e desafiador — palavras como “Hitler”, “judeu”, “nazista” e “Alemanha” não aparecem uma só vez ao longo do livro —, o autor de Comédia em tom menor demonstra total domínio da construção narrativa, fazendo valer sua alcunha de gênio, concedida em 2010 pelo New York Times. Embora o contexto de A morte do inimigo logo fique claro ao leitor, Keilson cria uma parábola universal, capaz de abarcar qualquer regime totalitário. Mais do que isso, ao revelar os limites da razão diante do Mal, o autor evidencia sua compreensão sensível e aguçada da natureza humana.

O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett (Tradução de Sonia Moreira)
Mary Lennox é uma menina profundamente solitária. Depois de perder os pais na Índia, é levada para morar na mansão de um tio na Inglaterra. Ali, ela conhece o primo Colin, também com dez anos de idade, que vive isolado do mundo por ter uma saúde frágil. A amizade improvável entre essas duas crianças coincide com a aventura de descobrir e explorar um jardim proibido nos arredores da casa. O espaço, mantido fechado há dez anos em decorrência de um acidente grave, funciona como uma metáfora para a descoberta do mundo e também para o autoconhecimento dos jovens protagonistas.
Adaptado para o cinema, este clássico juvenil da literatura inglesa ganha nesta edição uma introdução e notas da romancista e crítica literária Alison Lurie, e um posfácio de Marise Soares Hansen, mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo. Em seu texto, ela traça paralelos do romance com autores importantes de literatura de língua portuguesa como Eça de Queirós e Clarice Lispector.

Memorial do amor & Vacina de sapo, de Zélia Gattai
Dois livros em um? Ou um único livro que se desdobra em dois? A reunião de Memorial do amor, de 2004, e Vacina de sapo, de 2006, de Zélia Gattai, oferece ao leitor um delicioso problema a respeito do caráter das recordações. Fluidos e marcados por uma noção desgovernada do tempo, os exercícios da memória quebram nossos parâmetros diurnos e se assemelham mais aos sonhos. Como os sonhos, a memória é incoerente, repleta de buracos e desinteressada pela ordem. Assim como o leitor agora pode saltar de um livro para outro sem medo de se perder, também Zélia dá longos saltos entre a juventude e a velhice, a intimidade do amor e a explosão da amizade, o carinho pelas pequenas coisas e a aspereza da política, sem nunca se perder. O caráter circular torna sua escrita sinuosa e envolvente. Em uma palavra: sedutora. É sempre da sedução pela vida e seus encantos que Zélia trata. Relatos simples, sem floreios, sem impostação. Como em uma boa conversa à mesa de café, eles se deixam guiar por uma única regra: o desejo de aproximar e de acolher.

O professor do desejo, de Philip Roth (Tradução de Jorio Dauster)
Quando estava na faculdade, David Kepesh se considerava “um libertino entre os doutos, um douto entre libertinos”. Mal ele podia imaginar o quanto esse lema seria profético — ou fatídico. Pois à medida que Philip Roth segue Kepesh da domesticidade da infância à selvageria da possibilidade erótica, de um ménage à trois em Londres às agonias da solidão em Nova York, ele cria um romance de extrema inteligência, pungência e humor sobre os dilemas do prazer: onde o procuramos, por que fugimos dele e como lutamos para obter uma trégua entre dignidade e desejo.

Editora Seguinte:

O menino negro, de Camara Laye (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar)
O menino negro narra a infância e adolescência de um garoto comum mas, ao mesmo tempo, muito diferente. Como todos nós, ele se diverte no quintal de casa, vai à escola, brinca e briga com os amigos. No entanto, ele também vivencia um dia a dia totalmente distinto: teme e respeita as cobras que insistem em compartilhar o terreno de seus pais, passa por um ritual coletivo de circuncisão aprendendo a lidar com seu corpo, estuda numa escola corânica e recebe uma formação muçulmana a seiscentos quilômetros de sua terra natal. Seu destino final é Paris, cidade iluminada que o converte em escritor.
O livro que o leitor tem nas mãos traz o ambiente único da Alta Guiné, mas é também uma homenagem a um continente durante muito tempo esquecido. São muitas as Áfricas que hoje começamos a conhecer, e esta, contada com tanta sensibilidade por Camara Laye, é daquelas que não se esquece jamais.

