Resenhando os Quadrinhos

Por Érico Assis

C.A.F.K.A.  A sigla quer dizer “comics aren’t for kids anymore”, ou “quadrinhos não são mais para crianças”, frase que aparece nas críticas de HQs desde que o Crumb era cadete, mas que segue repetida como se fosse novidade. Nos EUA, segundo Dylan Meconis, já virou tão clichê que os entendidos criaram a sigla. Como em “lá vem mais uma resenha CAFKA” e “que CAFKA o seu comentário” (lembre-se de usar na sua próxima discussão sobre quadrinhos).

Meconis, quadrinista, escreveu um artigo que circulou bastante nos últimos dias chamado “Como Não Escrever Críticas de Quadrinhos” (em inglês, aqui). Circulou merecidamente, pois é um resumo preciso, contundente, bem humorado e bem ilustrado sobre as armadilhas em que caem os resenhistas de quadrinhos — principalmente os críticos que, vindos sobretudo da crítica literária, são incumbidos de comentar um livro com desenhinhos que se diz “gréfic novel”.

“Alguns destes críticos não passam de babacas, ressentidos porque o editor arrancou-lhes das mãos as provas do novo Houellebecq e trocou por um livrinho imbecil cheio de figurinhas. Figurinhas. Só o Umberto Eco tem licença para usar figurinhas!”, satiriza Meconis. A autora levanta dez pontos periclitantes das críticas, como a insistência em ligar o sucesso de filmes baseados em HQs a todas as HQs, a incapacidade de ver que palavras e imagens devem funcionar em conjunto e o involuntariamente-preconceituoso “esta HQ é tão boa que parece um livro de verdade!

A implicância mais perspicaz de Meconis é com a preguiça dos resenhistas em entender minimamente a linguagem dos quadrinhos para poder resenhar. “Você chamaria uma pincelada de ‘posta de tinta’?”, ironiza. As “fumacinhas” ou “bolhas” sobre os personagens têm nome: são balões de fala. “Gibis” ou “revistinhas” são termos que muitos consideram problemáticos, prefira “quadrinho” ou “HQ”. Recomenda-se pelo menos um livro sobre linguagem dos quadrinhos (em português, há Desvendando os quadrinhos, de Scott McCloud, Quadrinhos e arte sequencial, de Will Eisner, A leitura dos quadrinhos, de Paulo Ramos, ou Linguagem HQ: conceitos básicos, de Nobu Chinen, dos que eu lembro. Um basta.)

Assim como exige-se do resenhista literário ou crítico musical, é requisito ter certo repertório sobre a história e as variações da mídia. Os quadrinhos ainda não têm idade para esnobar um “cânone”, mas saber que Mônica é diferente de Maus, de Marvel, de mangá e de Moebius já ajuda. O bom resenhista fornece contexto: as correntes históricas a que a obra resenhada pode se conectar, a comparação com os principais expoentes contemporâneos. São pontos de apoio para ajudar o leitor da resenha a entender a leitura que o crítico está fazendo do que lhe coube resenhar.

No fim das contas, a discussão é tão velha quanto o C.A.F.K.A.: quadrinhos são quadrinhos. Não são literatura, não são livros ilustrados, não são storyboard de cinema, não são artes plásticas e as figurinhas não se combinam com o texto por acaso. Nada impede que quadrinhos sejam resenhados em comparação a outras linguagem, mas a crítica não pode ficar só nestas comparações, e sim respeitar os quadrinhos como linguagem própria, com técnica, história e vertentes próprias.

O que Meconis não ressalta no texto, embora seja algo que provavelmente recomendaria, é que não se deve restringir resenhas de quadrinhos aos fartamente entendidos em quadrinhos.  Por mais que um quadrinho não seja uma obra literária, nem uma peça de teatro, nem um filme, ler uma HQ é tanto uma experiência quanto a experiência de um filme, de uma peça, de um romance. Todas as recomendações que a autora faz vão na direção de como relatar esta experiência de forma profissional. E isto pode ser feito muito bem — como muitas vezes é — por um resenhista mais versado na literatura, no cinema, nos games. O cerne da construção de uma resenha, de quadrinhos ou do que for, é sempre o mesmo: o que ela lhe provocou? O que toda técnica, relações históricas, terminologias e comparações querem, enfim, é uma reação.

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Aos que deixaram comentários ou enviaram e-mails para responder à pesquisa da minha última coluna, sou muito agradecido. Ainda vou tratar de todos vocês numa próxima coluna.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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