John e Susan

Em duas ocasiões eu aguardei, do lado de dentro da alfândega do aeroporto de Cumbica, a chegada de um escritor estrangeiro. O apoio do serviço cultural da embaixada americana às viagens dos autores convidados pela editora me conferia esse privilégio.

Na primeira vez, eu esperava por John Updike, que desembarcou de tênis e sobretudo longo, preparado para chuvas tropicais.  Com um sorriso maroto, foi logo dizendo, “vocês não deveriam ter feito isso comigo, eu não estou acostumado com tratamento first class”. Ele se referia ao upgrade de sua passagem que havíamos conseguido. Pouco depois, a reclamação, em tom de gozação, quase virou tragédia. No almoço, Updike passou mal, pediu para ir ao banheiro, de onde não saía. Fernando, meu sócio, era a favor de que fôssemos ao seu encalço. Eu fui contra. Ele estava certo. Lá, encontramos John Updike quase desfalecido, verde, dizendo “I said, first class!”. Queríamos chamar um médico, mas Updike recusou, alegando que acabara de escrever sobre um ataque cardíaco, e por isso sabia que não estava tendo um. Levei-o ao hotel e pedi para que me permitisse aguardar no seu quarto. Updike saiu-se com mais uma frase de humor negro: “não, obrigado, estou melhor e, afinal, se acontecer algo comigo, a camareira saberá o que fazer”. Desci e pedi ao concièrge que não deixasse ninguém subir. Deixei, de qualquer forma, a agenda de entrevistas com o nome dos jornais que viriam mais tarde. Mesmo assim, como o trabalho só começava em duas horas, assegurei que até lá eu estaria de volta para cuidar de tudo.

Ao voltar, menos de uma hora depois, fiz um sinal de positivo para o concièrge, só para confirmar que nada acontecera e ninguém incomodara o nosso autor. Para minha surpresa, a alegria do concièrge era prenúncio de tragédia: “positivo doutor, a TV Manchete já chegou e subiu”. Não havia nenhuma entrevista agendada com emissoras de TV. A Manchete furara o bloqueio, que no início da editora eu controlava pessoalmente, graças a um concièrge que talvez almejasse o posto de divulgador da Companhia das Letras. Por uns segundos, pensei em reclamar, mostrar a lista que ele tinha em mãos, mas naquela altura de nada adiantaria esbravejar. Subi correndo, cheio de culpa por ter deixado o hotel, e, ao entrar correndo no quarto, encontrei John Updike sorrindo, todo corado, erguendo dois coelhos pelas orelhas, holofotes na sua direção, a me perguntar “don’t I look better now?”. Lançávamos na ocasião, de uma tacada só, os quatro romances protagonizados por Rabbit (Coelho) Angston.

Um ano e poucos meses depois, eu, novamente do lado de dentro da alfândega, aguardava desta vez por Susan Sontag. Nervoso, só pensava numa coisa: como eu explicaria a ela que havíamos editado o livro do seu maior desafeto, Camille Paglia, a franco-atiradora que não perdia oportunidade de se promover falando mal de Susan. Ao publicar Persona sexual eu sabia do seu potencial polêmico, mas talvez não me desse ainda conta que Camille Paglia fazia dos ataques a terceiros algo mais importante do que o próprio livro, combinação que em geral leva a obras pouco duradouras. Esperando por Susan eu pensava na primeira entrevista de Paglia a um jornal brasileiro, e começava a perceber que eu caíra na tentação errada, editando um livro pelo seu potencial explosivo, sem pensar que a munição em questão era de festim. Com o tempo essa lição tornou-se ainda mais clara, mas, naquele momento, se Susan me perguntasse algo, de nada adiantaria eu confessar que estava arrependido.

Fiquei mais calmo ao me lembrar que os autores tardam um pouco para entrar em assuntos delicados, e, muitas vezes, acabam sem fazer a pergunta que não quer calar.

O meu consolo durou pouco. Susan chegou, muito simpática, roupa roxa de cetim contrastando com sua inconfundível mecha branca. Era uma presença bonita, que chamava a atenção de todos, até dos que nem desconfiavam de que se tratava de uma das mais importantes intelectuais norte-americanas. Conversamos por cerca de dois ou três minutos, ao lado da esteira, e, antes mesmo das suas malas chegarem, Susan perguntou: “quem é o editor de Miss Paglia no Brasil?”. Abaixei a cabeça e disse: “está falando com ele”.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.