Semana cento e dezoito

Os lançamentos desta semana são:

A Odisseia de Homero adaptada para jovens, de Frederico Lourenço
Para o grande herói da guerra de Troia, a aventura estava apenas começando. Depois de combater em sangrentas batalhas e de arquitetar o golpe final que daria a vitória ao povo grego, Ulisses precisa apenas regressar à sua terra natal. Mas não vai ser nada fácil, e ele só chegará a Ítaca após dez longos anos. Perseguido pelo poderoso Posêidon, o deus dos mares, ele enfrenta inimigos ainda mais perigosos que os resistentes troianos: mata o ciclope Polifemo, sobrevive ao ameaçadores canibais, resiste ao encanto das sereias, escapa do cativeiro de Calipso. Nesta adaptação em prosa pensada especialmente para o público jovem, Frederico Lourenço narra essas e outras peripécias do célebre guerreiro atentando para a fluência narrativa do texto. Assim, respeitando a obra-prima de Homero, esta Odisseia traz nova vida à Antiguidade Clássica e à viagem mais famosa de todos os tempos.

Cosmópolis, de Don DeLillo (Trad. Paulo Henriques Britto, Nova edição)
O multimilionário Eric Michael Packer, 28 anos, é dono da Packer Capital e mora num triplex no prédio residencial mais alto de Nova York e do mundo. Certo dia de abril do ano 2000, levanta-se de manhã cedo e resolve cortar o cabelo. O presidente da República está na cidade, os mercados estão nervosos, um protesto antiglobalização toma conta da Times Square e o trânsito está completamente abarrotado. Para chegar ao lado oposto de Manhattan – percorrendo uma distância de pouco mais de dez quarteirões -, Eric é obrigado a passar o dia inteiro dentro de sua limusine, de onde controla os negócios, recebe assessores e tem encontros amorosos. No decorrer do dia, a existência de Eric é gradualmente corroída: suas certezas e seus valores se revelam vazios, ao mesmo tempo que o sistema financeiro global é arrastado para uma crise sem precedentes. Cosmópolis é uma novela em forma de fábula – uma fábula amarga para os tempos pós-modernos, assinada por um dos maiores romancistas norte-americanos contemporâneos. O filme baseado no livro estreia no Brasil esta semana, com direção de David Cronenberg.

Toda a saudade do mundo, org. de João Jorge Amado
Jorge Amado era um homem epistolar: cultivava a arte da correspondência, não deixava leitores sem resposta e mantinha o hábito de enviar cartões-postais aos amigos e parentes. Com Zélia Gattai, sua companheira por 55 anos, o autor manteve a troca de cartas mais frequente – e mais apaixonada. Este livro, organizado pelo filho do casal, reúne cartas de Jorge enviadas a Zélia desde a partida para o exílio na França até o período em que a família se estabeleceu em Salvador, na Casa do Rio Vermelho. A correspondência registra as provações do pós-guerra, a vida cultural e política em Paris, a participação do escritor no Conselho Mundial da Paz e as frequentes viagens por cidades como Berlim, Viena, Praga, Bucareste, Estocolmo, Helsinque e Varsóvia. Além das cartas do próprio escritor, de Zélia e de parentes, há também cartões-postais e bilhetes, alguns deles trocados com os filhos Paloma e João Jorge. O livro fornece dados biográficos relevantes do período em que Jorge Amado escreveu e publicou seus maiores sucessos e permite conhecer um pouco mais do cotidiano do autor, de sua escrita íntima e de seus cuidados para com a família, os amigos e a literatura.

