Compromisso?

Por Mariana Mendes

Foi minha a ideia de lermos O xale, de Cynthia Ozick, no segundo encontro do Clube de Leitura aqui da editora. São encontros mensais que acontecem durante o horário de trabalho, mais conhecido como expediente, nos quais conversamos livremente sobre determinado livro. O clube é uma experiência nova da editora, algo que faz muito sucesso, principalmente nos Estados Unidos, e estamos começando a implementar em algumas capitais brasileiras.

O bom do clube é que não há regra nem autoridade, cada um fala o que quer, desde as impressões mais subjetivas até a opinião sobre a capa do livro. Existe, no máximo, um mediador pra pôr ordem e não deixar que sempre os mesmos falem o tempo todo, mas sua função é ser discreto e interferir apenas se necessário. A ideia do clube soou estranha (pra mim) no início — afinal, é comum querermos resultado, aprendizado, mas em tese o clube não existe para ensinar nada. A ideia é compartilhar, dividir a experiência da leitura. Se isso parece pouco, basta pensar no quanto você lê e no quanto para e comenta (tranquilamente) sobre algo que leu por puro prazer. Culpa da falta de tempo?

No clube compartilhamos nossos pontos de vista. Tudo bem que opinião está fora de moda, principalmente se você não é um formador de. Valorizado hoje em dia é o embasamento, o argumento e a justificativa. Sim, entendo a importância de fundamentarmos o que dizemos, não jogar palavras ao léu, mas não sou contra existirem momentos em que seja permitido falar sem pensar, por intuição, sem medir consequências. O clube não é um espaço sério, que delícia!

E se até agora só falei da experiência agradável que foi a nossa reunião, falta dizer o quanto a escolha desse livro, particularmente, foi feliz. Entre os integrantes do nosso grupo, poucos tinham ouvido falar de Cynthia Ozick. Eu mesma, autora da brilhante ideia, não tinha uma atração especial pela escritora, mas me lembrava de ter ouvido elogios ao livro, ao menos internamente. Essa intuição, algo que nos leva muitas vezes a um livro qualquer e que depois se abre de sentidos pessoais, juntou-se à vontade de ler uma mulher contista, algo não tão frequente em nosso catálogo — e ainda pesou muito o fato de o livro ser curto. Viva a brevidade, tão importante na conciliação das agendas!

Editado pela Companhia em 2006, este livro esbelto, de capa azul, com meras 88 páginas, é um soco na boca do estômago do leitor. São dois contos independentes, “O xale” e “Rosa”, interligados por uma personagem lacônica que vive uma perda irreparável durante o holocausto. Trinta anos depois, na segunda história, acompanhamos essa mulher vagando por Miami em busca da vida que lhe foi arrancada. Publicados separadamente na revista The New Yorker, na década de 80, juntos formam uma peça monumental, pela força com que lançam o leitor para dentro dessa consciência hipnótica e perturbadora.

A sensação de descoberta por termos lido algo raro, um livro acomodado em nosso catálogo sobre o qual pouco se falou, valorizou ainda mais nossa experiência. E assim o clube nos obriga, agradavelmente, a criarmos em nossas agendas mais um compromisso de leitura. Nessa sexta, 19 de novembro, vamos de Infância, do Coetzee.

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Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.