Do Amor como identidade

Por Samir Machado de Machado

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O cenário é uma saleta de leituras na Universidade de Cambridge, no ano de 1909. Um grupo de rapazes, na faixa dos vinte anos, está confortavelmente sentado em poltronas estofadas, engomados até o último fio de cabelo e engravatados na rigidez das roupas da época. Cada qual tem na mão um exemplar do mesmo livro, e alternam a leitura em voz alta entre si, sob o olhar atento e corretivo do professor de grego:

— Quando a alma olha para a beleza do ser amado, é nutrida, aquecida e se alegra (…), quando o amado lhe dá boas-vindas e começa a desfrutar de sua conversa e companhia, estabelece a intimidade e se acostuma a estar perto e a tocá-lo no ginásio ou outros lugares, a corrente daquele fluxo já mencionado, que Zeus apaixonado por Ganymedes chamou de atração…

Neste momento o professor interrompe a leitura:

— Omita a referência ao vício indizível dos gregos.

Os alunos se entreolham constrangidos, saltam alguns parágrafos do texto e a aula continua.

A cena é do filme Maurice, de 1987, adaptado do livro homônimo de E. M. Forster, e a situação que ela retrata é tão específico quanto arquetípica — pois o livro que está sendo lido em aula é nada menos que o Fedro de Platão, relançado agora no Brasil no selo Penguin-Companhia, em tradução direta do grego de Maria Cecília Gomes dos Reis.

De modo discreto, foi no século 19, em meados de 1840 — primeiros anos de reinado da rainha Vitória — que ocorrera o que talvez tenha sido o evento mais significativo da história da cultura homossexual até hoje: a introdução de estudos da obra de Platão, em novas traduções feitas então pelo teólogo inglês Benjamin Jowett. E ainda que o próprio Jowett dissesse, no seu prefácio do Fedro, que “o que Platão diz do amor dos homens deve ser transferido para o de homens por mulheres, antes que se atribua qualquer significado ao texto”, o fato permanece: os estudos de grego passaram a funcionar como um código interno entre homossexuais da época.

Talvez seja difícil para um leitor contemporâneo colocar em perspectiva que, antes da internet, da liberação sexual, da indústria cultural e mergulhada no conservadorismo vitoriano, não havia nenhuma fonte de discussões possíveis e razoáveis sobre o amor entre dois homens que não fosse pela obra de Platão. E nisso o Fedro foi fundamental. Pois não só é, essencialmente, um diálogo sobre a natureza do amor homoerótico, com uma defesa de Sócrates da superioridade do amor espiritual sobre a mera atração física (que se estende para uma discussão sobre a busca da verdade pela retórica) — é também um texto de uma intensidade poética belíssima.

A entrada de Platão e do Fedro no ambiente exclusivamente masculino, homoerótico por natureza, das universidades inglesas vitorianas, deu origem a uma geração de poetas e escritores “uranistas”, como Oscar Wilde propunha chamar os homossexuais de então. Sem Platão, não haveria Edward Carpenter, um dos primeiros ativistas LGBT ingleses — ou o próprio Wilde. Uma noite de leituras febris do Fedro transformou a vida do poeta inglês John Addington Symonds, que viria a influenciar Henry James. É na leitura do Fedro que Clive, um dos protagonistas do Maurice de Forster, primeiro se dá conta da “inversão” do seu desejo. No romance de guerra O Auriga, da inglesa Mary Renault, presentear com um exemplar do Fedro antes de ser expulso do colégio é uma forma de Ralph, o garoto mais velho, “passar a tocha” para seu amigo Odell — “leia, está tudo aí”, diz ele, entregando-lhe o livro. É um gesto pleno de significados, explorado literariamente em romances do século XVIII e que foi ganhando intensidade entre escritores do final da Era Vitoriana: o de uma identidade sexual que se revela através do gesto de uma troca de livros.

Mais do que um código secreto, a troca de livros, a leitura e os estudos do Fedro são um dos pilares da construção de uma identidade que tomaria força com o século XX. Pois o que acontece quando pessoas com características em comum começam a se comunicar é que elas descobrem problemas e anseios em comum, formam uma cultura própria e, por fim, uma identidade em comum. E quando essa identidade é sistematicamente perseguida e ridicularizada, quando não destruída, a própria afirmação de sua existência passa a ser um ato político. Quando nisso se soma uma afirmação de felicidade em ser e existir, ao ato político se soma uma afronta.

E é interessante olhar e ver que o ponto de partida da construção dessa identidade tenha sido, justamente, um diálogo sobre o amor.

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Samir Machado de Machado nasceu em Porto Alegre (RS), em 1981. É escritor, roteirista e designer gráfico. Organizou a coleção de coletâneas Ficção de Polpa  (Não Editora), e publicou o romance Quatro Soldados (Não Editora) em 2013. Seu último livro, Homens Elegantes (Rocco), foi lançado em 2016.