A Idade Média passo a passo, de Vincent Carpentier (Trad. Julia da Rosa Simões)
Quantos anos durou a Idade Média? Como era a vida em uma cidade da época? Qual era a importância da religião? De que maneira se transmitia a peste negra? Muitos se referiam à Idade Média como um tempo  de trevas. Mas, se esse período de mil anos entre a Antiguidade e o Renascimento tem seu lado tenebroso – com muita guerra, pestes e ignorância -, há outro, da cultura, que é repleto de riqueza. Este livro nos permite descobrir a vida cotidiana dos homens e das mulheres daquela época e penetrar em suas aldeias, cidades e mercados, onde monges, senhores e camponeses desenvolvem o ensino, inventam ferramentas agrícolas, constroem catedrais e castelos, traçam rotas e se deslocam pela Europa e pelo Oriente. Seguindo os passos dos arqueólogos, descubra mais um período apaixonante da história!

Editora Paralela

Não há dia fácil, de Mark Owen (Trad. Donaldson M. Garschagen)
Não há dia fácil é um retrato da vida nas equipes do Seal e o único relato interno sobre a Operação Lança de Netuno, realizada em 1º de maio de 2011, que resultou na morte do terrorista Osama bin Laden. Desde a pane no helicóptero Black Hawk – que quase fez com que a missão fosse abortada – até o comunicado pelo rádio via satélite confirmando que o alvo estava morto, a operação dos vinte e quatro homens na propriedade secreta de Bin Laden é recontada em mínimos detalhes. Das ruas de Badgá ao resgate do capitão Richard Phillips no oceano Índico; das montanhas ao leste de Cabul ao terceiro andar do esconderijo de Osama bin Laden em Abbottabad, no Paquistão. Não há dia fácil coloca o leitor dentro de uma das mais surpreendentes tropas de elite do mundo. Mark Owen, ex-membro do Grupo para o Desenvolvimento de Operações Especiais da Marinha dos Estados Unidos, mais conhecido como Equipe Seis do Seal, foi líder de uma das mais memoráveis operações especiais da história recente, assim como de inúmeras outras missões que nunca chegaram às manchetes.

Semana noventa e um

Os lançamentos da semana são:

Baú de ossos, de Pedro Nava
A caixinha de música da sinhá recém-desperta recobrindo os lamentos dos escravos açoitados no porão. As penosas viagens das tropas de burros através das sertanias da serra da Mantiqueira. O modo tradicional de preparar quentão, angu e feijão tropeiro. As saborosas crendices e anedotas familiares, transmitidas de geração em geração como os dotes, as mobílias e as heranças. A genealogia dos antepassados confundida com as montanhas de Minas Gerais, as praias do Ceará, os burgos da Lombardia, as ruas de Juiz de Fora e do Rio de janeiro. No prodigioso baú de Pedro Nava, os ínfimos detalhes de um mundo extinto pelo trabalho incessante da morte convertem-se em marcos miliários do mapa da memória. Desbravador dos territórios perdidos da infância e da ancestralidade, tão intrincados quanto as rendas de bilro de suas avós nordestinas, Nava conduz o leitor pelos labirintos da lembrança com uma prosa aliciante, cuja opulência é alusiva ao fascínio inesgotável dos afloramentos do passado.

Balão cativo, de Pedro Nava
Neste segundo volume de sua monumental saga memorialística, Pedro Nava aborda o período delimitado pelo retorno a Minas após a morte do pai e os estudos no Colégio Pedro II, no Rio – marcos do fim da primeira infância e do início da idade adulta. Nava apresenta um abrangente panorama da cultura e da sociedade brasileiras na segunda década do século XX, alternando entre a Juiz de Fora de fechadas famílias tradicionais, a Belo Horizonte dos palácios recém-inaugurados e as ruas apinhadas da antiga capital federal. Dos sobrados da rua Direita às esquinas da jovem capital mineira, do luxurioso pomar da avó materna ao cotidiano do internato carioca, sua escrita magistral, repleta de termos de raro sabor arcaizante, viaja aferrado ao passado agrário. Muito além da mera crônica autobiográfica, as memórias da adolescência de Nava reconstroem a poesia do passado por meio de uma comovente homenagem aos amigos, professores e familiares mais decisivos em sua formação humana e intelectual.

