Quase lá

Por Erico Assis


Estátua da personagem Mafalda em Buenos Aires. À esquerda está seu criador, Quino, e à direita, o escultor Pablo Irrgang.

Os quadrinhos adaptam o cinema. Algumas HQs serão melhores que o filme original, e grande parte delas, nas mãos de quadrinistas de carreira em ascensão, serão best-sellers de gerar fila em livraria, fanatismo pelos autores, críticas negativas dos grandes jornais, camisetas e tatuagens.

Pais leem Osamu Tezuka para os filhos. A avó dá uma tradicional coleção de Bone para os netinhos. Maus, Um contrato com Deus, Moonshadow e o Homem-Aranha dos anos 60 são leitura obrigatória no colégio, assim como obras de Craig Thompson, Harvey Pekar e do Henfil. Alunos entediados de gibi recorrem a resumos em webcomics. Obras de Angeli andam nas mesmas mochilas sujas de Bukowski.

Nos mestrados em História em Quadrinhos Comparada, o pesquisador se acha transgressor ao pesquisar super-heróis. Paul Chadwick e Jiro Taniguchi ganham títulos honoris causa e fazem sucesso no circuito de palestras. Warren Ellis é convidado anual do TED. Frank Miller dirige comerciais sexy para marcas de perfume, Neil Gaiman ganha prêmios de literatura e os irmãos Hernandez têm apoio financeiro de fundações de arte.

Bryan Lee O’Malley e Dan Clowes são perseguidos pelos paparazzi. Liniers concorre a prefeito de Buenos Aires. Fica em quarto lugar. Bill Watterson continua escondido do mundo e não publicará desenho algum até a morte. Assim como acontece com o catálogo da Taschen, você tem que se contentar com o da Fantagraphics, pois não tem quatro mil dólares para gastar num volume retrospectiva do Chris Ware.

A Chicago das obras de Ware é inspiração nas faculdades de urbanismo tanto quanto As cidades invisíveis de Ítalo Calvino. O New York Times Review of Comics — com resenhas em quadrinhos — só tem críticas desfavoráveis a novos talentos, que são revistas a partir da terceira obra dos mesmos. Isto não impede as filas nos museus para exposições de Kioskerman, Adrian Tomine e Winshluss. Joann Sfar recebe um Nobel de Literatura, mas depois diz à imprensa que o aceitou por educação. O que faz, diz, não é literatura, e sim “bande dessinée”.

O Crumb Day é comemorado todo dia 30 de agosto em 83 países: os homens devem passar o dia de terno de tweed, trocando observações ranzinzas sobre o cotidiano e ouvindo blues dos anos 20. Mulheres esteatopígias dispõem-se a carregá-los.

Adolescentes cometem suicídios coletivos após rituais de leitura de André Dahmer. Associações de pais, de católicos, de velhinhas e de deputados fazem campanhas contra os gibis. Associações internacionais de fãs traduzem, editam e disponibilizam versões piratas, em quatro idiomas diferentes, de cada edição de Superman, 36 horas após o lançamento original. Joe Sacco é constantemente acompanhado por guarda-costas após as ameaças de morte. Tabelas de product placement nos gibis são reajustadas anualmente.

O povinho cool esnoba gibi — a nova novidade é assistir TV. A Bélgica triplica o PIB ao perceber que não precisa muito para declarar-se país dos quadrinhos, exaltando o turismo quadrinófilo acima do tripé história-chocolate-cerveja. Gipi é adido cultural da Itália na Bélgica. Scott McCloud é adido cultural dos EUA na Bélgica. Carlos Trillo é adido cultural da Argentina na Bélgica. Naoki Urasawa é adido cultural do Japão na Bélgica. Fábio Zimbres é adido cultural do Brasil na Bélgica. A França continua como está.

Não há mais sentido em lojas que só vendem quadrinhos, pois eles estão nos supermercados, nas farmácias, nos cinemas, nas lojas de departamentos e na primeira página de qualquer app store. E o galeão d’Os Piratas do Tietê está na Avenida Paulista — em bronze. Laerte é a figura de proa, que pisca para os passantes.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.