Aos pés do Cristo Redentor

Por Luiz Schwarcz

Acompanhar autores estrangeiros em visita ao Brasil já foi assunto aqui várias vezes. Duas semanas atrás tive o prazer de mostrar um pouco do Rio de Janeiro para Ingrid Betancourt. Sou conhecido como um editor paulista, ou paulistano. Meu sotaque não permite confusão. E em vários momentos polêmicos, o local onde nasci — São Paulo e não Rio de Janeiro — contou bastante, para muitos.

No entanto, a verdade é que adoro o Rio de Janeiro, onde tenho grandes amigos, e os eventuais tours que faço com autores em nada me incomodam.

É curioso ver como alguns deles preferem a beleza do Rio de Janeiro à nossa sisudez paulista, e outros não. Susan Sontag, com quem falei durante vários dias sobre o Rio, pedindo desculpas pelo ambiente cinza de São Paulo — onde realizávamos a maior parte dos eventos de promoção dos seus livros —, não achou nenhuma graça em Copacabana, Ipanema, e em tantas paisagens lindas. Ameaçou, como já contei em outro post, mudar-se de mala e cuia, para… São Paulo.

Já para Ingrid eu nem precisei perguntar. Notei em sua expressão o impacto da beleza carioca. Imagino que nada pode ser mais diferente do que os anos de cativeiro na selva e as praias do Rio, ou a vista do Corcovado.

Na rápida convivência que tivemos, ela se mostrou delicada e sensível. Adorou conhecer e conversar com o Presidente Fernando Henrique Cardoso e com escritores como Drauzio Varella e Milton Hatoum. Foi apresentada a Pilar Del Río em minha casa. Eu imaginava, e havia dito às duas, que elas teriam muito em comum. Aconteceu mais do que isto, ficaram amigas íntimas em cinco minutos, e trocaram emails por horas, logo que a festa acabou: a Pilar do quarto das minhas netas, e Ingrid em seu hotel.

Ao chegar no Rio perguntei a ela se gostaria de ir ao Corcovado. A resposta foi imediata, e em poucos minutos estávamos no carro, subindo na direção do Cristo.

Lá Ingrid foi reconhecida por duas meninas colombianas, que pediram para tirar fotos a seu lado. O fotógrafo fui eu, para infortúnio das duas garotas. Mal consigo enquadrar uma foto (como você pode ver na imagem acima), e muitas vezes minha leve dislexia se apresenta logo: na dificuldade de acertar o botão da máquina.

Entre uma foto e outra, tomamos um suco no bar aos pés do Cristo. Lá Ingrid me perguntou se eu acreditava em Deus. Falei a verdade. Ela não se importou.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.