O Parsifal que nunca aconteceu

Por Luiz Schwarcz

O Sítio Burle Marx, localizado no bairro Barra de Guaratiba, RJ, foi um dos lugares visitados por Susan Sontag. (Foto por thefuturistics)

Apesar do começo pouco alvissareiro ― com a fatídica pergunta sobre Camile Paglia* ―, a primeira visita de Susan Sontag ao Brasil foi um sucesso. Em alguns momentos cheguei a temer que esse sucesso me custaria caro.  Susan gostou tanto do Brasil que, no meio da estadia, disse que desejaria se mudar para São Paulo, assim como fizera com Tóquio e Berlim, e mais tarde faria com Sarajevo ― cidades pelas quais se apaixonara e nas quais decidira morar por pelo menos seis meses.

No aeroporto, a minha apresentação como o editor de Paglia no Brasil ainda vibrava silenciosamente no ar, e com ela a expressão frustrada de Susan. Abri os braços, sorrindo acanhado, com os olhos  baixos. Susan entendeu que eu pedia desculpas. Emendei com um “sorry” e continuei: “escolhi alguns dos meus cds favoritos para ouvirmos no carro, Chico, Caetano, Tom Jobim, ou, se você preferir, Beethoven e Bach?”. Nesse momento as pesadas malas de Susan chegaram. Enquanto as colocava no carrinho, ela me perguntava ansiosa sobre qual Beethoven eu trouxera para ouvir. “O concerto de piano número 3 é o que tenho no carro, com Arthuro Benedetti Michelangeli.” Bingo! Camille Paglia virou passado e Susan sorriu com franqueza. Nossos gostos musicais combinavam, o que para ela era mais que um sinal dos deuses ― Susan era uma colecionadora de discos ainda mais obsessiva do que eu. Descobrimos que ambos vivíamos atrás da gravação perfeita das mesmas peças musicais, uma prova de comportamento patologicamente perfeccionista dos dois.

No caminho para o carro fui bombardeado com perguntas sobre as minha gravações favoritas da última sonata de Schubert, ou das variações Goldberg de Bach. Satisfeita com minhas respostas, Susan pediu que a levasse, logo depois do check in no hotel, para a melhor loja de cds de São Paulo, e, no almoço, logo a seguir brindou, com algumas caipirinhas, às nossas coincidências musicais. Na loja, a Musical Box da praça Villaboim, poucas horas depois de me conhecer, Susan já me presenteava com uma versão que achava curiosa da tal sonata de Schubert e com uma caixa da ópera Vec Makropulos de Janacék, sobre uma mulher de mais de trezentos anos de idade, em busca do elixir para prolongar sua vida por outro tanto. (Não era difícil entender o fascínio que essa ópera exercia sobre nossa autora). Susan transbordava energia, estava sempre à frente de seu tempo, ouvindo óperas pouco encenadas, lendo livros que ninguém lia em seu país. Foi ela quem me apresentou às obras de Sebald e Bolaño, muito antes da Bolañomania.

Em São Paulo Lili e eu a levamos ao centro da cidade, subimos no topo do Martinelli, onde comentamos sobre a sensação de posse da cidade que se tinha do terraço do milionário paulista. Em seguida fomos ao Teatro Municipal, que logo passaria a fazer parte dos planos de vida de Susan. A autora visitou também a favela de Paraisópolis com Bernardo Carvalho, que na época trabalhava como repórter na Folha de S. Paulo. A relação dos dois, durante o passeio, parece não ter sido das melhores ― mais tarde ambos se queixaram comigo. Susan falou num auditório do MASP superlotado para uma plateia atenta e reverente. Sua mecha brilhava em São Paulo, onde passava era reconhecida. Uma festa em casa na qual estiveram presentes os principais intelectuais da cidade foi, literalmente, a cereja do bolo da sua visita.

Susan havia feito duas exigências antes de aceitar o convite de vir ao Brasil: a primeira era conhecer Roberto Schwarz. Introdutora de Machado de Assis nos Estados Unidos, ela era fã dos ensaios de Roberto traduzidos em inglês e publicados em revistas literárias e edições de pequena circulação. O pedido foi atendido em dobro. Susan debateu com Roberto e Marilena Chauí na Folha de S. Paulo, e encontrou com eles novamente na recepção em minha casa, onde estiveram também outros intelectuais e escritores de renome. Nocaute: ao sair da festa, Susan me disse que uma cidade com essa qualidade intelectual era onde ela queria morar, e incumbiu-me de tornar isso possível. Eu pedi que esperasse, no dia seguinte iríamos para o Rio, ela não conhecia ainda a beleza do Brasil.

Mas Susan era rápida no gatilho. Passeando na praia, em frente ao Copacabana Palace, na primeira meia hora de Rio de Janeiro, me disse: “aqui não é o meu lugar, não tem a energia de São Paulo”. Gostou demais, porém, do restaurante Porcão no aterro, onde comeu cupim, suspirando de prazer. Glutona, me fez levá-la ao Mário’s à noite para comer mais carne. No dia seguinte, eu cumpriria o seu segundo pedido: conhecer Burle Marx. Nessa altura, Susan já me tratava como amigo íntimo, e assustava-me com sua possessividade. Eu não tinha um segundo de sossego, só quando o dia terminava e no elevador combinávamos a hora do café da manhã.

Chegamos ao sítio do grande paisagista, na Barra de Guaratiba, após altos papos cabeça durante o trajeto. Usei todo o meu passado de quase intelectual, Walter Benjamim pra lá, Roland Barthes pra cá. Ao chegar fomos recebidos por um Burle Marx gentilíssimo. Ambos falaram logo de ópera e se confessaram grandes amantes de Wagner. Burle Marx mostrou cenários e figurinos que desenhara para uma ópera que, se não me engano, nunca foi montada. Sem delongas, como de costume, Susan emendou: “Luiz, eu vou voltar para o Brasil o quanto antes, quero dirigir uma montagem de Parsifal, com cenários de Burle Marx, no Teatro Municipal de São Paulo”. Na hora acenei positivamente com a cabeça e pensei: que sonho seria assistir a esse Parsifal, tomara que nunca venha a acontecer!

* Leia a minha última coluna, “John e Susan”.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

[Devido ao feriado, a coluna Imprima-se, que normalmente é publicada às quintas-feiras, foi adiantada para quarta-feira. Ela retorna à quinta-feira na próxima semana.]