Apesar de certa, você está sempre errada

Por Juliana Frank
Soap bubble
Numa dessas idas sem eira e atrás de uma beira, escrevi “Meu coração de pedra-pomes”. Tentarei recuperar hoje o porquê de me ter vindo esse livro. Acredito que um escritor passa a vida colecionando imagens, sensações, experiências vividas ou inventadas. Até chegar a hora de sentar na cadeira e deixar as palavras roerem nossas ideias. Eu, no caso, estava apenas amarrando o cadarço e pensei: “é isso.” “É isso o quê?”, me perguntei. Sentei. Comecei na primeira pessoa indo para a segunda linha, até alcançar a terceira e assim por diante e por pouco tempo. Foram seis dias ao todo para escrever a minha história. Não comia, escrevia no lençol e ria da minha pieguice. Um dia saí para comprar um maço de cigarros e me vi de pijamas pela rua. Confesso que ouvi “Lawandas” pularem de dentro da boca dos lixeiros, dos pais de família, das bailarinas, do homem da pipoca e até dos paralelepípedos da rua Oitis, Gávea – minha residência temporariamente fixa na época. Este dia foi difícil achar o caminho de volta para casa. Eu já não lembrava o que tinha lido no almoço. Nesse passeio perdi, talvez, as minhas melhores páginas.

Eu morava na casa de uma mulher viciada em criar deuses. Ela ouvia a voz de algum santo, anjo ou diabo que a carregava pela casa orando e movimentando suas ancas de potranca xucra. Sim, ela rezava para a minha porta trancada, bem alto, desejando que a oração passasse pelas frestas e me alcançasse. Eu não falava com ela, claro, para poder escrever, dançar e repetir trechos em paz.

Ela queria o meu bem e eu a transformei na vilã da minha história. Mas era apenas uma pequena novela, eu me desculpava. Quis falar de sexo, família, doença renal, seres que passam câncer pelos olhos, bocetas hieráticas, deuses vingativos e cheios de vermes. E a loucura, claro, uma coisa de que gosto muito porque tem história. Por isso eu deixava o livro do Reich do meu lado. Para mim, são essas as questões que estão por aí maluquecendo pessoas.

Duas amigas reais me inspiraram para criar a personagem título. Misturei confusamente as moçoilas com meu ídolo Reich. Uma delas coleciona besouros e está sempre atenta. A outra tem lá sua mãe de merda.

Lembrei-me disso e saiu a Lawanda, que também sou eu em algumas passagens.

Explicar o que se escreve é como tentar dizer para crianças de onde vêm os bebês. Gosto mesmo é de falar do falo. Vivemos contando histórias uns para os outros. É uma mania atávica da humanidade que tem dado mais ou menos certo. Para compensar nossa orfandade vamos ao cinema, lemos livros relidos; alguns ainda vão à Igreja. Tem os que preferem celular, videogame, Skype. Outros se afogam nos bares, nas pernas de suas mulheres e em salas de aula. Sempre em busca de histórias. Jamais nos acostumamos com os “absurdos”. E as pessoas falam de tudo assim: “que horror”, “que bizarro”, “ah, vá, é um absurdo”. E o poeta disse que chavão abre porta grande. Será? Concordo que fecha também.

Em “Meu coração de pedra-pomes” freei uma admirável tendência de bobajar com palavras. Para mim, quem desenha a história é a personagem. E a única coisa que eu esperava da Lawanda é que ela tivesse uma visão clara das inutilidades: bolhas de sabão voando, besouros, sujeiras escondidas, chaves penduradas e perdidas. É o que realmente vale a bossa nessa vida.

Quando me perguntam o que pretendo alcançar com a literatura, digo apenas que quero ver minha geração escrevendo suas próprias histórias e as narrativas loucas atuais. Este é o nosso papel no filme. Quero ver jovens velhos e imaturos atentos a tudo numa época fragmentada e “definitivamente fora de foco”, que tornou possível uma literatura de colagem, em que uma ideia pode se ligar a qualquer outra. Descobri que seria escritora porque um professor de literatura me avisou que eu unia pensamentos descombinados. Ele me perguntou, colando o dedo indicador na minha têmpora:

— Juliana, onde anda sua redação atrasada?

Eu, roendo a ponta de um sanduíche quase mais velho que meus quinze anos, segredei:

— Professor, tenho uma tia deprimida, ela mora em Santos.

Portanto, vida longa aos que escrevem o que enxergam! Que sabem que “os clássicos eram os clássicos porque não tinham os clássicos para copiar”. O voo shakespeareaéreo já está alçado. Homero, Marquês de Sade e Anaïs Nin devem estar na cachola, decorados e orados. Sigo com referência, reverência, vício e amor profundo a eles. Mas ao mesmo tempo ando pelas ruas, vivendo pra tomar nota no meu caderninho. O que não é inovação ou demérito (como diz minha doppel Doralice, a que assinou por mim no lançamento).

As editoras estão receptivas e isso sim é o que vale. Marta Garcia e Julia Bussuis me ajudaram a ver o livro de fora. Confesso que ainda estou dentro dele, escrevendo a continuação da Lawanda diariamente em cadernos, arquivos múltiplos e indisciplinados. Porque, para mim, este livro não acaba aqui.

Levei mezzo brincando meu processo ao escrever o “Coração”. Mas entendo que nem todo mundo, nesse mundo devastado mundo, sabe brincar.

“Os homens vivem apostando corrida, Maria. (…) nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu.”

Paumério Dória me contou que o Paulo Mendes Campos, responsável por essa frase, jogava pedras na porta de vidro do Florentina quando o bar fechava. Isso! Brigava para beber. É isso o que nós queremos ver.

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Juliana Frank nasceu em São Paulo, em 1985. É roteirista e escritora e vive atualmente no Rio de Janeiro. Escreveu os livros Quenga de plástico (2011) e Cabeça de pimpinela (2013), ambos pela editora 7Letras, e participou da coletânea 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras, da Geração Editorial. Lançou recentemente o livro Meu coração de pedra-pomes, pela Companhia das Letras. Seus textos também foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, e nas revistas CultLado7.

Blog: http://joufrank.blogspot.com.br/