A voz do gueto

Por Nei Lopes

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Para o Dia da Consciência Negra, convidamos o professor Muniz Sodré e o escritor Nei Lopes para escreverem sobre Entre o mundo e eu, livro em que Ta-Nehisi Coates mostra a seu filho através de cartas como a mácula da escravidão ainda está presente nas sociedades em diferentes roupagens e modos de segregação. A seguir, leia o depoimento de Nei Lopes.

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“Você é impotente ante o grande crime da história que foi permitir que existissem guetos” (grifamos). Esta afirmação resume a grande mensagem deste importante livro do afro-americano Ta-Nehisi Coates.

E o livro é relevante, entre outros aspectos, porque suscita comparações ao leitor brasileiro: dá vontade de aprender melhor como ocorreram, no Brasil e nos EUA, os respectivos processos de extinção da ordem escravista; como operaram as contradições no pós-abolicionismo, lá e cá; como o Brasil claramente apostou na solução do “problema negro” pela diluição de sua porção africana no grande caldo geral.

Ele faz também refletir sobre como, a partir dos conceitos de literatura “periférica”, “marginal” e/ou “independente”, alguns círculos de legitimação abraçaram, no Brasil, a ideia de criação de um gueto, não só dentro da literatura como um todo, mas principalmente dentro daquela literatura de combate ao racismo, produzida por afrodescendentes em geral. Dentro dessa legitimação, no Brasil de hoje, se o escritor não é do gueto, sua palavra não significa, não opera nem ecoa.

Observemos que embora este livro venha do ghetto (aqui a forma inglesa é indispensável), sua edição brasileira, sob o aspecto formal, comprova, na “Nota sobre o título”, consignada na página de créditos, que não há boa literatura sem o aval das instituições legitimadoras, como as academias e demais círculos formuladores dos cânones literários.

E é assim que a voz do gueto deixa de ser panfleto e se torna, realmente, obra literária relevante, como esta, e abre as portas do mundo.

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entreomundoENTRE O MUNDO E EU
Sinopse: 
Em um trabalho profundo que articula as maiores questões da história dos Estados Unidos e os ideais americanos com as preocupações mais íntimas de um pai por um filho, Ta-Nehisi Coates apresenta uma nova e poderosa reflexão para a compreensão da história norte-americana e de sua discussão racial atual. Como é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele? E como podemos todos nós contar e reconhecer de forma honesta essa história e, ao mesmo tempo, nos libertar do fardo que ela representa? Entre o mundo e eu é a tentativa de Ta-Nehisi Coates de responder a estas perguntas em uma carta a seu filho adolescente. Coates compartilha a história de seu despertar para a verdade sobre seu lugar no mundo por meio de uma série de experiências reveladoras.

Entre o mundo e eu já está nas livrarias.

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Nei Lopes é escritor afrocarioca. Seu livro mais recente é Rio Negro, 50, publicado em 2015 pela Editora Record.