Avenida Paulista, de Luiz Gê
Apesar de praticamente desconhecida do público em geral, a graphic novel Avenida paulista é um clássico dos quadrinhos nacionais. Concebida originalmente com o título Fragmentos completos, foi publicada em 1992 em uma edição especial da Revista Goodyear, de circulação restrita. Ao longo dos últimos vinte anos, tornou-se objeto cultuado e cobiçado entre colecionadores e marcou o início de um longo período de afastamento das HQs de um dos maiores quadrinistas brasileiros. Mesclando pesquisa histórica e iconográfica e o cenário de delírio e fantasia característico dos trabalhos de Luiz Ge, este livro narra cem anos de transformações ocorridas na avenida que simboliza como nenhum outro lugar o desenvolvimento acelerado e caótico de São Paulo.

Città di Roma, de Zélia Gattai
Neste livro da maturidade, Zélia recua no tempo e nos conta a história de sua família italiana no período anterior ao retratado em Anarquistas, graças a Deus. Com a escrita amorosa e sem afetação de sempre, ela passeia pelas lembranças que começam no navio batizado Città di Roma, no qual imigraram suas famílias materna e paterna. Velhas tias, vizinhos gentis, aulas de piano, rusgas com a polícia, rápidas confissões, os passeios de domingo: tudo se mistura na mesma tinta, pintada com o simpático tom intimista da autora.

Cozinha da Dona Nininha, de Lená Loureiro (Ilustrações de Cecilia Afonso Esteves)
Em uma casinha azul, Nininha cozinhava pra chuchu. Fazia receitas deliciosas, sopas maravilhosas. Mas nos doces, uma decepção, ela não acertava a mão! Depois de muito estudar, nas sobremesas passou a arrasar. Seu reinado apenas começava: pedidos e mais pedidos, a cozinha não parava. Eram recheios, pastas, fondants e pavês, enfeitados com flores, frutas, laços e glacês. Você não vai acreditar: a casa não aguentou, e o teto…voou! Quer conhecer essa história saborosa do começo ao fim? Então se prepare…pois neste livro tem muita farinha, “atchim”!

Centenário de Jorge Amado


Site oficial do Centenário de Jorge Amado: http://www.centenariojorgeamado.com.br/

Nesta terça-feira, 9 de agosto, véspera do dia em que Jorge Amado completaria 99 anos de idade, uma coletiva de imprensa em Salvador, na Fundaçāo Casa de Jorge Amado, deu início às comemoraçōes do centenário do escritor baiano. Na ocasiāo, foi apresentada uma comissāo para organizar diversas atividades que começam amanhã em Salvador e em todo o Brasil e que terāo um selo exclusivo deste centenário criado por Máquina Estúdio.

“A ideia é que este ano nāo acabe nunca” brincou Cecilia Amado, neta do escritor, durante a coletiva.

A comissāo do centenário é formada por:

  • Cecilia Amado e João Jorge Amado Filho, representantes da família de Jorge Amado
  • Myriam Fraga, da Fundação Casa de Jorge Amado
  • Alberto da Costa e Silva, Academia Brasileira de Letras
  • Lilia Schwarcz e Thyago Nogueira, Companhia das Letras
  • Adriana Vendramini, Grapiúna Produções/Copyrights

Os eventos acontecerāo de agosto de 2011 até agosto de 2012. Veja a programaçāo divulgada na coletiva aqui.

