Manolo, 100 anos – Parte I

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Imagem: Pedro Augusto G. Drummond

Hoje é o centenário do nascimento de Manuel Graña Etcheverry (1915-2015), autor do tão inesperado quando irônico Antologia Hede. O cordobês Manolo foi uma dessas figuras poliédricas que só poderiam ter sido geradas pela cultura argentina do século XX: advogado, poeta, bibliófilo, tradutor, deputado do Congresso Nacional aos trinta anos, amante do xadrez, genro de Carlos Drummond de Andrade, irresistível contador de causos. Uma figura como poucas.

Os textos a seguir testemunham a multiplicidade da experiência de Manolo durante sua longa e fervilhante trajetória. O primeiro deles é a carta em que Carlos Drummond de Andrade responde ao então jovem advogado sobre seu pedido de casamento com Maria Julieta, única filha do poeta mineiro. O casal teria três filhos: Carlos Manuel, Luis Mauricio e Pedro Augusto. Na segunda parte, uma bela evocação de Luis Mauricio sobre uma partida de xadrez com o pai. E, por fim, um poema de autoria do próprio Manolo.

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Rio, 3 outubro 1949

A Manuel Graña Etcheverry.

Meu amigo — não estranhe que o chame assim, dado o vínculo afetivo que se estabeleceu entre nós, sem sequer nos conhecermos —, aqui tenho sua carta de 24 de setembro, que minha mulher e eu lemos com o mais justificado interesse. Embora não disse nada de substancialmente novo sobre o acontecimento que a determinou e que já conhecíamos através de Maria Julieta, teve para nós o mérito de um cordial primeiro contato, feito de uma maneira tão pouco convencional, tão espontâneo, que nos causou uma grata impressão.

Vejo que avaliou bem o sentido de nossa atitude, ao aprovarmos logo a escolha de Maria Julieta, que implicava na perspectiva de uma separação bastante dura num casal que já não é rigorosamente jovem e não tem outros filhos com que se distrair. Realmente, abrimos mão da convivência com Maria Julieta e não temos nada para substituí-la, pois somos bastante misantropos. Mas nem eu nem minha mulher desejaríamos retê-la junto a nós em tal circunstância, movidos por um amor que seria afinal puro egoísmo de nossa parte.

O que nos diz a seu respeito aumenta as minhas esperanças de que este casamento constitua um belo e duradouro entendimento entre duas pessoas preparadas para isto. Maria Julieta é quase uma criança, mas, como terá visto, bastante amadurecida intelectualmente. Alguma das concepções que ela tem sobre o mundo e das coisas serão fruto desse avanço da experiência intelectual sobre a experiência propriamente humana. Caberá a seu marido ajustar no mesmo plano sensibilidade e razão. Ela não somente o ama como o admira tanto, que não tenho dúvida sobre a boa influência que poderá exercer sobre o destino de minha filha. Oriente-a e guie-a sempre no sentido mais elevado, de modo a que ela se realize plenamente e seja uma boa companheira sua para tudo — no bom como no mau tempo — e nós lhe seremos infinitamente reconhecidos por isso.

Desde já, o que lhe posso dizer é que nos sentimos ligados a V. pelo bem que quer a Maria Julieta e pela confiança que igualmente depositou nela.

Aqui o esperamos dentro de alguns dias e ficamos confiados no seu propósito de nos podermos ver a todos, no futuro, com a desejada frequência.

Cordial abraço de

Carlos Drummond de Andrade.

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Leia a segunda parte da homenagem a Manolo pelo seu centenário.