A morte e as crianças

Por Ernani Ssó

Acho mais difícil escrever para crianças do que para adultos, porque os adultos eu sei (mais ou menos) quem são. Mas acho mais fácil falar com crianças. Não devia. Afinal, numa conversa não dá pra se usar a tecla delete e começar tudo de novo, e o problema de quem são as crianças continua — e de pertinho, ainda por cima. Só que, na maioria das vezes, acontece uma mágica entre nós.

Quando escrevi os Contos de morte morrida e me chamaram para falar com alunos sobre eles, torci como nunca por essa mágica.

Logo no começo da pesquisa para escrever o livro, me dei conta de que a Morte era apenas outra personagem, como a bruxa ou o ogro, tanto que vinha em maiúscula. Agora tive a comprovação disso com crianças bem pequenas: perguntei a elas se a Morte andava por aí encapuzada e com uma gadanha. Claro que não, foi a resposta geral. Elas sabiam que essa Morte, em seu belo modelito medieval, é apenas uma imagem para podermos aprender a lidar com a outra, a que se escreve com minúscula. O fato de alguns pais acharem que protegem os filhos se calando sobre o assunto, ou afastando-os de livros que tratam dele, é outra história complicada, bastante parecida com a da avestruz.

Outra personagem apenas? Não. A Morte emociona mais — mais até que a bruxa, a campeã absoluta na modalidade meter medo. Por exemplo, algumas crianças me contaram que os irmãos maiores, os pais e os avós leram os Contos de morte morrida. Havia nessa revelação uma ponta de ironia e também de orgulho. É que a maioria das famílias ignora as leituras dos filhos na escola, ou não tem muita paciência com elas.

A Morte vinha me proporcionando boas alegrias, mas dentro de uma faixa segura, digamos: dos oito anos para cima. Então fui convidado a falar na escola Pato, uma das mais antigas de Porto Alegre, fundada em 1967, e referência na educação infantil. A turma da professora Patrícia Dexheimer, com crianças de cinco para seis anos, faz seu último ano por lá. Como preparação de saída para o ensino fundamental, há muitas atividades que envolvem separação, perda, mudanças, essas coisas. Foi assim que a Patrícia teve a ideia de ler os Contos de morte morrida em aula. No início, algumas crianças se mostraram receosas, mas depois da leitura da apresentação do livro (que também é uma história), a Morte, com sua velha gadanha, conquistou a turma. Um detalhe interessante: a pedido de alguns alunos, os finais dos contos foram lidos mais de uma vez, para que não houvesse dúvida de que os personagens tinham morrido mesmo.

Um dia, na biblioteca, com as crianças folheando livros e revistas, a professora Patrícia ouviu o seguinte pingue-pongue:

— Olha, o Cebolinha morreu aqui.

— Mas essa revista não é do Ernani Ssó.

— Claro que não. Não é só ele que escreve sobre a Morte.

Como, felizmente, a Morte não é monopólio meu, as crianças resolveram criar uma história, inclusive parodiando meu estilo. O papel da professora, é bom que fique claro, foi apenas o de secretária.

Na minha alegria, só não soltei foguetes porque sou contra foguetes. Se eu precisasse de uma prova de que não devemos subestimar as crianças, de que devemos apostar sempre na inteligência, os alunos da professora Patrícia teriam me dado uma das melhores. Vejam como pegaram direitinho o espírito da coisa:

A Morte e o palhaço

Há muito tempo, quando os bichos falavam e existia um monte de cachoeiras na cidade, uma pessoa deu uma festa e convidou o palhaço.

O palhaço apareceu na festa e a Morte veio conversar com ele. Já estava perto da meia-noite, e ela falou:

— Aproveite bem a festa enquanto viver.

A Morte foi embora.

O palhaço se divertiu muito fazendo palhaçadas, mas depois se fantasiou de convidado e saiu da festa.

Quando a Morte chegou e procurou pelo palhaço, não o encontrou. Foi até a casa dele, bateu na porta e ninguém respondeu. Aí a Morte derrubou a porta com a gadanha e entrou.

A Morte procurou, procurou e achou o palhaço escondido dentro do fogão, que estava ligado. Aí ela falou:

— Cheguei bem na hora!

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Ernani Ssó nasceu em Bom Jesus, RS. Tem livros para adultos, mas prefere os infantis. Dele, a Companhia publicou Contos de morte morrida e Virou bicho!, entre outros. Tem uma coluna semanal no site Coletiva.net.