Para festejar aqui no Blog da Companhia, resolvemos divulgar esta carta inédita que Jorge escreveu para Zélia Gattai em 1948, enquanto estava em exílio. Esta carta fará parte do livro Jorge & Zélia, programado para agosto de 2012.

Leia na íntegra a carta, e comemore também o centenário deste importante escritor brasileiro que a Companhia das Letras tem o privilégio e o prazer de publicar desde 2008.

* * * * *

De: Jorge Amado

Para: Zélia Gattai

Paris, 13 de março de 1948.

Minha negra querida: toda a saudade do mundo. Há uma semana que não tenho cartas tuas. Recebi recortes de S. Paulo, pela letra conheci terem sido enviadas por ti, donde depreendi que já estavas em S. Paulo. Mas depois da carta começada no sítio e terminada no Rio, não recebi nenhuma outra e estou preocupado. Imagino que devas estar abafada do que fazer mas sei que não haveria falta de tempo que te fizesse deixar de me escrever e temo que tenha havido extravio de cartas. Daí recebi uma breve carta da Lila e uma do Graciliano e só. E os recortes são “divertidos” pelo menos os que se referem a mim.

Aqui vou, saudoso de ti cada vez mais, cheio de que fazer, de visitas, recepções, editores, artistas, um inferno, com minha máquina no conserto pois começou a rebentar na semana passada, deixou de escrever e a casa consertadora pediu-me 8 dias e só na próxima terça-feira me entrega. Ontem tive duas recepções: uma às 4 ½ da tarde (terminou às 8 da noite) oferecida pelo editor Nagel que publicou aqui o “Terre Violante”. Estavam todos os escritores franceses não de esquerda: Mauriac1, Sartre2, Maurois3, Duhamel4, etc. Grã-fina a recepção e, por consequência, formal, com champagne e conversas sobre existencialismo. Mas dela saiu um protesto, firmado pelos tais, sobre o caso de Pablo. E logo, às 8,30  uma outra numa livraria, onde Pierre Daix5 falou sobre minha obra e eu falei sobre o Brasil. O contrário exatamente da primeira, durou até meia noite, quando vim com o Scliar e o casal Arnaldo Estrela jantar no quarto de Scliar (que atualmente é um grande cozinheiro).

Há poucos dias fui a uma festa na Embaixada da Polônia, muito simpática (concerto de câmara e após, salgadinhos, champagne e vodka) envergando um smoking emprestado por um brasileiro, Coitinho, advogado e funcionário da prefeitura, amigo de Joelson. Ontem a Embaixada mandou-me fotografias minhas tiradas na festa e eu te envio uma, noutro envelope, para que me vejas de smoking em Paris. Fui ao teatro ver “Bas Fond” de Gorki, muito bom. No entanto minha vida tem sido cheia de trabalho.

Deixo de te dizer muita coisa, quando chegares, verás. Mas mando-te um recorte e o que posso te dizer é que só viajo para a Itália no fim do mês devido a várias coisas a fazer ainda. Não tenho tido tempo para ver Paris, passear, etc. Mas não me importo muito porque eu o farei contigo quando tiveres chegado.

Já estou com todos os meus livros (exceto os 3 primeiros, o ABC e o Bahia que não me interessa vender) negociados com editores daqui e o “Terras” foi vendido para o eslovaco, o holandês, o finlandês, e o polonês. O representante literário meu, na Holanda, é um braço. Creio que colocarei todos os meus livros em toda Europa.

E João? Os dois Joões, o avô e o neto? E mamãe? James e Jacinta? Joelson e Fany? Tua mãe, tuas irmãs? E teu filho Luiz6, tiveste ele contigo ou não? Conta-me as coisas, manda-me dizer quando estarás no Rio, se Fernando vem de avião, escreve-me, morro de saudades tuas e de João. Comprei um chapéu para ti, não sei se gostarás, mas achei engraçado.

