Cláudio Manuel da Costa: um homem sem rosto

Por Lilia Moritz Schwarcz


Ilustração de Vila Rica feita por Armand Julien Pallière em 1820.

Nem sempre a capa representa o reflexo, imediato e previsível, do conteúdo de seu livro. Na maioria das vezes, ocorre mesmo o contrário: não se chega a um consenso, nenhuma imagem corresponde ao que se imagina e longos debates se entabulam entre editores, autores, artistas gráficos e por aí afora.

Mas agora temos, aqui na Companhia das Letras, um problema de certa maneira novo. Laura de Mello e Souza acaba de entregar os originais de uma biografia sensacional sobre Cláudio Manuel da Costa, conhecido letrado da Inconfidência Mineira. O livro fará parte da coleção Perfis Brasileiros e trará um pouco da história da mineração no século XVIII e muitos dados inéditos sobre esse personagem até hoje bastante desconhecido.

O problema é, porém, de alto calibre: Cláudio Manuel da Costa chegou até os dias de hoje quase sem rosto. Laura mostra como sobreviveu apenas uma gravura com a fisionomia do poeta. Nela vemos um homem de meia idade; fronte larga; cabelos fartos mas meio lambidos, colados à cabeça e escorrendo por trás do pescoço; sobrancelhas arqueadas; nariz um pouco longo apesar de bastante correto; face escanhoada, como se usava na época ― uma vez que barbas não faziam parte das faces das elites ―; lábios quase grossos esboçando um meio sorriso. Ocorre que essa é uma imagem póstuma, sempre reproduzida quando se trata de Cláudio Manuel da Costa, mas nada factual ou fiável.

Por sinal, os documentos mostram imagem bastante diversa. Num ou noutro registro consta que fosse bem alto, uma vez que assim se designavam, à época, os homens com cerca de um metro e oitenta. Parece que usava óculos, talvez por causa da idade, ou, quem sabe, já tivesse problemas quando moço, uma vez que possuía o “vício da leitura” e gostava de escrever rimas. O importante é que as fontes não confirmam o retrato póstumo feito, ao que tudo indica, com mais traços de imaginação do que da realidade.

Não é estranho que não se encontrem imagens de Cláudio. Afinal, no contexto lusitano, ainda mais em territórios ultramarinos brasileiros, não se cultuou a arte do retrato, tão disseminada no mundo europeu. Por essas e por outras, é que o personagem continua como uma incógnita, e nem mesmo há consenso sobre seu lugar de nascimento.

Aliás, como mostra Laura de Mello, ao longo dos séculos, reinou a confusão. Seus traços se misturaram aos de Tomás Antônio Gonzaga (outro inconfidente) e aos de outro de seus amigos: Inácio José de Alvarenga Peixoto. Talvez por isso Cláudio nunca mereceu uma biografia, nem um esboço biográfico mais alentado, como os que outros letrados e inconfidentes receberam. Sua vida permaneceu na penumbra, assim como sua imagem.

No início dos anos setenta do século XX, Joaquim Pedro de Andrade até que deu um rosto a Cláudio, no filme Os inconfidentes. Um rosto barbudo, que certamente não foi o de Cláudio. O Cláudio de Joaquim Pedro surge barbudo e atormentado, talvez até um pouco além do necessário, mesmo que o poeta tenha sido um homem bem melancólico, como mostra essa sua nova e alentada biografia.

O fato é que agora temos um belo livro nas mãos mas cuja capa terá que obrigatoriamente contrariar a norma da coleção. Ao invés do rosto do poeta, estamos em processo de votação. Alguns defendem que figure apenas a assinatura do letrado. Outros, insistem que a cidade onde Cláudio viveu faria bem as vezes do poeta. Quer votar e ajudar no desempate?

PS: essa pequena nota foi escrita a partir dos dados produzidos por Laura de Mello e Souza para seu novo livro, que tem publicação aguardada (e celebrada) para novembro deste ano.

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raças, As barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.