Lima Barreto subversivo

Por Felipe Botelho Correa

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Rio de Janeiro em 1915.

Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Felipe Botelho Correa, pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

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“Subversivo” foi a definição de Triste fim de Policarpo Quaresma em uma das poucas resenhas que apareceram nos jornais logo que a edição em livro do folhetim de Lima Barreto foi publicada em dezembro de 1915. Com ares de denúncia, o autor da crítica aponta o escritor carioca como pertencente a uma nova geração de intelectuais antirrepublicanos que ganharam espaço através de “publicações obscuras e desdenhadas que não receberam a tempo o corretivo devido”.

Foi de fato através de edições de baixo custo que Lima Barreto fez seu nome circular nas livrarias da época numa tentativa de dar sobrevida aos textos que publicava em revistas e jornais. Triste fim… é uma das pérolas dessa atuação incansável, combativa e debochada que ele encarnou sobretudo através da sátira. Atuação essa que ele próprio definia como consequência de suas implicâncias com certas ideias, indivíduos e práticas que surgiam nos primeiros anos da República no Brasil. “Não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada: tenho implicâncias”, afirmou ele em 1911.

Esse foi o mesmo ano em que escreveu a história de Policarpo Quaresma. O herói quixotesco, cujo destino já está marcado no título do romance, é um personagem que cultiva as origens e as características autênticas de sua pátria mítica “no silêncio do seu gabinete” através das leituras de uma seleta biblioteca com obras de ficção e de história exclusivamente sobre o Brasil. A história do triste fim do visionário estudioso do “culto das tradições” brasileiras aparece como subversivo não só por ridicularizar a administração republicana e tratá-la com desdém, como afirma o oficial militar autor da resenha tirânica, mas por expor, como um cronista burlesco que mata pelo riso, o caráter ridículo das ideias que surgiam no contexto político e social da jovem República.

O livro de Lima Barreto é uma resposta contundente e irreverente aos ultranacionalismos que pipocavam em textos como Porque me ufano de meu país (1900), de Afonso Celso, Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, ou mesmo no próprio Hino Nacional, cuja letra foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909 para idolatrar a pátria amada, que é imaginada deitada “em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo.”

Triste fim… é subversivo porque ousa pensar o Brasil para além das ideias de nação e pátria, e em busca de uma perspectiva mais complexa em relação aos problemas e tensões de sua época, como fica claro em outros textos de Lima Barreto publicados na imprensa. Em vários desses artigos, muitos deles recentemente descobertos e ainda inéditos em livro, a implicância com o nacionalismo essencialista fica evidente. Para ele, o conceito de humanidade deveria se sobrepor ao de pátria, e a literatura deveria ser a arte que, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, deveria trabalhar pela união da espécie, e não pela construção de conflitos, como a Primeira Guerra Mundial que já estava em curso quando, há cem anos, Lima Barreto bancou do próprio bolso a primeira edição deste livro que se tornou um clássico.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Felipe Botelho Correa é do Rio de Janeiro e transferiu-se para o Reino Unido, onde concluiu seu doutorado pela Universidade de Oxford. Atualmente é pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.