Do catálogo: Na Patagônia (Bruce Chatwin)

[Uma vez por mês o editor Leandro Sarmatz falará de algum livro do catálogo da Companhia das Letras que merece ser conhecido pelos leitores. Livros que foram fundamentais para a trajetória dele como leitor. E que ele espera, quem sabe, um dia terem esse papel na vida de outros leitores.]

Por Leandro Sarmatz


Quando jovem funcionário da casa leiloeira Sotheby’s, Bruce Chatwin (1940-1989) era famoso pelo “bom olho”: avaliava a autenticidade de uma obra de arte em pouco mais de uma fração de segundos, e sem erro. Tal habilidade foi transposta para seus livros, a começar pela sua estreia, Na Patagônia, publicado originalmente em inglês em 1977.

Naquela década, Chatwin trabalhava no jornal Sunday Times fazendo entrevistas e relatos de encontros com pessoas como Nadezhda Mandelstam (viúva de Ossip Mandelstam, o maior poeta da língua russa do século XX, cujos livros de prosa foram uma de suas principais influências), Ernst Junger (o grande escritor milico da Alemanha), entre outras figuras graúdas. Porém estava insatisfeito. Desde há muito já pensava em escrever um longo tratado sobre nomadismo, a seu ver a grande condição humana, algo não só cultural mas também gravado em cada uma de nossas células. Então resolveu percorrer o extremo sul do continente americano. Demitiu-se do jornal com um telegrama já bastante famoso: “Fui pra Patagônia”. Pronto: estava começando ali a odisseia que iria reinventar os livros de viagem, uma tradição eminentemente inglesa (ver Abroad, do grande crítico Paul Fussel, sobre a linhagem dos autores-viajantes).

E foi mesmo. Viajou durante seis meses, tomando nota em seus moleskines (à época somente disponíveis numa papelaria parisiense) e ouvindo muitas histórias pelo caminho. Recontou-as mais tarde no livro, acrescentando muitas outras, prontamente desmentidas pelos nativos (há toda uma indústria de livros na Argentina para contradizer as histórias de Chatwin). O fato é que todos os registros da vida de Chatwin, além de depoimentos de amigos como Salman Rushdie e Martin Amis, dão conta de um sujeito que era um conversador brilhante e incansável, um contador de histórias absolutamente hipnotizante. Um mentiroso irresistível, em suma. Vai daí, talvez, o encanto de Na Patagônia: Chatwin enfileira história atrás de história, anedotas, causos, epifanias, contos, de gaúchos a cowboys, passando por refugiados russos, índios, cidades mortas. Tudo ao cubo. E num estilo desossado, com o olho sempre esperto para detalhes, algo realmente prodigioso, e sempre oferecendo com mil caminhos para seguir, como num dos livros mais frequentados pelo inglês: Viagem à Armênia, do russo Mandelstam.

O texto, porém, foi bastante reescrito depois que Chatwin voltou da viagem. Há um pequeno porém significativo livro de sua antiga editora, Susannah Clapp, que reconta todo o trabalho envolvido na produção do livro. É uma lição sobre o relacionamento entre autor e editor. Quando chegou às livrarias inglesas, o livro logo recebeu resenhas bastante positivas e ajudou a transformar Chatwin — um sujeito boa-pinta e com ótimos amigos — numa celebridade instantânea.

Fama que, no entanto, não o paralisou, muito pelo contrário. Sua carreira de escritor deslanchou, e nos anos seguintes ele iria escrever livros que hoje são pequenas joias da ficção contemporânea, influenciando autores como Sebald, Bolaño e Nicholas Shakespeare (autor de sua biografia, aliás), além de cineastas como Werner Herzog, que filmaria Cobra verde a partir de O vice-rei de Uidá.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca.