O corpo

Por Muniz Sodré

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Foto: University of Michigan’s Ford School

Para o Dia da Consciência Negra, convidamos o professor Muniz Sodré e o escritor Nei Lopes para escreverem sobre Entre o mundo e eu, livro em que Ta-Nehisi Coates mostra a seu filho através de cartas como a mácula da escravidão ainda está presente nas sociedades em diferentes roupagens e modos de segregação. A seguir, leia o depoimento de Muniz Sodré.

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Não à toa, o pensamento hindu associa no Bhagavad Gita o corpo à terra. São aí similares os princípios de gravidade e permanência, que fazem do corpo um campo de resistência às alterações indevidas. Aliás, intelectualmente, existe consenso quanto ao fato de que, na realidade, nós não “temos” simplesmente um corpo, pois “somos” igualmente corpo: a tentativa de conscientização coletiva dessa realidade orientou grande parte das ditas “contraculturas” dos anos 70, teorizadas por autores como Norman O. Brown, Berger e Luckmann e outros.

Neste magnífico relato intitulado Entre o mundo e eu, carta de alerta de um pai a seu filho sobre o racismo nos Estados Unidos, o corpo é o eixo de orientação existencial. “Você é um menino negro e precisa ser responsável pelo seu corpo de uma maneira que outros garotos jamais poderão entender”, diz o pai, Ta-Nehisi Coates, um afro-americano já célebre por sua forte denúncia da discriminação racial naquele país. Ele é taxativo: “Você também será responsável pelas piores ações de outros corpos negros (…) terá de ser responsável pelos corpos dos poderosos (…) não pode esquecer o quanto eles tiraram de nós e como transfiguraram nossos corpos em açúcar, tabaco, algodão e ouro”.

Para mim, é a pregnância filosófica dessa categoria “corpo” que dá força política ao recado deste texto. Enquanto as teorizações contraculturalistas dos anos 70 acabaram sendo recuperadas pelos estrategistas de mercado em função do consumo — que “libera” o corpo para torná-lo disponível a ofertas pré-programadas —, a voz atualíssima de Ta-Nehisi Coates é um grito novo. Por isso, diz ao filho: “Eu queria que você soubesse: na América, é tradição destruir o corpo negro;  é uma herança”.

Se sinceros, os leitores brasileiros deste texto imprescindível não poderão deixar de perceber que essa “herança”, o legado da forma social escravista, não é exclusiva da América. Dela ainda padecemos.

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entreomundoENTRE O MUNDO E EU
Sinopse: 
Em um trabalho profundo que articula as maiores questões da história dos Estados Unidos e os ideais americanos com as preocupações mais íntimas de um pai por um filho, Ta-Nehisi Coates apresenta uma nova e poderosa reflexão para a compreensão da história norte-americana e de sua discussão racial atual. Como é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele? E como podemos todos nós contar e reconhecer de forma honesta essa história e, ao mesmo tempo, nos libertar do fardo que ela representa? Entre o mundo e eu é a tentativa de Ta-Nehisi Coates de responder a estas perguntas em uma carta a seu filho adolescente. Coates compartilha a história de seu despertar para a verdade sobre seu lugar no mundo por meio de uma série de experiências reveladoras.

Entre o mundo e eu já está nas livrarias.

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Muniz Sodré é Professor Titular Emérito da UFRJ.