A nova safra

Por Luiz Schwarcz

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Uma das perguntas que me fazem com maior frequência é se eu leio todos os livros que publico. Há mais de uma década tenho explicado que isso é impossível, por conta do tamanho da editora. Não há tempo útil para ler tantos livros, ainda mais porque aqueles escritos por autores brasileiros contemporâneos são muitas vezes lidos mais de uma vez. Isso sem esquecer dos livros que leio e que acabam não sendo publicados. Gostaria de ter mais tempo para ler textos que não publiquei nem publicarei, e clássicos que nunca chegaram aos meus olhos.

Com as mudanças recentes na Companhia das Letras e com o reconhecimento de que o espírito de renovação é sempre bem-vindo à editora, tenho feito um esforço para ser mais aberto na forma de compartilhar as decisões, não me antecipando sempre a elas, e deixando que, cada dia mais, colegas de trabalho assumam riscos próprios. Quero que a cara da Companhia das Letras mude, sem perder o seu DNA de origem: a busca pelo melhor em literatura e para os leitores. Ainda mais agora, com os novos selos para novos públicos.

Hoje quero que meus traços fiquem menos presentes, ou que os traços da Companhia se confundam cada vez mais com os dos jovens editores da casa. O trabalho aqui sempre foi assim, desde o começo, com os vários editores que me acompanharam — principalmente com Maria Emília Bender, Marta Garcia e Heloisa Jahn, que estiveram comigo por mais tempo que qualquer outro colega na área editorial. A cara da Companhia sempre foi a cara criada pelos vários editores, e pelo resto da equipe, com o toque final da Elisa Braga, mesmo que eu tenha assumido mais o papel de faceta pública da empresa.

Num modelo editorial um pouco diferente, cabe a mim protagonizar cada vez menos, e deixar que escolhas ainda mais individuais deem o tom ao catálogo.

Me pergunto se devia ter feito isto antes. Certamente sim. Mas a generosidade necessária para saber delegar veio lentamente, com a idade, e ainda não chegou ao seu ponto ideal.

Muitos livros da história da Companhia não foram lidos por mim, e muitos representam apostas de editores com quem trabalho e trabalhei. Hoje isso ocorre com frequência ainda maior. Mas, mesmo na área em que tenho concentrado grande parte das minhas leituras — a nova literatura brasileira, que surge, tanto pelo amadurecimento de escritores consagrados que publicamos, quanto por uma safra impressionante de ótimos escritores jovens —, tenho tido ótimas surpresas.

Foi o que ocorreu ontem ao ler o livro de Juliana Frank, Meu coração de pedra-pomes, um livro de literatura brasileira contemporânea que eu não conheci, em nenhum dos estágios de sua edição: a leitura e edição começaram com a Marta Garcia e foram assumidas pela Julia Bussius.

O leitor que ironicamente congratulou-me, na semana retrasada, por finalmente ter indicado um livro verdadeiramente bom neste blog — o de Otto Lara Resende — talvez também não gostará da literatura de Juliana Frank. Sem o intuito de polemizar, acredito que a apreciação da boa literatura depende de juízos tão pessoais que por vezes requer esforço semelhante ao exercido pelo autor ao escrever. Pois, quando cria personagens e vozes narrativas diversas, nem sempre o escritor se projeta em discursos com os quais se identifica, ou que necessariamente remetem a referências de nosso cânone literário. Se assim fosse, a literatura não estaria viva e em constante mutação.

Acredito que em alguns casos, o livro requer do leitor um esforço de desprendimento pessoal semelhante ao vivido pelo autor. O leitor que está mais aberto a acompanhar narradores diferentes da sua autoimagem, ou do que idealiza artisticamente, tem mais chances de encontrar prazer e reconhecer qualidade num número maior de livros. O prazer da leitura fica prejudicado se procuramos nos livros o narrador que gostaríamos de ser, que fantasiamos ter sido em vidas passadas, ou mesmo que poderíamos encarnar num futuro cheio de imaginação, ou misticismo.

Eu que não havia lido uma linha do novo livro de Juliana Frank agradeço às duas gerações de editores que trabalham comigo por terem me apresentado — já como simples leitor que nada mais pode fazer pelo livro — a uma escritora que eu não poderia ser, com uma linguagem que nunca seria minha.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.