zulmira ribeiro tavares

Semana cento e trinta e dois

Os lançamentos da semana são:

Região, de Zulmira Ribeiro Tavares
Região reúne três livros de ficção curta de Zulmira Ribeiro Tavares, publicados desd e a década de 1970: Termos de comparação, O japonês dos olhos redondos e O mandril. Traz também obras ficcionais recentes, como a série “O Tio Paulista” e o conto notável que dá título ao volume. Além das ficções, o livro apresenta o ensaio inédito “Dois narizes”, no qual são analisados o conto “O nariz”, de Gógol, e As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. A comparação feita pela autora revela novos significados nos dois textos e aponta para uma estratégia literária muito cara também a ela própria/; uma prosa que leva ao limite a representação realista e traduz uma inusitada conjunção de comédia e absurdo que o leitor brasileiro conhece bem – tanto na ficção como na realidade.

A bolsa & a vida, de Carlos Drummond de Andrade
Com períodos como esse, tem-se como certo que o Drummond cronista não devia nada ao poeta. Aqui estão, em prosa limpa, divertida e sarcástica, algo melancólica – com o famoso pendor ao nonsense -, alguns dos melhores textos que publicou na imprensa, quando, sem favor nenhum ao autor de Claro enigma, figurava entre os grandes praticantes do mais brasileiro dos gêneros literários.

O Latke que não parava de gritar, de Lemony Snicket (Trad. Antônio Xerxenesky)
Esta história termina na boca de uma pessoa, mas começa num pequeno vilarejo mais ou menos coberto de neve, onde um punhado de batatas raladas, cebolas picadas, ovos batidos e uma pitada ou duas de sal nascem na forma de um bolinho frito chamado latke, degustado no feriado judaico de Chanucá. Agora só falta saber porque ele não parava de gritar.

O exército furioso, de Fred Vargas (Trad, Dorothée de Bruchard)
Uma lenda medieval volta a assombrar uma pequena cidade da Normandia: um exército fantasma desfila à noite por uma trilha na mata. Quem vê a tropa de zumbis é Lina, jovem atraente que vive com a mãe e três irmãos estranhos – um deles nasceu com seis dedos, outro come insetos e o caçula acredita ser feito de argila. O Exército Furioso não tarda a fazer jus a sua fama, e um dos habitantes mais odiados do vilarejo aparece morto. A lenda diz que outras mortes virão. O delegado Adamsberg é chamado de Paris. Dividindo-se entre investigações na capital e no lugarejo normando, ele tenta desvendar o mistério que envolve um caçador cruel, um piromaníaco, um conde decaído um empresário incendiado e os zumbis medievais. Com seus assistentes Danglard, Retancourt e Veyrenc, o delegado Adamsberg terá de investigar a crença nessa trupe sinistra, desafiar superstições ancestrais e descobrir onde termina a lenda e onde começam os planos macabros de assassinatos em série.

Risíveis amores, de Milan Kundera (Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca)
Um homem diz que crê em Deus só para conquistar uma mulher e acaba descobrindo as virtudes da devoção a um deus que ele sabe inexistente. Namorados fingem que não se conhecem e aos poucos percebem como são, de fato, dois estranhos. Um mentiroso hábil brinca com as pessoas, mas elas são tão crédulas que ele perde o controle da situação. Nos sete contos de Risíveis amores, Milan Kundera retira do amor e do sexo a seriedade que costuma recobri-los. As situações se desenvolvem a partir de um mal-entendido, de um jogo com o outro. Mas o engano, que se inicia como brincadeira, mostra como na realidade o autoengano governa todos os aspectos da vida. Não são apenas histórias de amor que fazem rir. São, também, histórias sobre tentativas de repor alguma verdade à experiência amorosa.

Fazendeiro do ar, de Carlos Drummond de Andrade
Um dos títulos mais importantes da obra poética de Drummond, Fazendeiro do ar investe na metafísica e na observação da brevidade da vida – sem esquecer dos afetos e do mundo sensível. A incerteza, a angústia em das forma literária às oscilações do espírito em plena maturidade e a dura tarefa de encapsular liricamente as múltiplas faces de uma realidade que, em essência, é impossível de apreender ocupam diversos poemas deste livro sempre expressivo e fundamental.

V.I.S.H.N.U., de Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco
Num futuro dominado pela tecnologia, nenhum produto se destaca tanto quanto o Noodle. Misto de assistente pessoal e gerenciador de tarefas, o Noodle é onipresente na vida de nove entre dez habitantes do planeta. Até entrar em colapso. Atrelado profundamente a sistemas vitais da sociedade, ele derrubou bancos, transporte, governos e décadas de avanços científicos. O mundo que emergiu desta crise aprendeu a tratar os computadores com desconfiança, mas não soube diminuir sua dependência deles. Wilczenski é uma das grandes mentes de seu tempo, e que agora se dedica à mesma ciência que trouxe tanta destruição no passado: a inteligência artificial. Até que tudo dá errado mais uma vez. Quando uma misteriosa entidade parece despertar nos galpões do grupo Gaia, Wilczenski é o primeiro a ser chamado. Mas a entidade, que se apresenta como V.I.S.H.N.U., pede para ser mostrada ao mundo por outro cientista, o grego-brasileiro Karabalis. Misto de thriller e ficção-científica, V.I.S.H.N.U. conta a história destes dois gênios em conflito, enquanto guerrilhas luditas, jornalistas, hackers, políticos e grupos religiosos tentam tomar o controle da situação. Tocando em questões atuais da ciência, o livro percorre continentes numa aventura que traz à tona um estranho e perigoso caminho que nossos avanços podem tomar.