Chegou da Itália o Justino Martins7, da Revista do Globo. Apaixonado pela Itália. Scliar está fazendo uma relação das coisas que deves trazer. Estou cansado e saudoso. Falo de ti a toda a gente e a toda gente mostro o teu retrato e o do João. Chego a ser chato, creio. Abraça, querida minha, a todo mundo, beija João e beija o teu filho que te ama,

Jorge

[1] François Charles Mauriac (*1885 +1970) foi um escritor francês, Nobel de Literatura de 1952.
[2] Jean-Paul Charles Aymard Sartre (*1905 +1980) foi um filósofo, escritor e crítico francês, representante do existencialismo. Intelectual militante, e apoiou causas políticas de esquerda. Amigo de Jorge Amado, visitou o Brasil a seu convite em 1960.
[3] André Maurois, pseudônimo de  Emile Salomon Wilhelm Herzog (*1885 +1967) foi um romancista eensaísta francês.
[4] Georges Duhamel (*1884  +1966) foi um autor francês, membro da Academia Francesa e presidente da Aliança Francesa.
[5] Pierre Daix (*1922) é um jornalista e escritor comunista francês. Participou da resistência. Foi preso pelo governo colaboracionista de Vichi e mandado para o campo de concentração de Mauthausen onde trabalhou com a resistência clandestina do campo ajudando a salvar resistentes franceses.
[6] Luiz Carlos Veiga (*1942  +2008) filho de Zélia Gattai em seu primeiro casamento com o dirigente comunista Aldo Veiga.
[7] Justino Martins (*1917 +1983) foi um jornalista brasileiro, cunhado de Érico Veríssimo, com quem trabalhou na Revista do Globo. Foi, posteriormente, diretor da revista Manchette.

Semana cinquenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

Liberdade, de Jonathan Franzen (Tradução de Sérgio Flaksman)
Um estudante idealista e meio nerd, uma jogadora de basquete com carreira promissora e um roqueiro rebelde metido a poeta se conhecem no fim dos anos 1970, na Universidade de Minnesota. Duas décadas depois, a crise do casamento de Walter e Patty Berglund ameaça estilhaçar sua imagem arquetípica de família liberal de classe média, ao mesmo tempo que Richard Katz se torna um espectro promíscuo e solitário que deseja apenas fugir da própria fama. No despertar do novo milênio, eles têm a impressão de já terem vivido tudo. Mas é somente agora, numa época em que a liberdade lhes parece tão onipresente quanto fugidia, que as coisas começam realmente a se complicar. Poderoso painel da vida contemporânea, povoado por personagens tão reconhecíveis quanto surpreendentes, Liberdade reatesta a posição de Jonathan Franzen como um dos grandes autores americanos da atualidade. Veja o vídeo do editor, André Conti, falando sobre o livro:

As correções, de Jonathan Franzen (Tradução de Sérgio Flaskman; Nova edição econômica)
Alfred Lambert é um engenheiro ferroviário aposentado, teimoso e cheio de manias agravadas pelo mal de Parkinson recentemente diagnosticado. Enid Lambert é uma dona de casa comum, às vezes mesquinha, às vezes frívola. O casal, na faixa dos setenta anos, leva um cotidiano de torturas mútuas numa pequena cidade do Meio-Oeste americano. Gary, Chip e Denise, os três filhos, mudaram-se para metrópoles da costa Leste a fim de tentar a sorte e deixar para trás a mediocridade da vida em família. Jonathan Franzen, uma das principais vozes da ficção americana, conta uma saga contemporânea a um só tempo trágica e cômica, que vai de Nova York até a Lituânia, e expõe dramas pessoais, crises conjugais, a sedução irresistível do dinheiro e os conflitos religiosos e culturais que separam duas gerações.

