A solidão e a companhia dos livros

Por Luiz Schwarcz


(Foto por Fábio Uehara)

O reencontro com um amigo da época do ginásio trouxe-me lembranças inesperadas e me faz escrever aqui sobre um tema que anda rondando a minha mente. Não sei por que, mas já vinha pensando com certa frequência nos tempos do colégio Rio Branco. Não consigo lembrar da minha infância naquela escola como um momento majoritariamente feliz. Eu era bom aluno, isto é, tinha mais medo de decepcionar meus pais do que vontade de ser popular com os colegas. Prestava atenção nas aulas e não conseguia me juntar ao grupo de garotos que protagonizavam as travessuras, chamando a atenção das meninas e angariando pontos na hierarquia de prestígio da classe. Não cheguei a sofrer bullying provavelmente por algum tipo de instinto de sobrevivência social infantil e principalmente porque eu era um craque no futebol.

Solitário e isolado dos colegas, acabei ganhando alguma popularidade por me destacar nas aulas de educação física, e numa posição que poucos escolhiam: o gol. Minha classe formou um time quase lendário no colégio — fomos campeões do torneio de classes por três ou quatro anos seguidos, e eu no quarto ano do ginásio fui convocado para a seleção da escola, onde joguei por dois anos. Nessas ocasiões, eu tinha permissão para faltar nas aulas e defender as cores azul e branco do tradicional endereço da elite paulista.

Em um determinado ano joguei pelos times de futebol de salão, de futebol de campo e de handebol. Mas antes do meu futebol despontar, ou fora dos campos, eu tinha poucos amigos e vivia bastante só. Assim, após fazer os deveres de casa passei a me dedicar à leitura. No tempo que sobrava, eu me postava na janela e assistia ao jogo de futebol da rua, ou ficava fazendo meus próprios jogos de imaginação.

A partir da minha experiência, fico pensando que muitos leitores se formaram como fruto de algum isolamento social, pois não frequentavam, por alguma razão, os programas mais agitados, ficando longe das farras ou das travessuras juvenis — e assim devem ter se aproximado dos livros com facilidade, já que essa é uma atividade essencialmente solitária.

Anos mais tarde, essa situação mudou bastante, sobretudo quando passei a frequentar um grupo judaico aos finais de semana. Construí muitas amizades, e até esbocei sinais de liderança.

Na escola, porém, o bom aluno era salvo das gozações por causa do goleiro atirado, que aparecia no jornal do grêmio, em fotos acrobáticas. Nos anos da seleção passei a ir todas as noites ao colégio, para treinar, e nos fins de semana dava um jeito de entrar na escola com os colegas do time para jogar futebol, com a conivência do bedel; tudo por puro prazer.

Se não tivesse a bola a meu lado talvez minha relação com os livros fosse ainda maior. Quem sabe poderia ter virado um escritor ou um intelectual de verdade, em vez de ter ficado no meio do caminho. A solidão e a timidez nas aventuras juvenis, combinadas com a alegria de salvar a equipe nos momentos difíceis, forjaram um pouco o caminho para o editor. Lembro-me dos uniformes que eu guardava com tanto cuidado — naquela época os arqueiros usavam cores discretas —, e de quando comecei a usar luvas para proteger meus dedos, que até hoje trazem as marcas das várias fraturas, resultado dos petardos mais fortes dos atacantes. Recordo da solidão na escola, e tento entender o porquê da escolha da posição de goleiro: um jogador que faz e não faz parte do time. Lembro dos grandes craques da posição — aqueles que eu acompanhava nos campos e pela televisão —, sempre vestidos de negro, olhando o jogo de longe, muitas vezes separados do resto dos jogadores, esperando o momento crucial de protagonizarem sua função de heróis do time, como faziam tão bem Gilmar, Manga, Cejas, Claudio, Yashin, Gordon Banks, Rodolfo Rodrigues, Dida…

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.