Semana quarenta e cinco

Os lançamentos da semana são:

Tanto faz & Abacaxi, de Reinaldo Moraes
De volta às livrarias, o lirismo deliciosamente pornográfico destes dois romances cult.
Ricardo de Mello é o herói-narrador de Tanto faz — o garotão à beira dos 30 que deixa um emprego burocrático em São Paulo para morar em Paris, com um ano de bolsa de estudos num curso de economia. Mas seu verdadeiro projeto é ser escritor. E ele logo pula fora da faculdade para investir numa vida aventureira e desregrada, animada com bebida, haxixe, drogas mais pesadas e as dezenas de girls que vai seduzindo.
Depois de um ano de esbórnia em Paris, é hora de voltar para casa. E é essa volta, com escala em Nova York e no Rio, que ele narra em Abacaxi, polvilhada de cenas de sexo ou escatológicas e toda sorte de jorros e fluidos.
Transgressores para a época e ainda capazes de chocar qualquer cidadão, Tanto faz e Abacaxi escancaram o talento de um grande escritor, com seus achados linguísticos, diálogos hilários e um cruzamento vertiginoso e saboroso entre alta e baixa cultura.

O invasor, de Marçal Aquino
Ambientado em São Paulo, o livro narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência.
Assim é O invasor, novela que só foi concluída cinco anos depois de ter virado roteiro do premiado filme do diretor Beto Brant, com Paulo Miklos e Sabotage no elenco.
Junto com Tanto faz & Abacaxi, o livro marca a inauguração do selo Má Companhia, dedicado a autores polêmicos. O evento de lançamento será dia 13 de abril, em São Paulo, com bate-papo entre os autores mediado por Joca Reiners Terron.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
Com uma literatura engajada e realista, Lima Barreto (1881-1922) compôs um romance cuja história oscila do humor ao drama. Ambientado no final do século XIX, o livro conta a história do major Policarpo Quaresma, nacionalista extremado, cuja visão sublime do Brasil é motivo de desdém e ironia. Interessado em livros de viagem, defensor da língua tupi e seguidor de manuais de agricultura, Policarpo é, sobretudo, um “patriota”, e quer defender sua nação a todo custo. O patriotismo aferrado leva o protagonista a se envolver em projetos, que constituem as três partes do livro.
Esta nova edição traz uma introdução da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, um texto de Oliveira Lima, publicado em 1916 no Jornal do Commercio, e também cerca de trezentas notas elaboradas por Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Garcia e Pedro Galdino que recuperam citações, textos, autores e personalidades históricas presentes no romance.

Vesuvio, de Zulmira Ribeiro Tavares
O aviso está nos primeiros versos: “Tua cabeça a prumo emplaca o tempo. Dentro dela guardas o Vesuvio”. É esse conteúdo incandescente que Zulmira exporá aos olhos do leitor com seu estilo direto e provocador, agora organizado em torno do eixo de uma lírica desarmante para quem está habituado a lê-la com o sorrisinho interno suscitado por sua malícia incansável. Claro, é a Zulmira de sempre. Mas que extraordinário encontrá-la assim, exposta, grave — e brilhante, extraordinária.
O livro se divide em sete partes que convergem para a seção final, “Glosa”, que, como ressalta Vilma Arêas no texto de orelha, “pode servir de guia para escalarmos o Vesuvio”. Escalada paradoxal, que não é para o alto mas segue o exemplo das folhas — falsos pássaros que aguardam sua ocasião de voo para atender aos “impulsos precisos que os dirigem pelos declives do ar à terra de sua breve vida”.
Primeiro livro de poesia de uma escritora premiada que não cessa de surpreender, Vesuvio reúne poemas da vida inteira.

Retrato de um viciado quando jovem, de Bill Clegg (Tradução de Julia Romeu)
O relato comovente — e assustador — do jovem agente literário Bill Clegg, que abandona a carreira promissora em Nova York e mergulha no mundo de paranoia e desespero do vício em crack. Ele experimenta a droga pela primeira vez no apartamento de um advogado no Upper East Side. A fumaça com “gosto de remédio, ou desinfetante” gera “um raio de energia renovada” que “eletriza cada centímetro do seu corpo”. Rapidamente a experiência o atira no circuito costumeiro dos viciados: em vez de pensões imundas e noites na sarjeta, porém, sua via crucis inclui hotéis e bares de luxo, aeroportos e táxis que o conduzem de um lado a outro em Manhattan enquanto duram as dezenas de milhares de dólares em sua conta. Escrito com uma sinceridade atordoante, o livro acompanha a queda e a redenção final, quase por milagre, de alguém que se propôs a destruir tudo o que tem e ama.

Amor sem fim, de Ian McEwan (Tradução de Jorio Dauster)
Joe e Clarissa Mellon eram um casal feliz. Professora e crítica literária, ela acabara de retornar de uma longa viagem de pesquisa sobre o poeta John Keats. Joe mal podia esperar por seu retorno. Escritor de divulgação científica, autor bem-sucedido de diversos livros e artigos, ele não era alguém que se deixasse levar facilmente pelas emoções, mas Clarissa, acreditava, era a mulher com quem dividiria o restante de seus dias. Eles haviam decidido fazer um piquenique no campo, e para lá seguiriam imediatamente após o reencontro no aeroporto. A poucos quilômetros de Londres, a paisagem verdejante das Chilterns oferecia um cenário perfeito para aquele idílio de primavera. Comida italiana e vinho francês completavam a felicidade da ensolarada excursão campestre. Ao fundo, um balão pairava sobre as árvores, como se simbolizasse a tranquila harmonia da tarde. Antes de ouvirem o grito aterrorizado que deflagrou a catástrofe, eles ainda não sabiam que suas vidas mudariam para sempre.