Recebendo originais

Por Raphael Montes

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Por ser um escritor jovem, é comum que escritores iniciantes venham me procurar para pedir conselhos e dicas para encontrar uma casa editorial. Em geral, não é fácil dar a resposta. Cada autor tem sua própria trajetória, e as possibilidades são tão distintas que fica difícil determinar um “caminho das pedras”. Ainda assim, resolvi fazer um exercício de imaginação aqui, considerando que sou um autor iniciante, com um original pronto. O que eu faria?

Antes de tudo, é preciso se assegurar de que o original está mesmo pronto. E por pronto eu não quero dizer apenas finalizado. É importante que você tenha deixado o livro “descansar” alguns meses e, então, tenha feito releituras, revisões e reescritas. É importante também que ele esteja bem revisado, sem erros grosseiros de português que tornem a leitura desagradável. Por fim, seu livro deve ter um bom começo. A verdade é que, na enorme pilha de originais que chegam aos editores, eles só conseguem ler as primeiras páginas de cada livro e é aí que decidem se vão continuar a ler aquele original ou se vão descartá-lo. Por isso, conquistar o editor logo de início é uma tarefa árdua, mas essencial. Se o seu livro é incrível, mas só engata mesmo a partir da página 27, você perdeu, meu amigo.

Considerando que seu livro está pronto, vamos à caça. No mercado, existem editoras grandes, médias e pequenas. Entre as pequenas, há aquelas que investem 100% no autor e outras que pedem que o autor banque parte da tiragem. Por fim, há sempre a possibilidade de autopublicação. Naturalmente, todo mundo quer ser publicado logo por uma editora grande. A editora grande tem atrativos como um nome conhecido, que vale como “selo de qualidade”, uma boa equipe de marketing e imprensa e, claro, uma eficiente rede de distribuição. Infelizmente, começar a carreira por uma editora grande não é nada fácil. Há, sim, casos de autores iniciantes que já começaram por editoras grandes, mas são raros. Em geral, acontece quando o autor iniciante já tem algum renome em sua área de atuação — como um veterinário que publica seu primeiro livro sobre animais de estimação — ou quando já tem um bom número de leitores garantidos — como um youtuber que tem milhões de seguidores.

De todo modo, sonhar não custa nada. Fosse eu um autor estreante com um original pronto, eu faria uma lista com as editoras grandes, médias e pequenas. Consultaria a política de recebimento de originais de cada uma, selecionaria aquelas que têm mais o “perfil” do meu livro, enviaria meu original para umas nove ou dez casas editorias e… Esperaria! Infelizmente, não adianta ter pressa. Em geral, o tempo de resposta é de meses — e de nada adianta ficar mandando e-mails para a editora cobrando uma resposta. Enquanto espera, comece a escrever o próximo livro.

Outro caminho interessante é enviar seu original para prêmios literários. Em 2011, quando eu buscava uma editora, havia dois prêmios literários para autores estreantes: o prêmio SESC de Literatura e o prêmio Benvirá (posteriormente chamado de prêmio Saraiva). Hoje em dia, o cenário está pior. Ao que tudo indica, o Prêmio Saraiva vai mal das pernas (alguém confirma?) e o Prêmio SESC, ao longo de suas edições, deixou bem claro o estilo de livros que premia — em geral, romances mais “literários”, com investigações de linguagem. Assim, a verdade é que não existe nenhum prêmio literário para autores estreantes de romances de gênero (policial, fantasia, terror, aventura, ficção científica). Talvez por isso nossa literatura de gênero ainda seja tão restrita a nichos. Falta incentivo.

Cabe ao governo federal e aos governos estaduais criar prêmios que incentivem o autor estreante. Por fim, seria bem interessante que algumas editoras fizessem seus próprios “prêmios literários”. Imaginem, por exemplo, um Prêmio Companhia das Letras para autores estreantes ou um Prêmio Intrínseca, Rocco etc. Naturalmente, não é algo tão fácil, pois há que se pensar em questões de logística e orçamento da editora. Mas não tenho dúvidas de que grandes talentos seriam descobertos — principalmente na literatura de gênero, tão maltratada. Fica a ideia.

Ps¹.: Falo um pouco mais deste assunto em uma coluna publicada em O GLOBO, que pode ser lida aqui.

Ps².: Quem quiser continuar a conversa, pode me procurar em minha página de autor no Facebook aqui.

Ps³.: Se você procura informações sobre a análise de originais pela Companhia das Letras, consulte o site da editora.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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