Saudades de Susan Sontag

Por Luiz Schwarcz

A minha semana foi marcada por dois fatos aparentemente desconexos: a polêmica de Roberto Schwarz e Caetano Veloso, e a visita ao Brasil de David Rieff, o filho de Susan Sontag, que nunca havia tido a oportunidade de encontrar.

Martinha versus Lucrécia, o livro de ensaios de Roberto Schwarz que acabamos de lançar, contém um ensaio sobre o livro de memórias de Caetano, Verdade tropical, publicado também por nós em 1997. O texto de Schwarz valoriza literariamente a obra de Caetano, dedicando ao livro enorme esforço crítico. No entanto, suas divergências com relação ao papel do tropicalismo durante o regime militar, transpostas agora para a análise das memórias do compositor, são substanciais. O atual debate entre as ideias de Caetano e Schwarz dá prosseguimento à posturas opostas, surgidas no calor da hora, no final da década de 1960. Nesse caso, os anos parecem tê-las aprofundado ainda mais.

Escrevo este post no sábado, novamente no aeroporto, sem ter lido parte da discussão, que deverá ser publicada no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo, neste domingo. Caetano, em entrevista para O Globo, reagiu com muita sobriedade, respondendo firme mas elegantemente — mantendo o mesmo tom do ensaio de Schwarz — a respeito de sua obra. Para mim foi um alívio. Em outras ocasiões em que autores amigos travaram polêmica, a conversa foi muito mais agressiva, e eu, tradicionalmente de boa paz, me senti no pior dos mundos. Sempre deixei claro que a editora não se prestaria a publicar ataques pessoais a outros autores da casa, mas que estava sempre aberta ao debate — de bom nível — de ideias. No entanto, nossa postura nem sempre foi compreendida, seja por quem teve livros recusados, seja por autores que estiveram no alvo de textos críticos, esperando de mim algum tipo de posicionamento mais pessoal.

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Conhecer o filho de Susan Sontag foi uma emoção. Logo no primeiro momento, identifiquei em David Rieff muitos traços de sua mãe: o amor pela literatura internacional, a vontade de conhecer mundos novos, o prazer gastronômico. Logo que nos encontramos, em vez de deixá-lo falar sobre os motivos que o trouxeram a São Paulo, fui logo contando histórias de Sontag no Brasil. Emendei comentando meus poucos encontros com ela em Nova York, tentando lembrar dos seus lugares favoritos — como um restaurante de Soba no Village, cujo dono fazia arranjos florais sublimes para as mesas. Contei a David que tentei voltar ao local, depois da morte de Susan, mas o restaurante havia fechado. Talvez tenha sido melhor assim, pois guardo na memória aquelas flores brancas e a massa deliciosa, feita artesanalmente, associadas às lembranças de minha amiga. David sabia da amizade que eu tinha com sua mãe, mas não fazia ideia de que ela planejara viver em São Paulo, por seis meses, para dirigir o Parsifal de Wagner, no Teatro Municipal. Também não conhecia detalhes curiosos da estada de Susan no Brasil, parte dos quais relatei num dos primeiros textos deste blog.

Levei David e sua namorada, com a Lili, para jantar num dos melhores restaurantes japoneses de São Paulo. Em sua temporada paulista, Susan gostou muito da comida japonesa local — segundo ela, a melhor que provou, depois da de Tóquio. Em seguida fomos a um concerto da Osesp. Todo o programa seguia um ritual para matar as saudades de Susan Sontag, e a música clássica sempre havia sido uma das grandes paixões da autora de O amante do vulcão. Antes de começar o primeiro acorde do concerto de violoncelo de Dvorak , segurei no braço de David e disse:

— Que emoção trazê-lo para assistir a essa orquestra. Me dediquei um pouco a ela nos últimos anos. Sinto como se estivesse trazendo sua mãe para assistir ao concerto comigo.

No intervalo, contei a David sobre a polêmica entre os autores da Companhia das Letras e lembrei que justamente as duas pessoas que Sontag quis conhecer no Brasil foram Caetano Veloso e Roberto Schwarz.

Foi então que David me perguntou se eu sabia que o último espetáculo a que sua mãe assistiu foi um show de Caetano, em New Jersey. Os médicos já haviam diagnosticado a volta do câncer de Susan, e os prognósticos eram os piores. Naquelas condições, com baixíssima imunidade, ela não poderia sair, principalmente ir a eventos públicos, onde a chance de contaminação seria grande.

Susan insistiu com seu filho e disse:

— Nem que esse seja meu último concerto ou passeio, eu vou.

Em meio a uma troca de e-mails com Caetano, por conta dos episódios desta semana, mencionei que David estava no Brasil, e que me contara a história da ida de sua mãe ao espetáculo em New Jersey. Fui discreto, procurando não incomodar, e não propus um encontro entre os dois. Caetano reagiu prontamente. Sabia que Susan estava bem doente quando a viu pela última vez, e comentou com excessiva modéstia:

—É, ela estava muito mal quando foi ao show e ao jantar que se seguiu. Não sei por que, mas ela gostava de mim.

Em seguida, por iniciativa própria, me pediu para que David o procurasse no Rio.

Pelo visto, Caetano também sente saudades de Susan Sontag.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.