Dia 4: Vi o Ian McEwan

Por José Luís Peixoto

E ele viu-me a mim.

Por email, antes de chegar ao Brasil, aceitei o convite para ler o poema “E agora, José?”, do Drummond, antes de uma das conversas na tenda principal. Quando soube que ia ser antes da conversa entre o Ian McEwan e a Jennifer Egan pareceu-me que esse foi um daqueles momentos em que o cosmos se organizou para fazer sentido. Eu não tinha chegado a este pensamento mas sei que, se tivesse podido escolher, teria sido justamente essa ocasião que teria escolhido para a minha leitura. Isso, claro, porque gostaria de, se possível, olhar para o Ian McEwan. Olhar para ele teria bastado.

A organização da Flip telefonou a perguntar a que horas poderiam ir buscar-me para me acompanharem à tenda. Agradeci, mas dispensei. Fui sozinho, a pé. Cheguei e, já com o livro do Drummond, fui levado por seguranças a falarem através de auriculares. Cheguei, por fim, aos bastidores. Eles já lá estavam, sentados em poltronas, à volta de uma mesa com bolinhos. Fomos todos apresentados, cumprimentámo-nos e fui chamado a uma mesa, onde me esperavam uma meia dúzia de exemplares do meu último romance. Todos os autores que participam na Flip são convidados a dedicar e a autografar um conjunto de livros que se destinam a bibliotecas da cidade, patronos, etc. Escrevi umas palavras também no livro de honra e assinei um papel que dava autorização a fazer qualquer coisa que não sei muito bem o que era porque não li, presumo que tenha sido autorização para captarem imagens e as divulgarem. Só depois voltei para perto deles.

Os livros do Ian McEwan acompanham-me há anos. Alguns fazem parte daquela lista curta que me rasgou horizontes de pensamento, de escrita e de vida, que me apaixonou. Já conheci autores mais do que suficientes para saber que, muitas vezes, o entusiasmo do afecto que se sente por uma obra não é devolvido pela má disposição ou pela antipatia da pessoa que, por acaso, escreveu essa obra. Por isso, sei que se deve ir devagar, como quem avalia a temperatura da água com a ponta do pé antes de entrar na piscina. Foi o que fiz. O sorriso de McEwan foi amplo, abundante, generoso.

Falámos um pouco e tive tempo para o meu momento de admirador. Disse aquilo que achava que devia de dizer tendo em conta aquilo que já tinha recebido através do trabalho daquele homem. A seguir, enquanto eu estava a fazer a leitura, o Ian McEwan e a Jennifer Egan esperavam atrás do cenário para entrarem assim que acabasse.

Isto teria sido suficiente mas, à noite, voltámos a estar juntos com muito mais tempo. Falou-se de política internacional, de futebol, entre outros assuntos menos graves.

A Flip tem muito a ver com estas histórias. Sobre os escritores que participaram noutras edições, é vulgar ouvir: fulano é muito simpático, beltrano andava aí pelas ruas a passear de chapéu de palha, cicrano adorava cachaça. Na Flip, os leitores observam os autores e, mais tarde, quando vier a propósito de qualquer conversa, irão contar aquilo que viram. Sim, eu sei muito bem que a literatura não é isso mas, pessoalmente, sinto muito prazer em coleccionar essas pequenas histórias, são inofensivas e, como se diz aqui no Brasil: por favor, não cortem o meu barato.

Já hoje, domingo, assisti com o Ian McEwan a uma parte da final de Wimbledon, entre Murray e Federer. Saí a meio porque vim aqui escrever estas palavras. Ele continuou lá, a torcer pelo inglês.

Eu sei que não somos amigos, eu sei que ele não reparou tanto neste encontro como eu, mas não me importa. Aquilo que me importa é que esse encontro aconteceu, nada pode mudar isso, ninguém pode fazer com que não tenha acontecido.

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(Foto do instagram de José Luís Peixoto)

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José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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