A questão do escritor

Por Joca Reiners Terron

6810975463_3b4dd96079

O cúmulo da ambição de um leitor é desejar todos os livros publicados em todas as línguas existentes, inclusive aquelas ainda por aprender e as que nunca aprenderá, embora saiba que uma vida inteira não seja suficiente para ler a totalidade dos livros publicados em sua língua materna e naquelas que por ventura venha a conhecer.

* * *

No entanto, dentre os maiores leitores da História, Montaigne afirmou ter uma biblioteca de não mais de cem exemplares. Tal economia de recursos não o impediu de ser quem foi. Lembro-me também de uma reportagem com o poeta Décio Pignatari na qual, após sua mudança do sítio onde viveu na região de Jundiaí para um apartamento menor em Curitiba, foi obrigado a se livrar de grande parte de sua biblioteca. Concluía a conversa afirmando que a biblioteca ideal não deve abrigar mais do que oitocentos volumes.

* * *

O conto “A viagem de inverno”, de Georges Perec, relata a descoberta de um livro impossível. Em um final de semana entediante no campo, o professor de letras Vincent Degraël lê ao acaso um volume retirado da biblioteca de seus anfitriões. No livro desconhecido, identifica frases e versos idênticos aos de alguns dos clássicos modernos franceses. Qual sua surpresa, porém, ao descobrir que o livro que tinha em mãos era anterior a todos aqueles clássicos. Aquelas páginas minguadas teriam originado tudo o que havia de essencial na literatura francesa? Então vem a guerra, e a biblioteca da casa de campo é destruída em um bombardeio. Degraël passa a vida a buscar outro exemplar de “A viagem de inverno”, sem nunca encontrá-lo, até morrer em um hospital psiquiátrico.

* * *

Desfecho mais comum entre aqueles marcados pela sina da leitura, a ambição desmedida de um leitor pode ser frustrada logo de início, ao não se encontrar um livro muito desejado, um título que foi traduzido em sua língua, e que em tese estaria ao alcance, dependendo apenas dos talentos de um bom livreiro. No entanto, uma vida inteira pode ser desperdiçada na caça a um volume impossível de ser encontrado, como a do pobre Degraël, e tamanha frustração, além de minar o ânimo de um leitor, pode destruí-lo.

* * *

Ao final do conto de Perec, após a morte de Degraël, seus alunos descobrem o caderno que reunia as informações relativas ao livro “A viagem de inverno”: “as oito primeiras páginas descreviam a história de suas pesquisas frustradas; as outras trezentas e noventa e duas estavam em branco”.

* * *

Interpreto o conto de Perec — um dos mais perfeitos que já li — como uma alegoria do nascimento do impulso criador. É, sem dúvida, uma metáfora de duplo corte, pois ao mesmo tempo que prefigura a faísca da invenção literária, sugere o fracasso que vem embutido em toda criação.

De todo modo, eis o que vem a ser um escritor: o leitor mais ambicioso que, ciente da impossibilidade de ler todos os livros, decide escrever aquele único que lhe falta, aquele único que não pode lhe faltar, preenchendo o espaço vazio da prateleira de sua estante com algo que não desapareça, que não precise ser procurado até o fim do mundo ou o limite de sua sanidade. Se vai conseguir, são outros quinhentos.

Essa busca é a própria atividade do escritor, a sua missão.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site — Twitter — Facebook