Estrela amarela, de Jennifer Roy (Tradução de Ernani Ssó)
Em setembro de 1939 os alemães invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Pouco tempo depois, trataram de isolar os judeus em guetos, como o de Lodz, onde, entre 233 mil pessoas, havia uma menina de quatro anos chamada Sylvia — uma entre as doze crianças desse gueto que sobreviveram ao Holocausto. Em Estrela amarela, a própria Sylvia, tia da autora, fala sobre esses seis anos de luta pela sobrevivência, compartilhando as dúvidas, os medos e as pequenas alegrias de uma criança judia em meio ao nazismo.

Essencial Franz Kafka, tradução e organização de Modesto Carone
Apesar de seu estado fragmentário, o espólio literário de Kafka — publicado na maior parte em edições póstumas, graças à generosa traição de Max Brod, que se recusou a destruí-lo conforme a vontade do amigo — é considerado um dos monumentos artísticos mais importantes do século XX. O Essencial Kafka reúne momentos antológicos do autor de O processo, incluindo contos, fábulas e a novela A metamorfose, na íntegra, além de 109 aforismos. Modesto Carone é responsável pela introdução e pelos comentários, além de assinar a tradução, feita a partir dos originais em alemão, o que permitem que os textos sejam lidos (ou relidos) com fidelidade ao estilo labiríntico da prosa kafkiana.

O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna
Os sete contos de que compõem o sexto volume da coleção Amores Expressos narram a viagem improvável do escritor Antônio Fernandes à capital tcheca. Ele está interessado em arte: sua atenção se volta para a pintura de Andy Warhol, a música da pianista Béatrice Kromnstadt, as esculturas da ponte Carlos, a peça teatral em que a Alice de Carroll contracena com sua sombra, o texto de Kafka tatuado num corpo feminino… Suas aventuras insistem na ideia de que transcendência, arte e sexo convergem em morte.

Chão de meninos, de Zélia Gattai
Entre viagens a países longínquos e sentimentos ambíguos diante da política e da realidade, pequenas histórias do dia a dia e amigos que não param de lhe trazer surpresas, Zélia Gattai continua sua trajetória de narradora sábia e serena neste livro de memórias delicado. Lançado no ano em que Jorge Amado completou oitenta anos de idade, Chão de meninos retoma os temas que guiaram Zélia Gattai em sua travessia do mundo. Em primeiro lugar, a paixão por Jorge. Depois, a fé, às vezes vacilante, mas sempre forte, no socialismo. E, por fim, o amor incondicional pelos amigos, a aposta, sem receio, nos outros.

As variações Bradshaw, de Rachel Cusk (Tradução de Fernanda Abreu)
Com quase quarenta anos e pais de uma filha de oito, Thomas Bradshaw e sua mulher, Tonie, têm uma vida estável nos arredores de Londres. No entanto, quando Tonie é chamada a trocar as aulas de literatura em tempo parcial pelo cargo de chefe do departamento de inglês na universidade, abandona a zona de conforto do trabalho entremeado à vida doméstica e avança com curiosidade por seu novo universo solidamente regulado. Movido por curiosidade simetricamente oposta, Thomas abdica de seu próprio emprego e assume o antigo lugar de Tonie, cuidando dos afazeres domésticos e estudando piano, à procura de resposta para a pergunta: “O que é a arte?”. Composto de cenas fragmentárias, esse romance apresenta um sutil panorama social por meio de consciências singulares.

Vida de um homem: Francisco de Assis, de Chiara Frugoni (Tradução de Federico Carotti)
O grande traço distintivo de Francisco de Assis foi saber responder com uma religiosidade ativa e generosa às trevas terrenas. Ele falava mais de perto a homens e mulheres às voltas com novos problemas e práticas, que não se deixavam guiar apenas pelo temor a um Deus punitivo. De modo simples, preciso e delicado, a historiadora medievalista Chiara Frugoni investiga a vida do homem (e santo) que forjou o conceito de individualidade e, para muitos, antecipou os valores do Renascimento.

12