Uma noite em Frankfurt


Corredor do pavilhão de editoras internacionais (Foto por: Frankfurter Buchmesse/ Alexander Heimann)

Divido com vocês como será minha noite de hoje, quinta–feira, 7 de outubro de 2010, em Frankfurt:

19h00: Coquetel com Rafaella de Angelis, agente da William Morris, de quem compramos os direitos de autores como Alice Munro, Simon Winchester, Bill Clegg e Suketu Mehta, entre outros.
Rafaella é uma velha amiga, adora o Brasil. Vou encontrá-la no Hessischer Hof, hotel que fica em frente ao Pavilhão da Feira.

19h30: Coquetel da Shangai 99, uma das editoras literárias mais importantes da China. O editor é um extraordinário mecenas das artes, e é cego. Tenho um encontro com ele, em nosso estande, no dia seguinte. Coisa para não esquecer por toda a vida. O coquetel será no hotel Frankfurter Hof, onde acontece o maior agito social da Feira. Antigamente eu me hospedava neste hotel, mas decidi trocar pelo Hessischer Hof, um pouco menor, mas com menos hype social. Nos saguões destes dois hotéis, os editores se encontram antes da Feira começar, em reuniões disputadíssimas. A ideia é saber antes dos outros o que há para comprar. Caí fora dessa disputa maluca e este ano chego a Frankfurt um dia depois do evento começar. A terça-feira nos saguões desses dois hotéis é o que há de mais deprimente na semana. Editores se amontoando nas salas e se degladiando por mesas. Cheiro de cigarro, muito barulho. É comum esbarrar com alguma estrela literária hospedada nos melhores endereços da cidade.

Nunca me esquecerei de quando dividi o elevador do Frankfurter Hof, onde cabem no máximo cinco pessoas, com Umberto Eco e Tom Wolfe. O primeiro com sua barba e barriga inconfundíveis, e o segundo de terno bege, chapéu… Os dois conseguiram se ignorar. Eu não sabia bem para onde olhava, se olhava. Mirava o chão e torcia o olhar para os lados, alternadamente, disfarçando.

Em outra ocasião segui meu falecido amigo, o escritor e editor Severo Sarduy, para um coquetel em homenagem a Patricia Highsmith nesse mesmo hotel. Ao chegar no enorme salão, vi nossa autora favorita andando sozinha de um lado para o outro, sem ninguém por perto. Aproximei-me e me apresentei como seu editor brasileiro. Levei um chega pra lá enfático, com direito a braços no ar, resmungos e xingamentos. Não foi difícil entender por que tanta solidão cercava a grande autora de romances policiais.

19h30: Nesse mesmo horário tenho que estar no restaurante Orfeo’s Erben para um coquetel em homenagem a Jonathan Franzen, que acaba de publicar Freedom, o romance de maior repercussão nos EUA nas últimas décadas. Estou lendo o livro e adorando. Quero convidar Franzen mais uma vez para vir ao Brasil, até agora ele sempre recusou. Coquetel obrigatório.

19h30: Coquetel da editora Seuil, uma das mais prestigiosas da França. A festa sempre ocorre na suíte do publisher da editora. Não poderei comparecer, mas a Lili (editora) e a Ana (responsável pelo departamento de direitos estrangeiros da Companhia) estarão lá.

20h00: Jantar oferecido por Andrew Wylie, em homenagem a Alaa Al Aswany, autor egípcio de quem publicamos O edifício Yacubian e vamos publicar Friendly fire. Andrew é um dos agentes literários mais importantes da atualidade, e que representa vários de nossos autores. Avisei que darei um pulo. Local: hotel Hessischer Hof. Talvez não consiga.

20h00: Jantar da Hanser Verlag em homenagem a seus autores presentes na Feira. Este é o evento social mais disputado da feira. Para o jantar, tradicionalíssimo, são convidados poucos ou apenas um editor de cada país. O seating era sempre delicado para mim. Bastante tímido nesses momentos, apesar de conhecer a todos e ser amigo próximo de vários editores presentes, sempre me torturo pensando “com quem vou sentar, será que vão me convidar?”. Fiquei mais tranquilo quando há alguns anos formamos um grupo fechado que passou a sentar-se sempre junto, com Carol Janeway da Knopf, Roberto Calasso da Adelphi, e Ravi Mirchandani da Atlantic UK. Ano passado, no entanto, o Calasso, que era editado por Carol nos Estados Unidos, mudou de editora. E, claro, mudou de mesa no tal jantar. Fiquei dividido: seguia com Roberto, ou ficava com Carol e Ravi? Fiquei. Este ano o problema já está resolvido: um dos homenageados da noite será David Grossman, o autor israelense que também receberá na Feira o importante prêmio da Paz, concedido todo ano pelos livreiros alemães. Como não teremos outra oportunidade de botar a conversa em dia, combinamos que sentaríamos na mesma mesa.

22h00: Encontro com Patrizia da Shangai 99 após os respectivos jantares. Não havia horário comum em nossas agendas para falarmos de livros a não ser este. Terei que enfrentar o maldito saguão do Frankfurter Hof, antes de ir para o meu hotel. Lá terei comigo planos de livros e trechos de romances, que os agentes esperarão que eu leia para discutir no dia seguinte — o que é pouco provável que farei.

Essa será a minha noite. Que passe logo.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.