O Fim

Por Raphael Montes

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“Olha, querido, antes de tudo eu quero que você saiba que não é fácil para mim também… Pensei bastante antes de vir aqui falar com você, sabe? Tudo o que nós vivemos foi muito bonito… Muito bonito mesmo… Mas desde o início a gente sabia que estava com os dias contados, não é mesmo? Quero dizer… Gabriel, quando a gente se conheceu, você sabia que o meu coração já tinha dono, não sabia? Você sempre soube… Não era segredo para ninguém! Pois então, uma hora ou outra, esse momento iria chegar… E chegou! Chegou, Gabriel! Não pense que eu não gosto mais de você… Não, não… Ao contrário, eu te amo… Te amo muito, entende? E por isso mesmo é que não dá mais… Você sabe que eu tenho mais idade do que você… E que costumava ter mais controle sobre as coisas… Mas você, Gabriel, você me fez perder o controle… A sua juventude me encantou, me lançou nos ares… Bastava um fechar de olhos, pensando em você, e pronto! Era o fim! Me vinha um calor carcomendo as carnes, uma sede de sexo que nunca senti antes, entende? O seu sussurro quente no meu ouvido, as suas mãos brutas levantando o meu vestido, o gosto de vinho misturando-se em nossas bocas no beijo resfolegado… Ah, Gabriel, nós fomos muito felizes… Mas tudo acaba, não é? Cada um tem que seguir o seu caminho… E, meu Deus, quem sou eu para desviá-lo do seu destino? O seu nome já diz tudo… Gabriel é nome de anjo. E é isso o que você é, menino… Um anjo! Um homem de Deus… Você já era sacristão quando nós nos conhecemos… Sim, sim, eu sei… Foi tudo muito intenso… Fez você repensar os seus desejos, a sua religião… Mas em algum momento uma decisão haveria de ser tomada… E eu a estou tomando por você… Siga o seu caminho. Viva para a fé e esqueça toda essa coisa carnal que tivemos… Foi gostoso, mas acabou! Por favor, esqueça! Finja que nunca aconteceu… Finja que tudo não passou de uma amizade boba… Não faça essa cara… Por favor, não faça esse rosto entristecido! Eu preciso que me entenda… Vamos, Gabriel… Não pode ser tão difícil assim… Você é um sacristão! Tem que entender!”

“Tudo bem, eu entendo, padre.”

FIM

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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