A ficção nas cartas de Bruce Chatwin

Por Luiz Schwarcz


Bruce Chatwin em visita a Benin, país africano onde se passa parte da história de O Vice-Rei de Uidá. (Foto por J Kasmin)

A correspondência é um dos tesouros de um editor. Desde que comecei a escrever no blog, andei remexendo, com a ajuda do Luis Felipe (que está organizando os arquivos históricos da editora), na montanha de cartas da era pré-internet. Infelizmente, algumas que recebi e considero como momentos marcantes da história da Companhia das Letras não foram achadas. Entre elas uma enviada por Rubem Fonseca comentando em detalhes os quatro primeiros livros editados por nós.

Talvez o primeiro escritor estrangeiro a me escrever, quando a editora ainda se encontrava nos fundos da gráfica de meu avô, tenha sido Bruce Chatwin. Para os que não conhecem Bruce, foi um grande escritor de romances e narrativas literárias de viagem e não-ficção. O primeiro livro que contratamos dele foi O Vice-Rei de Uidá, uma história sobre um traficante de escravos que atuou entre a África e o Brasil. Ao saber da assinatura do contrato para edição deste livro, que estava sendo filmado pelo cineasta Werner Herzog, Bruce Chatwin me escreveu e começamos uma pequena troca de cartas, que reproduzo abaixo.

As cartas de Chatwin são muito bonitas, tratam da universalidade da literatura, e me deixaram envaidecido e tocado ao recebê-las. Depois vim a saber que o autor costumava dar asas à imaginação nos episódios de sua vida que narrava, com tanta beleza. Vejam abaixo as aventuras brasileiras deste adorável autor inglês, e julguem vocês mesmos se elas aconteceram na realidade ou não.

Troca de cartas entre Luiz Schwarcz e Bruce Chatwin em 1987

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Oxford, 20 de Junho de 1987

Caro Luiz Schwarcz,

Eu fico especialmente feliz em saber que dois de meus livros estão sendo publicados no Brasil: eu tenho uma fantasia de, um dia, quando (e se) eu ficar velho, me tornar um cavalheiro de paletó branco, chapéu panamá e bengala, morando acima de um café numa cidade brasileira do Nordeste (Cachoeira, próximo à costa da Bahia, me cairia bem), quando eu iria, finalmente, conhecer a literatura de meu próprio país, e ler Jane Austen ou Dickens com uma sensação de descoberta.

Infelizmente, Werner Herzog não conseguiu a documentação necessária para filmar no Brasil, e então O Vice-Rei (agora batizado de Cobra Verde) foi feito na Colômbia. Eu vou a Munique para assistir ao primeiro corte em agosto.

Eu considero isso um privilégio — um privilégio muito maior que, digamos, fazer parte da Royal Society of Literature ou ser membro do Círculo de Correspondência de São Luís do Maranhão. Lá sim há uma verdadeira compreensão da literatura!

Por exemplo, em Picos, uma região do Piauí com um dos maiores índices de mortalidade infantil da América do Sul e, sem dúvida nenhuma, uma área em recessão — e mesmo assim, na janela da livraria, estão:

a) De profundis, de Oscar Wilde
b) La condition humaine, de Malraux
c) Um livro sobre o Teatro Experimental Soviético de Meyerhold

Este, para mim, é o verdadeiro significado de “cultura global” —  e este é o meu principal interesse. Você poderia, portanto, sempre que um livro meu for lançado, enviar uma cópia para Nascimento Moraes Filho?

Ele é um escritor local que publicou um livro de adivinhas (o que é o que é?) que eu mantenho como livro de cabeceira. As conversas sobre literatura que tive com seu círculo de amigos são as melhores de que consigo me lembrar.

Como você pode perceber, eu adoro o Brasil!

Sinceramente,

Bruce Chatwin

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São Paulo, 1º de Julho, 1987

Estimado Bruce Chatwin,

Fiquei muito feliz de receber sua carta tão simpática.

Eu sempre gosto de me corresponder com os autores, mas os autores nem sempre estão interessados em conversar com editores de países tão distantes.

Também fiquei muito feliz em saber de seus interesses e de sua atitude em relação à literatura.

Minha editora, fundada um ano atrás, é agora um grande sucesso no Brasil, publicando apenas boa literatura e ensaios de qualidade. Junto com você estão autores como Edmund Wilson, Bernard Malamud, Hannah Arendt, Gore Vidal, Cabrera Infante, Stefan Zweig, Elias Canetti, V.S. Naipaul e outros.

Nós conseguimos até colocar Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, no 1º lugar da lista de mais vendidos por 20 semanas, com quase 50 mil cópias vendidas no Brasil. Não é este o verdadeiro sinal de que é na literatura que encontramos nossa única esperança?

Para mim foi um imenso prazer publicar seu O Vice-Rei de Uidá, e lhe mando uma cópia para avaliação, além de resenhas e reportagens que saíram na imprensa brasileira. Se necessário, podemos traduzir alguns dos artigos.

O livro teve uma boa acolhida inicial, e eu tenho certeza de que isso irá melhorar ainda mais com o filme.

Espero um dia vir a lhe conhecer pessoalmente, seja na Inglaterra ou no Brasil. Nós recebemos, aqui da imprensa brasileira, pedidos  de textos exclusivos sobre sua viagem pelo Brasil. Se esse tipo de colaboração for de seu interesse, por favor, me avise.

Muito obrigado, novamente, por sua mensagem tão agradável.

Saudações,

Luiz Schwarcz

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Oxford, sem data

Querido Luiz,

Muito obrigado pela sua carta. Eu ainda não escrevi nada sobre a minha viagem ao Nordeste brasileiro: e se eu colocasse minhas mãos para trabalhar nisso agora, pelas minhas anotações, o resultado provavelmente seria uma ficção.

Mas uma coisa bem incrível aconteceu comigo. Em Recife, eu fui visitar, e almocei com, o falecido mestre Gilberto Freyre, que, ouvindo sobre o meu interesse em Dahomey e o tráfico negreiro, me aconselhou a ir a dois lugares: I) uma igreja de uma Irmandade Negra em Olinda; II) uma plantação na ilha de Itamaracá, onde o açúcar talvez tenha sido plantado pela primeira vez nas Américas, e onde a casa-grande, a senzala, a capela e o engenho de açúcar estariam mais ou menos intactos.

Eu fui, primeiro à igreja, onde tomei notas elaboradas sobre uma série de esculturas retratando a Via Crucis e um peculiar Cristo Morto ensaguentado. Então eu fui a Itamaracá, mas, a caminho da plantação, eu inconscientemente invadi uma prisão que abrigava presos políticos. Preso, algemado e levado à Prisão do Governo (onde havia um retrato do General Geisel com um olhar não muito amigável pregado na parede), eu fui acusado de ser um padre marxista que havia vindo ajudar os prisioneiros a escapar. Eu tentei, pensando que o orgulho me tiraria dessa, evocar o nome do Professor Freyre,  só para ouvir que “pessoas como eu” não conheciam pessoas como o grande professor. Eu lancei mão de outros nomes… Robert Burle Marx etc… nenhum proveito… Finalmente, eles me fizeram traduzir as minhas anotações, e quando eu cheguei à descrição dos ferimentos do Cristo Morto, eles pareciam imaginar que isso era também uma descrição, em código, do trabalho deles.

Nesse momento eu fiquei bem temeroso: mas no final das contas tudo foi resolvido e eu exigi um carro e um motorista para me levar primeiro à plantação e depois de volta ao meu hotel em Recife.

Um dia eu talvez escreva algo sobre isso.

Saudações,

Bruce Chatwin

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.