Discos compartilhados em um sábado à noite

Por Carol Bensimon

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Um dia, meu cunhado ganhou um tocador de vinil. Um daqueles modernos, com conversor para mp3 via usb, mas, que diabos, era um aparelho de vinil. Ele gostou do presente. Na verdade, acho que ele o desejava fazia tempo; recuperou os discos que tinha guardado na casa dos pais, Engenheiros do Hawaii e essas coisas emblemáticas e, além disso, desenvolveu o hábito de comprar vinis de senhorzinhos posicionados em grandes ruas de cidades brasileiras. Então chamava amigos para audições em sua casa. “Vamos ouvir o álbum tal e tomar cerveja”. Os amigos iam. Os amigos vão.

Pessoas reunidas para ouvir um álbum do início ao fim, isso era uma coisa que me deixava fascinada, porque eu queria que algumas de minhas noites fossem desse jeito, que os amigos soubessem o que estava tocando, que fizessem silêncio de vez em quando para em seguida comentarem “e a entrada desse teclado? uau”, que a música trouxesse uma epifania coletiva e nos estimulasse a contar segredos, em vez de só preencher o espaço vazio da minha sala de estar. Mas, e se eu dissesse: “Vamos ouvir Mellon Collie and the Infinite Sadness de cabo a rabo no sábado em mp3?” Eu me pergunto quem me levaria a sério. Não era possível fazer isso a partir de um ipod. Você precisava do meio vinil para dar sentido ao objeto música.

Não vou mentir: a necessidade de se criar todo um teatrinho para então ressignificar as canções me parece bastante plausível e, ao mesmo tempo, completamente inaceitável. Acho que, a partir daí, é preciso admitir que a facilidade estragou grande parte de nossa fruição; que eu tenho saudade do tempo que conhecia as letras das músicas e do tempo que eu e meus colegas tocávamos as mesmas canções da Alanis Morissette e do Hole todo santo dia no violão; 10.000 discos no bolso não valem a calça lee batalhada pelos meus pais nos anos 1970.

Quer ver como a facilidade detona a experiência? E como adoramos ela, mas, ao mesmo tempo, sentimos uma ânsia de nos meter em complicações, em ver o mundo mais fechado novamente (vinil)? Eu ganhei um rádio de aniversário. É um rádio vintage bonitão, para compor com pés-palito e essas coisas. E mais: havia a possibilidade de ele captar ondas curtas. Creio que todo mundo já ouviu falar de ondas curtas, essas que se propagam e vão muito longe, de forma que você pode ouvir a programação de uma estação russa no sul do Brasil, se as condições atmosféricas ajudarem. Eu adorei a ideia. Eu fui para o topo do prédio, girei o dial e fiquei tentando. Até o barulho da estática me fascinava, e o que dizer sobre as mensagens em código morse? Infelizmente, as coisas não passaram disso; eram ondas longas, não curtas, de forma que o máximo que eu consegui captar foi uma estação paranaense chamada Rádio Rural. De todo o modo, o que quero dizer com isso é que eu estava fascinada com a possibilidade de ouvir uma rádio longínqua, mesmo que milhares delas estejam disponíveis na internet, mas eu não queria milhares, eu queria uma, duas, três. Eu já pensava em reunir os amigos no terraço para ouvir música turca com estática.

Você vai dizer que estou há quatro parágrafos falando de música. É, eu estou falando de vida e música, mas tudo bem, onde está a literatura? Eu escrevi em um texto do ano passado que a literatura era a maior das transgressões. Não estava me referindo ao conteúdo dos livros, mas simplesmente ao ato da leitura: o tempo que você dedica para ler um livro inteiro, e o quanto isso parece maluco no mundo apressado de hoje. Nesse sentido, pegar qualquer livro para ler é como ouvir um vinil com a máxima atenção. Música é um troço incrível, mas facilmente pode ser jogada para um segundo plano. Com o livro, bem, acho que nem querendo você pode fazer algo enquanto lê.

Ok, a literatura é uma resistência então, uma resistência solitária. Mas o que fazer quando queremos resistir coletivamente? Quem vai descobrir comigo o álbum de 1972 do Van Morrison?

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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