Identidades secretas

Por Erico Assis


(Foto por Rico Ramirez)

Subitamente ele puxou a manga da camisa para mostrar a tatuagem. Não lembro como que a conversa chegou a gibi, pois eu estava na minha identidade Clark-Kêntica de professor universitário. Ele era um professor visitante, que mencionou algo remotamente ligado a gibis. Engatei “então você também é chegado em quadrinhos?” e ele puxou a manga da camisa.

No antebraço, perto do cotovelo: “Wolverine”, na tipografia clássica do gibi.

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Às vezes tenho essa impressão de que ser leitor de quadrinhos é como fazer parte da Maçonaria: um aperto de mão especial, um padrão arcano na assinatura ou uma tatuagem é senha para dois, ahm, “irmãos” se reconhecerem. Certamente era assim antes dos filmes tornarem cool ler gibi. Hoje é fácil encontrar correligionários na livraria, por conta da seção de HQ. Mas puxar o assunto “o que você achou do último Batman do Morrison?” com um desconhecido ainda é risco de suicídio social.

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Estou escrevendo isso nos intervalos dos feed alerts da San Diego Comic Con, maior congregação geek do mundo ocidental. Quando começou, há quarenta anos, ia-se lá para trocar edições antigas ou conversar sobre gibi sem que os outros tivessem que mostrar a tatuagem para você saber que estava em ambiente seguro.

Hoje, HQ tem espaço cada vez mais reduzido no evento – Hollywood e outras indústrias de entretenimento descobriram que há uma relação recíproca entre o arregalar de olhos dos presentes e as vendas de produtos geek como filmes, bonecos, seriados de TV e games. O mercado encontrou uma serventia para nosso mundinho: somos tubo de ensaio. É nosso superpoder.

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No início da semana que terminou com a Comic Con, saiu na América do Norte o sexto e último volume de Scott Pilgrim. A sessão de autógrafos do primeiro volume, de 2004, tinha gerado uma fila de 50 amigos de Bryan Lee O’Malley na The Beguiling, comic shop de Toronto (onde O’Malley foi atendente). Duas mil pessoas lotaram a rua em frente à loja, esperando a abertura das caixas do volume 6 à meia-noite da terça-feira. O lançamento à moda Harry Potter se repetiu em algumas lojas dos EUA e do Canadá. Na Beguiling, O’Malley ficou autografando até as 3 da manhã.

“Ouvi pessoas dizerem que Scott Pilgrim é o único gibi que já leram, então com sorte podemos achar outros gibis que elas possam gostar. Você já assistiu Kung Fu Futebol Clube (Shaolin Soccer)? No final, ele transforma todo o mundo em Shaolin. Eu gostaria de usar esse pouquinho de influência para fazer mais gente se interessar por quadrinhos. Quero todo mundo lendo ou fazendo quadrinhos”, diz O’Malley numa entrevista. É outra característica das nossas identidades secretas: estamos sempre buscando gente com quem conversar sobre os gibis.

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Esse discurso, aliás, foi forte nos anos 90, principalmente nos EUA: todo leitor de HQ deve responsabilizar-se por converter não-leitores. Senão, o mercado vai afundar. A estratégia nunca deu muito certo. Geeks não costumam ter uma cara confiável para recomendar bons hábitos, e vão continuar invisíveis se tentarem lhe dizer que gibis são legais.

A internet deu impulso à “imprensa fã” (da qual faço parte), responsável por difundir cada migalha de informação liberada pelas editoras. A assessoria da Companhia das Letras, aliás, confirma que os leitores da linha Quadrinhos na Cia., comparada a outras linhas, são os que mais replicam informações sobre os lançamentos.

Mas foram os filmes que conseguiram levantar o mercado, em quase todo o mundo. Mesmo assim, ainda são poucos os casos em que o interesse despertado por uma adaptação cinematográfica de HQ transborda para algo além da própria HQ adaptada.

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O’Malley não quer um mundo onde todos sejam dedicados leitores de HQ e convirjam anualmente à San Diego Comic Con. Quer apenas que você possa conversar com um desconhecido sobre o último Batman do Morrison assim como fala do filme da Angelina Jolie ou do disco do Gorillaz. Onde leitor de gibi não precise ser identidade secreta.

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A propósito, minha tatuagem é da Morte (a irmã do Sandman).

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.